Um samurai nas Forças Armadas

General Villas Boas Samurai

Vez por outra ele aparece, sereno e assertivo como um samurai. E, como sabemos, um samurai nunca levanta sua espada para ameaçar. Se o faz, é apenas para o golpe letal.

Desde 1645, quando Miyamoto Musashi afirmou ser “indigno do samurai morrer com uma espada ainda embainhada”, muitos tombaram empunhado suas katanas ensaguentadas. É isso que explica o surgimento do General Eduardo Villas Bôas no campo de batalha nesse momento, com sua espada cortante, seguindo o código de honra dos antigos guerreiros.

O corpo debilitado por uma enfermidade não diminuiu a destreza do General. Sua mente afiada continua dilacerando as ilusões que ofuscam os olhos do país.

Depois de tantos serviços prestados à Nação, teria todo o direito de ir descansar, cuidar da saúde, repousar junto aos seus. Mas as normas que regem a vida dos heróis dão pouca importância aos ‘direitos’. Só a guerra imortaliza. Só a vitória importa.

Além da guerra contra as ilusões, nosso General luta para não sair do campo de batalha antes de cumprir sua última missão. Adia, a um custo pessoal inimaginável, sua saída do Comando do Exército. Aguarda o momento propício, quando algumas figuras nocivas já estarão fora de combate, para transmitir o Comando à pessoa certa.

Diante de um cenário cada vez mais conturbado, numa inédita combinação de descrédito simultâneo do sistema político, da mídia e do judiciário (que é parte do sistema político, cabe ressaltar), o comandante do Exército Brasileiro não aparece para atacar grupos específicos ou insinuar soluções simples. Pelo contrário, Villas Bôas levanta sua espada e desfere golpes precisos nas ideologias que vêm aprisionando o desenvolvimento brasileiro, através da fragmentação da ação política contra o ideal de Nação:

“Corremos perigo. Pela nossa dimensão, pela nossa estrutura, as forças centrífugas estão se fortalecendo e corremos o risco de fragmentação. Se não uma fragmentação territorial, já estamos a caminho de uma fragmentação social. […] Todo problema no país, hoje, tende a tornar-se uma ideologia. Quanto mais ambientalismo, mais problemas ambientais temos. Quanto mais indigenismo, coitados dos nossos índios, mais são relegados ao abandono. Quanto mais luta contra o preconceito racial, mais racialismo – o ministro Aldo Rebelo diz que nós éramos um país de mestiços e estamos nos transformando em país de brancos e pretos. […] Quanto mais luta ou quanto mais se discute as questões de gênero, mais preconceito. Surge, por incrível que pareça, a intolerância religiosa. […] A inteligência brasileira não tem percebido que, depois do processo de descolonização, as ideologias são instrumentalizadas pelos organismos internacionais, por organizações não governamentais. [Até a] parcela mais à esquerda do nosso espectro político incorporou, totalmente, esse novo imperialismo. Imperialismo do final do século XX, do início do século XXI.”

Nesse novo contexto, tanto a defesa da soberania do país quanto os ataques que esta vem sofrendo ganham outros contornos:

“Permitimos acúmulo de déficit de soberania em relação ao nosso território. Recentemente, o governo quis regulamentar a exploração de reserva extrativista lá no Pará. Isso gerou, imediatamente, campanha internacional. O Brasil, hoje, não tem liberdade de ação para uso dos seus recursos naturais. […] Somos de uma passividade incrível. Temos 80% da Amazônia preservada e admitimos levar lições de países que têm 0,3% das suas florestas originais. A média mundial de preservação das florestas mundiais é de 25%, aproximadamente. O Brasil não pode, não precisa e não deve aceitar lições de quem quer que seja. […] A instrumentalização da ideologia ambiental visa proteger o mercado agrícola dos países que, todos somados, não dispõem da área agricultável que o Brasil tem.”

Quanto à presença estrangeira na Amazônia, Villas Bôas conta um episódio inquietante:

“Eu era comandante militar da Amazônia e fui realizar uma grande operação de fronteira. Antes, determinei que se realizasse uma operação de inteligência. Me liga, muito afobado, um comandante do Batalhão de Selva de Barcelos, dizendo que estava na aldeia ianomâmi Demini e lá encontrou o rei da Noruega. Eu falei, ‘ô, coronel, você está com algum problema’. Ainda brinquei com ele: ‘o senhor fumou tóxico vencido. Por que é que o rei da Noruega está na aldeia Demini, área Ianomâmi?’. Ele insistiu: ‘General, o rei da Noruega está aqui’. Fui ao ministro Celso Amorim, da Defesa. Ele questionou o Itamaraty. Realmente, a visita era decorrente de um acordo sigiloso entre Ministério da Justiça, Funai, Itamaraty. Sim, o rei da Noruega estava na área Ianomâmi. Então a nossa paciência… […] Quando estava em votação, pelo STF, a demarcação da Raposa Terra do Sol, em Roraima, o príncipe Charles veio à Amazônia, ao Brasil, não é? Então, esse assunto, enfim, é um tema que se pode discorrer muito, mas estou apenas usando para exemplificar a nossa passividade.”

