O que os memes devem à história da arte

Por Alice Bucknell, via Artsy, traduzido por Isabella Lofrano.

 

Memes são o meio democratizador do nosso presente digital coletivo. Fácil de fazer, fácil de compartilhar, instantaneamente reconhecível, um pouco absurdo e às vezes pegajoso; uma provocação hilária diante dos erros mundiais, escândalos, protestos e hipocrisias. Da cultura pop à política, os memes se expandem através de nossos feeds do Facebook, primeiro criticando um anúncio da Pepsi descompassado e, em seguida, apresentando-se em sinais rabiscados a mão em manifestações anti-Trump. No mundo pós-internet, nada escapa ao olhar cômico do meme, e o método vem sendo reconhecido como um veículo de transmissão artística para esse momento online interconectado. Os puristas da alta arte deliberadamente evitam o argumento, mas a influência estética e social da cultura meme contemporânea, inegavelmente, tem raízes profundas no cânone artístico-histórico pré-digital.

Andy Warhol, Ten Lizes, 1963

“Memes são essencialmente 100 anos de arte textual reduzidos em seu feed”, disse o professor Darren Wershler, pesquisador da Universidade Concordia, que argumenta que os memes são um tipo de “Conceitualismo cotidiano”. Por meio de um tratamento irônico e brincalhão de um sujeito fragmentado, os memes devem ser entendidos como os descendentes digitais de artistas como Man Ray, Walker Evans e Andy Warhol – todas as vanguardas cujas práticas em grande medida corresponderam a rupturas informacionais e sociais.

Man Ray, Object To Be Destroyed, 1923

Os memes resistem à cultura normativa de hoje da mesma forma que a virada performativa da década de 1960 perturbou o modernismo. Assim como a performance artística dos anos 60, os memes são programados com uma imprevisibilidade e contam, ainda, com uma interface “hackeável” que pode ser facilmente apropriada e substituída – qualquer pessoa pode fazer um meme. A performance artística trouxe a arte para a rua e os espaços públicos, nivelando a diferença entre artista e público. Da mesma forma, os memes oferecem uma plataforma de produção altamente acessível e interativa que está madura para o desafio e a dissensão, com desentendimentos e controvérsias, apenas alimentando o fogo de um meme bem-sucedido, que seja realmente viral. Alguns memes se dissipam e desaparecem. E daí? A economia volátil e de baixas apostas dos memes reafirma a forma como um tipo de performance, ao invés de um objeto puramente visual.

Andy Warhol, Orange Car Crash Fourteen Times, 1963

Casar desenho gráfico e memes com essa mentalidade performativa é o coração da “Action to Surface”, uma nova publicação do The Rodina, um coletivo de design situado em Amsterdã. Nele, a dupla estabelece a urgência política da cultura visual de superfície, na qual, assim como a arte de performance dos anos 60, os memes resistem à cultura normativa de hoje. Tereza Ruller, co-fundadora do The Rodina, descreveu o conceito de “superfície democratizada”, na qual o design se torna um espelho interativo de duas vias, que é sustentado pela sociedade em geral. Através do humor, os memes incitam uma reação coletiva à vida cotidiana, além de se revelarem nela, em um formato não menos brincalhão do que político, decodificando os nebulosos desafios estruturais, paradoxos e hipocrisias do nosso clima político atual.

Marcel Duchamp, L.H.O.O.Q., 1919

Em um recente projeto intitulado “A Voz da Holanda”, o The Rodina criou uma “campanha anti-campanha” contra o Partido Para a Liberdade (PVV), de extrema-direita, liderado por Geert Wilders. A fim de ridicularizar sua retórica bombástica e expor o ódio e a xenofobia de seu manifesto anti-imigrante, o coletivo fez uma série de cartazes de campanha de falsificação (lançados como GIFs) que se apropriaram da linguagem e da identidade gráfica da campanha do PVV. Acompanhado por uma lista de memes de mentalidade semelhante que se espalhavam pelas mídias sociais sob a lista de disparadores, a ação decolou e reforçou a resistência para os que conheciam, contribuindo sem dúvida para a espalhafatosa derrota do PVV nas eleições gerais holandesas no dia 15 de março.

Gif The Rondina, via Artsy

Wershler, contudo, observa os limites dos memes políticos compreendidos isoladamente. “As narrativas importam… as imagens não falam por si mesmas”, disse ele, argumentando que os memes não são apenas zoeiras, eles têm o potencial de ser mais sinistros do que aquilo que os olhos podem enxergar. “Os memes não são um processo inocente – eles carregam um peso político sério e nem sempre do espectro ativista”, disse Wershler, citando o painel de política do website 4chan e outras comunidades da direita alternativa (alt-right), onde o discurso de ódio está infectado sob a forma de memes.

No verão passado, Post organizou a icônica exposição “What do You Meme?”, hospedada pela colisão da arte insurgente de Londres, Copeland Park.

Cartaz da exposição: “What do you meme?”, via Artsy

Ao explicar suas seleções para a exposição – todas as artistas mulheres, um mix de Instagram meme queens e praticantes do IRL (In Real Life) – Post falou sobre o poder subversivo e sub-cultural dos memes em subestimar o papel do artista, assim como foi o caso da arte folk e do pós-modernismo. Discutindo dois dos artistas incluídos, Pantyhoe$ e Meme Gold, Post disse que o par “levou memes offline, trazendo a URL ao IRL – In Real Life; nenhum deles identificado como artistas – não havia nenhum papel para o artista seguir e nenhum regulamento”, argumentando que isso é um aceno para a liberdade subversiva de ícones de arte como Marcel Duchamp, Joseph Beuys, Sherrie Levine e Jenny Holzer.

Marcel Duchamp, Fountain, 1917

 

Jeny Holzer, Truism, 1977

 

Joseph Beuys, Eu Gosto da América e a América Gosta de Mim, 1974

O que os memes expõem hoje corresponde à insurreição do estilo guerrilheiro de sua entrega. Da entrega do ataque surpresa do icônico Rickroll há uma década, aos curadores tocando os ativistas on-line de hoje para colocar na próxima exposição inovadora, a cultura meme tem sua própria história (acelerada). Mas o que os memes devem à arte do século XX e seus descontentes não pode ser negligenciado. Não se trata tanto do aspecto visual, corresponde mais à profundeza da arquitetura cultural dos memes e seu poder político como uma resistência crítica em rede, onde suas habilidades para incitar e inspirar, problematizar e ser problemático em igual proporção oferecem uma imagem espelhada tanto do nosso presente volátil, quanto de sua herança vanguardista.

Nota: Algumas imagens de obras de arte inseridas nesta tradução não correspondem às veiculadas na publicação do texto original.

 

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