Ao povo brasileiro

Tempos existem em que a conturbação nos corações nacionais provocam o ressurgimento de figuras historicamente necessárias. O atual momento brasileiro é um deles. Mais do que pelo momento, mas pela trajetória do Brasil. Um caminho sulcado com bases bem definidas por nações alheias a esses que reconhecemos como nosso povo. Se, no passado, outras vezes se refletiu a consolidação de um projeto brasileiro, hoje ressurgimos com a missão de falar a um grupo muito mais heterogêneo sobre o seu sentido e missão. O Brasil, após séculos de incerteza e medo, parece estar receptivo a um projeto que, tal qual no passado, foi muito bem construído para a outras nações.

O ponto inicial é: qual o sentido do Brasil?

Diferentemente dos povos do norte, não nos reconhecemos como federação, mas fomos construídos formalmente como tal. Ainda hoje não entendemos muito bem os motivos de olharmos para nossos espelhos e, após nos compararmos com nossos compatriotas, chamar-nos de “brasileiros”. Somos o somatório de uma série de empreitadas estrangeiras com a finalidade de exploração. Nossas bases sociais, nossas instituições, nossa vocação técnica e nossos sonhos são introjetados a partir de ideários de terras estrangeiras diretamente para o coração de nossas crianças. A tecnologia que não produzimos ou dominamos é a “mais necessária” à felicidade. O dinheiro que não imprimimos é o “padrão internacional”. A precificação de nossos produtos é feita por bolsas de valores que não vendem ou produzem tais bens. O Brasil é, hoje, parte de uma engenhosa máquina econômica internacional que se alimenta de gente próxima para fabricar conforto distante. Longe do manche, segue no rastro da água dos galeões internacionais.

Uma reflexão necessária: sempre foi assim?

Não. O Brasil, diferentemente de seus irmãos subdesenvolvidos insiste em ser mais. Repousa sobre esta terra o espírito indomável dos índios que espantaram, por décadas, a empreitada estrangeira para o continente africano. Há conosco também a alma dos grandes homens espiritualizados que ensinaram a gente simples e ignorante a revoltar-se contra a própria situação. Penetra, na terra fértil de ideias e criatividade, uma força indomável que insiste em buscar uma fuga por entre as frestas das engrenagens da máquina. Foi assim com a reflexão pela independência. Com as sucessivas tentativas de ilustração de índios (quando no restante da Europa o ensino era privilégio de uma nobreza em decadência).

Na modernidade, foi tal ímpeto que jogou o país na industrialização e na estruturação de suas primeiras bases de independência intelectual. Foi este espírito que materializou Brasília e sua conexão com o restante do país, por estradas que deram vazão às riquezas e conectou o povo sofrido com as fontes de riquezas das áreas já maduras. Foi este o espírito que retirou presidentes de seus gabinetes para romper com seus mecenas em favor da nação. Esse espírito, que não se guarda em uma lembrança ou memória, em um indivíduo ou em uma construção, está presente na terra. Existiram momentos, que os rivais estrangeiros insistem em desmerecer, em que todos os destoantes povos deram as mãos e construíram um projeto profundamente brasileiro. Foi assim que o Brasil saiu de nação esquecida para a 15ª economia mundial e, mais recentemente, 7ª. Esta é uma conquista do povo e seu guia etéreo. Não de grupos proto-esclarecidos em união com os que negam a nacionalidade brasileira. Foi o povo e sua audácia de romper com o conformismo inoculado pelo discurso derrotista.

Foi o período de Ditadura Militar aquele que mais se buscou matar o nacionalismo brasileiro. Com um discurso de “defesa dos interesses nacionais”, implantou-se os interesses americanos no Brasil sem dar espaço a um discurso independente. Ou seja, como o mundo era preto e branco, destro ou canhoto, a alternativa era escolher qual mão decepar. Com esse discurso, não importou quanto de sangue e sonhos se extirparia da sociedade para que apenas uma mão sobrevivesse. Bombas, tiros, assassinatos, ocultações, ameaças calaram os corações do povo mais simples que, sem muita chance de reação, escolheu a mão destra para arrancar-lhe a canhota. O problema é que o Brasil é, e sempre será, ambidestro.

Deve-se apostar em um caminho nacional?

Este é o maior medo das nações estrangeiras. Enquanto o governo recente fabricava de maneira tosca os seus “campeões nacionais”, tais figuras extirpavam do Brasil a sua força e crenças. No discurso “meritocrático” dos “megaempresários nacionais” está escondida a sua conduta pouco ética e o expediente que longe passa do valor individual. Os empresários nacionais, na forma como se estabelecem, são produto do meio e das crenças mais rotas da estrutura brasileira. Em grande parte das vezes, aproveitadores e transgressores de normas que, por muito tempo, assassinam as regras para, só então, propugnar por uma ética hipócrita que em nada fala com o que o país é de verdade. Embora gostemos de nossos compatriotas vencedores, os admiramos na proporção de sua humildade. É o pé no chão e a mão na enxada que chama a atenção do brasileiro, não os importados de aparência artificialmente transplantada.

São estas as reflexões que farão parte dos textos que passaremos a dividir com o nosso povo aqui no Disparada.

Nossas crenças e nossos valores, na construção de um projeto nacional.

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