Ao Povo Brasileiro – O mito da Meritocracia como chave interpretativa ao sonho do pequeno burguês

Mérito. Palavra tão presente no cotidiano mas de não tão fácil definição. Fala-se muito de “meritocracia” nos discursos liberais e no “mérito” dos campeões do capitalismo. O fato é: o que é esse tal mérito?

A palavra carrega consigo um conjunto de valores associados a determinada sociedade. Nas sociedades ameríndias do tronco linguísticos tupi-guarani, o grande guerreiro da tribo fazia jus à honrarias, dado ao mérito de suas ações em batalha. O pajé, em tais sociedades, também desfrutava de posição destacada, dado ao poder que tinha na condução de assuntos xamânicos, também valorizados pelo seu conjunto social. Interessante verificar que em tais sociedades, os valores dos indivíduos (que justificam honrarias por mérito) estão diretamente ligados aos interesses do conjunto social (caça, cura, espiritualidade) no qual se inserem. Ou seja, ainda que de maneira não planejada, existe uma percepção geral sobre o que é importante para a sobrevivência do grupo.

Diversas sociedades experimentaram outras estruturas de valor. Tendo ou não dado certo do ponto de vista dos valores de outras sociedades, fato é que os comunistas propuseram alternativa, que traria em mente a necessidade de se contemplar o aspecto econômico do mundo e, em paralelo, de não se dissipar os valores do indivíduo em face da sociedade na qual se insere. Assim, deveria ser dado valor às contribuições do indivíduo na cultura, na medicina, nas ciências exatas, tendo-se por base as necessidades de uma sociedade, a qual buscaria planejar o seu desenvolvimento e estimular os indivíduos a contribuir de forma mais significativa para a sociedade.

É claro existem muitos outros modelos e, mesmo naqueles anteriormente citados, variações das mais amplas. Muitas são as discussões de como deve ser estruturada uma sociedade para privilegiar os talentos individuais e o desenvolvimento coletivo. No entanto, nem sempre o mérito e as honrarias estão conectadas com os valores de umas e outras sociedades e, não raro, nem internamente as estruturas sociais conseguem fazer sentido suficiente para contemplar de forma racional os valores que julgam defender.

Assim também com o mérito. Mérito nem sempre é bom, dado que os valores de determinada sociedade podem ser, no limite, interpretados como maus valores por outras. Isso pode ocorrer em menor escala, como no exemplo de um grupo de soldados que conta e se premia pelo maior número de mulheres civis que violenta em sua campanha militar ou no exemplo de um grupo de bandidos que reconhecem maior autoridade no indivíduo que mais violência consiga impor nas ações criminosas. Em grandes escalas também foi visto. Basta revisitar a história de invasão da América Latina pelos povos europeus ou, mais recentemente, a shoah.

É importante verificar, portanto, que os valores de uma sociedade também se chocam entre si. Na perspectiva daqueles que perpetraram os maiores crimes da história mundial, a sua conduta era correta, balizada naquilo que seu grupo social entendia como garantia de continuidade e desenvolvimento. Se formos ampliar um pouco mais os conceitos, em toda guerra as nações acreditam estar com a razão para dizimar a outra. Tudo se relativiza, dado que, no grande debate da sobrevivência, a força dos humanos sempre esteve na sua capacidade de organização, um caráter gregário paradoxalmente intensificado pela guerra.

Na atual sociedade proto-capitalista e pseudo-liberal não seria diferente. Os valores individuais do homem deixam claro que o sucesso de determinada sociedade pode ser medido pela capacidade de seus indivíduos em ter acesso a bens de consumo. Um bom conceito. De forma simplificada, se o sistema capitalista permite trocar por dinheiro os produtos e serviços que permitem uma “boa vida” (nos valores hedonistas de uma sociedade liberal), uma sociedade deve competir com outras para permitir maior acúmulo financeiro. Do ponto de vista macro, os países devem competir no mercado internacional para levar vantagem nas trocas comerciais e, com isso, disponibilizar mais dinheiro (= felicidade) a seus conterrâneos. Para tanto, valem-se no plano internacional daquilo que é perceptível em qualquer mercado de rua em qualquer país: vender ideias, impor modelos, criticar produtos que não detém, exacerbar as características positivas do que vende.

