Dunkirk de Christhopher Nolan é nacionalismo em imagem e som de alta definição

Christopher Nolan realizou mais uma parceria incrível com o compositor de trilhas sonoras Hans Zimmer em “Dunkirk” que estreou nos cinemas brasileiros em julho. Zimmer é o premiadíssimo autor das trilhas sonoras de “O Rei Leão” da Disney, “Melhor é Impossível” que rendeu um Oscar para Jack Nicholson, e de vários filmes em parceria com Ridley Scott, como “Gladiador”, “Hannibal” e “Falcão Negro em Perigo”, além dos blockbusters “Piratas do Caribe”, o terror “O Chamado” e o também nacionalista (mas excessivamente caricato) “Pearl Harbor”. Com Nolan, realizou outros grandes sucessos como a trilogia “Batman: O Cavaleiro das Trevas”, “A Origem” e “Interstellar”.

Começo citando isso porque o som é absolutamente definidor da grandeza do filme, assim como Nino Rota1 é definidor da grandeza de “O Poderoso Chefão” de Francis Ford Coppola, e Ennio Morricone é de “Era Uma Vez No Oeste” de Sergio Leone, e de “Os 8 Odiados” de Quentin Tarantino.

A direção intrincada com diversos clímax e lapsos temporais de Nolan, com a trilha tensa de Zimmer, faz com que o filme crie uma sensação permanente de terror. Assim como em filmes de suspense, o vilão praticamente não aparece, é visto de longe, em cenas muito velozes, mas belas, no espaço aéreo do Canal da Mancha. Dessa forma, é o medo que impõe a sua presença, como um ente sobrenatural a espreita do momento do susto.

A reconstrução perfeccionista da aviação da Segunda Guerra Mundial, com os caças autênticos da época, da Royal Air Force e da Luftwaffe nazista, é marcada pelo fetiche por antiguidades da industrialização bélica. Além disso, o filme praticamente não tem diálogos, apenas foca no mínimo para explicar à plateia as manobras militares, alguns conflitos humanos da situação de guerra e desespero, mas principalmente do nacionalismo de um povo que foi salvar seu exército. Este é o assunto dessa obra embalada pelas mais sofisticadas tecnologias cinematográficas e pela habilidade de artistas extraordinários.

Em 1940, após contornar a Linha Maginot (sistema de trincheiras e casamatas francês) pela Holanda e Bélgica, o exército da Alemanha de Hitler cercou os ingleses e franceses em Dunkirk, uma pequena cidade portuária francesa no Canal da Mancha. Cerca de 400 mil homens ingleses, um contingente gigantesco da infantaria britânica, ficaram espremidos entre o mar e as divisões de tanques Panzer. O plano alemão era não colocar seus tanques em risco numa batalha esquina por esquina, e massacrar os ingleses e franceses com bombardeios aéreos. Enquanto isso, a marinha inglesa sofria com os torpedos dos U-Boats (submarinos alemães) e seus navios eram afundados um a um ao atracar no porto de Dunkirk. O Estado-maior inglês hesitava em fazer uma operação maior com sua Royal Air Force e seus navios de guerra, pois previa que precisava resguardá-los para a iminente invasão nazista à Grã-Bretanha após a queda da França.

Soldados ingleses na praia de Dunkirk

 

O filme de Nolan mostra o espírito animal que toma conta dos homens quando sua racionalidade simplesmente não encontra saída para a sobrevivência. Mas a Inglaterra não é um amontoado de pessoas que falam a mesma língua, moram num mesmo espaço, sob o jugo de um Rei. A Inglaterra é uma nação, forjada por disputas sangrentas externas e internas protagonizadas por seu povo. Além de ler os clássicos de Christopher Hill, E. P. Thompson ou Eric Hobsbawn, podemos testemunhar essa história através do cinema.

Recentemente, sem saber da estreia vindoura de “Dunkirk”, resolvi assistir novamente alguns filmes sobre a história inglesa, motivado pela belíssima série “The Crown” do Netflix sobre a rainha Elizabeth II (ainda no trono). Comecei pelo filme “Elizabeth”, de 1998, com Cate Blanchet no papel da “Rainha Virgem”, que escolheu não se casar e governar com altivez sem se intimidar pelas conspirações dentro da corte. Elizabeth I era a filha bastarda de Henrique VIII, que rompeu com o catolicismo para se divorciar da espanhola Catarina de Aragão e se casar com Ana Bolena. Assim, fundou a Igreja Anglicana da Inglaterra, inaugurando sangrentas disputas entre católicos e protestantes pelo trono inglês.

Em seguida veio o segundo filme de atuação incrível de Cate Blanchet, “Elizabeth: A Era de Ouro”, de 2007, que mostra a consolidação da Inglaterra como potência europeia ao ser atacada por conspirações do Vaticano, que pretendia coroar sua prima católica da Escócia, Mary Stuart. Mas é o Rei Filipe da Espanha, o império hegemônico na passagem do século XV para o XVI, que me faz pensar em “Dunkirk”. Assim como Hitler, Filipe tentou invadir a ilha britânica com sua “Invencível Armada”, como era conhecida a marinha espanhola na era das grandes navegações. E foi sob a liderança tenaz de sua Rainha, que o povo inglês, através da sua nascente marinha, formada por piratas e corsários que desbravavam o Novo Mundo e o que viria a ser o Império Britânico presente em todos os oceanos do planeta, impediu que as fogueiras da Inquisição Católica subjugassem sua nação.

Após a morte de Elizabeth, os católicos Stuarts voltam ao trono, e Carlos I entra em conflito com o parlamento, dissolvendo-o e permanecendo mais de uma década sem convocá-lo. Então assisti ao filme “Cromwell”, de 1970, com Richard Harris, que mostra os conflitos religiosos entre puritanos e católicos, além do início dos grandes cercamentos das terras comuns, e das disputas no seio da nobreza inglesa. Como é sabido, o absolutismo de Carlos I terminou com a guerra civil de 1640 e a sua decapitação. Após um breve período republicano liderado pelo puritano Oliver Cromwell, a Inglaterra instituiu a monarquia parlamentar na qual o Rei é o chefe de Estado, mas quem governa é o parlamento através do primeiro-ministro.

O que nos leva ao mais importante de todos os chefes de governo da Inglaterra, Winston Churchill, cujo primeiro mandato inicia-se já com a Segunda Guerra Mundial em curso. Mas antes é preciso não deixar escapar que, apesar do poder de fato ser exercido pelo Parlamento, a história inglesa não abriu mão da monarquia, e sua importância como símbolo unificador da nação é muito bem retratada pelo filme “O Discurso do Rei”, de 2010.

Se Churchill era o homem por trás das estratégias e decisões, o Rei George teve de superar a desconfiança decorrente da abdicação do irmão e a gagueira, para se apresentar como líder de um povo acossado pelo poderio militar irresistível da Alemanha nazista. O que aprendi com “The Crown” e “O Discurso do Rei”, é que apesar da futilidade de manter os custos absurdos da Família Real, a Coroa não é apenas uma imposição impertinente de uma nobreza decadente (ainda que também o seja, mas de forma secundária), mas é o cimento ideológico que estrutura um espírito nacional forjado em mais de 400 anos. Não foi o imperialismo inglês e sua arrogância perante suas colônias que forjou o sistema da monarquia parlamentar. Na verdade, foi a necessidade de unificar um povo dilacerado por guerras religiosas e invasões estrangeiras que marca essa nação que se agarra a um símbolo anacrônico.

No filme “Into The Storm”, de 2008, sobre a atuação de Churchill na Segunda Guerra Mundial, logo no início, o primeiro-ministro tem de lidar com a crise de Dunkirk. Ele requisita que todas as embarcações civis sejam usadas para resgatar os soldados ingleses nas praias francesas. Uma cena logo explicita o que é esse sentimento nacional: um almirante do Estado-maior de Churchill diz que possui um barco de pesca em sua propriedade no litoral, e solicita permissão para deixar Londres e ir auxiliar no resgate, não como oficial do alto escalão da marinha inglesa, mas como cidadão proprietário de um pequeno barco. A população inglesa não é um amontoado de indivíduos apenas, é um povo nacional conectado pelo sangue derramado na defesa de seu território.

Winston Churchill

O filme de Nolan conta um desses episódios. Inicialmente o plano era salvar pelo menos 30 mil homens, mas a ousadia da estratégia permitiu que quase 340 mil fossem levados de volta para casa. Literalmente foi o povo, pescadores, marinheiros civis, aposentados com seus barcos de lazer etc., que foram salvar os soldados treinados para protegê-los. Churchill discursou no Parlamento ao final da missão de resgate no dia 4 de junho de 1940: “Iremos até ao fim. Lutaremos na França. Lutaremos nos mares e oceanos, lutaremos com confiança crescente e força crescente no ar, defenderemos nossa ilha, qualquer que seja o custo. Lutaremos nas praias, lutaremos nos terrenos de desembarque, lutaremos nos campos e nas ruas, lutaremos nas colinas; nunca nos renderemos”.

Assistam Dunkirk.

Referências

  1. Errata: Alertado pelo leitor José Octavio Abramo, corrigi o fato de que quem fez a trilha sonora de “O Poderoso Chefão” foi Nino Rota e não Ennio Morricone como constava. Me confundi, provavelmente, pelo fato de Morricone ter feito outros belíssimos filmes sobre a máfia como “Os Intocáveis”, “Bugsy” e “Era Uma Vez Na América”.

2 Comments

  • Uma pequena correção, Nino Rota é quem fez “O Poderoso Chefão”.

    • Obrigado pelo aviso! Fiz uma nota corrigindo.

Deixe uma resposta