Tendo-se por base este pano de fundo, vem o desenho interno desta sociedade. O pequeno burguês, “cinzento e entediado”, tem como meta de vida ser reconhecido pelo grupo por conta de suas qualidades individuais. Até aí, parecido com os exemplos do início, com a diferença que, para este indivíduo, não é a potencialização do conjunto que interessa, mas a própria. No limite, a guerra do pequeno burguês é travada para que a sociedade o reconheça e não para que ele se faça reconhecido pela sociedade. Não raro, a organização por excelência da sociedade liberal-capitalista (a empresa) age no sentido de deformar o conjunto de interesses democraticamente estabelecido para promover alguma qualidade de determinado indivíduo ou seu grupo restrito. A plutocracia liberal-capitalista não consegue lidar com as regras do jogo, pois da sua perspectiva individualista, caso o jogo não reconheça a sua competência, é porque não estava certo.

Aí se iniciam uma série de deformações do conceito inicial. O direito de propriedade deve ser hereditariamente passado? E qual o mérito do filho em relação ao valor acumulado pelo pai? O conjunto social deve ser taxado para promover vantagens econômico-financeiras para um pequeno grupo de grandes acumuladores? Mas se são tão bons, por que precisam do dinheiro da multidão de medíocres? A história do capitalismo e do discurso liberal é cheio de exemplos que também não se alinham com suas falas de valores. A meritocracia não conversa com os valores liberais na sua plenitude, ao contrário, se a lupa da razão permitir uma análise menos perfunctória, logo se acham os mesmos genes dos antigos regimes aristocráticos do passado.

É assim por todo o mundo. O burguês brasileiro não é diferente. Consome os produtos estrangeiros e se sacrifica pelo sonho de ser um capitalista. Coitado… Não existe espaço para ele neste universo. A “virada” do capital ocorre muito mais por desleixo dos detentores do capital do que por mérito individual do pequeno burguês. Como ele não consegue subir, se vende no mercado de argumentos tentando convencer que “seu esforço é o maior” ou “que nessa sociedade quem leva o grupo é a classe média”. Pobres cegos. Olham para o distante brilho do ouro mergulhados até o pescoço na lama. E riem-se daqueles que se afogam ao seu lado: “eu ainda posso chegar lá”.

Uma coisa os grandes capitalistas conseguiram com fervor: vender o ideal de meritocracia que, em verdade, não possuem. Todos batiam palmas para Eike Batista, Emílio e Marcelo Odebrecht e tantos hoje que são execrados pela opinião pública. Mas outros sobrevivem: Lemann, Sicupira e Telles ainda andam por aí, mesmo depois de terem reconhecido a conduta reprovável de obstrução da atuação do CADE no seu reconhecido livro “Sonho Grande”. Isso, obviamente, importa menos diante do mérito obtido pela fantástica acumulação de capitais. Merecem aplausos e reconhecimentos. A Ambev nasce de uma conduta deplorável que teve o CADE e a sociedade brasileira como vítimas. Mesmo atualmente, os relatos de que a “escola para ricos” da Fundação Lemann no Rio de Janeiro cobra “kick back” pelo serviço de transporte dos alunos (onerando de forma imperceptível os seus clientes) não são capazes de manchar a iniciativa: “nossa, como é um gênio”.

Assim, o pequeno burguês reconhece no Estado o seu inimigo número 1. Claro… Embora o Estado imponha regras para o pequeno burguês, não é capaz de fazer o mesmo com o capitalista. Nesse momento pobres e burgueses estão na mesma sala e… burgueses não suportam o cheiro de pobre. Queriam poder dobrar o Estado, andar em seus iates e se relacionar com estrelas de cinema. Não existe consciência de grupo no burguês, o que torna tudo ainda mais fácil para o Capitalista: como todos são individualistas, basta comprar a preços razoáveis a política local e pilotar o Governo. Nada novo, mesma técnica desde a colônia.

Os burgueses revoltados dão ainda aso a outras figuras explicáveis apenas diante de suas frustrações com o sistema. Como se julgam “muito sacrificados” e “freados pela ineficiência estatal”, apoiam discursos fracos de diferenciação. Suas frustrações podem gerar crimes que permitam “tentar ingresso no mundo capitalista” (sonegação de impostos, crimes econômicos, não pagamento de dívidas etc.) mas não toleram os crimes que os tirem de suas pequenas posses (assaltos, furtos, sequestros). O argumento de “mais violência” é uma “venda no mercado dos argumentos” dado que não pode existir nada mais violento do que a inexistência de remédios e dinheiro para o grupo social mais necessitado. O trabalho do pequeno burguês é se aceitar em sua pequenez e tentar subverter o jogo. Apoia figuras com o discurso militar-liberal, dado que se integram com seus desejos mais profundos: ter dinheiro e poder.

A eles, no entanto, sobra apenas olhar, ao lado dos pobres, por cima dos altos muros das mansões.

 

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