Sobre o papel da Amazônia para o Brasil, Villas Bôas elenca três pontos básicos:

“O primeiro decorre dos seus recursos naturais. Levantamento mais abrangente que vi fala em 23 trilhões de dólares. O segundo diz respeito ao ponto de vista geopolítico. A Amazônia, a Pan-Amazônia, abrange nove países. São extremamente semelhantes tanto do que diz respeito ao potencial, quanto no se refere aos problemas que ela apresenta. Trata-se de enorme oportunidade de promovermos a integração e assumirmos a liderança da América do Sul. E terceiro é o grande apelo internacional que a Amazônia apresenta, água, energia renovável, produção de alimentos, mudança climática, biodiversidade.”

Mas, diante de todo esse potencial e conflitos que se apresentam na sua realização, “não temos política para Amazônia, não temos um órgão de qualquer natureza, um ministério, uma agência reguladora, seja lá o que for para coordenar as ações na Amazônia. […] O que se faz na Amazônia é muito mais baseado no caráter repressivo do que apoio à sociedade e promoção do desenvolvimento com proteção ambiental. Qualquer ação da Amazônia tem que ser multidisciplinar, tem que conter vetores sociais, ambientais, de conhecimento, de ciência e tecnologia, econômicos e logicamente de defesa e de segurança. São os papéis que a Amazônia tem para desempenhar.”

Essas falas são de uma palestra proferida pelo General em sua última aparição, ocorrida no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, em 23 de janeiro último. O seminário “Brasil: Imperativo Renascer!” foi promovido pela Editora Insight Comunicação e divulgado na página do Conjur, no qual a Amazônia foi apenas um dos temas abordados. Continuando a rasgar a realidade com o fio da sua espada, Villas Bôas avaliou alguns percalços da história brasileira que nos trouxeram até o presente momento:

“Em relação a um projeto nacional, o Brasil, pela sua dimensão, pelas características que tem, não pode prescindir de uma ideologia que lhe dê um caminho. Não estou me referindo a ideologia política. […] O Brasil foi, da década de 1930 à década de 1950, o país do mundo, ou um dos países do mundo, que mais cresceu. Havia uma ideologia de desenvolvimento, um sentido de projeto, um ufanismo. Na década de 1960, vivemos o momento Juscelino, Brasília sendo construída, aterro do Flamengo, aterro de Copacabana, campeão do mundo de futebol, campeão do mundo de basquete, Maria Esther Bueno no tênis, Éder Jofre no boxe, enfim, havia um ufanismo e um otimismo muito grande. Éramos o país do futuro. […] Cometemos o erro de, durante a Guerra Fria, permitir que a linha de fratura passasse por dentro e dividisse nossa sociedade. Foi aí que perdemos o sentido de coesão, perdemos essa ideologia do desenvolvimento, sentido de projeto, ficamos um país à deriva.”

A questão da defesa nacional, segundo Villas Bôas, pode ajudar na construção desse caminho que o país precisa voltar a trilhar. “A estrutura de defesa de um país será tão mais robusta quanto mais forte for a participação da área econômica, das empresas, da área de ciência e tecnologia, da área acadêmica, do poder político e assim por diante. […] Falar de defesa no Brasil, da inserção da defesa de um projeto nacional, é difícil, tem pouco apelo, porque não há no país uma percepção de ameaças à soberania e à integridade, nem por parte da população, nem por parte das elites dirigentes. Pessoas dos mais variados setores da sociedade não estão preocupadas com ameaça da integridade nacional. […] O tema da defesa sobrou, apenas, para os militares. Como consequência, tem-se dificuldade de alocação de recursos adequados para estrutura de defesa. Defesa não dá voto. Daí a dificuldade de o tema entrar no debate eleitoral para a Presidência da República. […] Temos, no Brasil, um passivo geo-histórico. Temos metade do nosso território não ocupado e não integrado à dinâmica do desenvolvimento nacional. As consequências disso vão além de aspectos concretos. O território é a base da nacionalidade. [Porém,] não temos sentimento de nação totalmente consolidado.”

Além da questão econômica, outra função da área de defesa, para o General Villas Bôas, “é ser guardiã da identidade nacional, com as Forças Armadas e, especialmente, o Exército, graças à sua capilaridade. O processo que vivemos pode levar a uma perda dessa identidade. Perdemos nossa essência. Isso tem se refletido em setores que demandam intervenção militar. Pesquisa indica que 43% da população brasileira pede intervenção militar. Isso, na minha opinião, é um termômetro da gravidade do problema que estamos vivendo no país. […] Uma intervenção militar seria um enorme retrocesso hoje, mas, na verdade, interpreto também aí como uma identificação da sociedade com os valores que as Forças Armadas expressam, manifestam e representam. Invariavelmente, diz a pesquisa, as Forças Armadas estão em primeiro lugar no índice de credibilidade perante a sociedade.”

Portanto, a depender do General Eduardo Villas Bôas, este herói que a tragédia brasileira dos últimos anos forjou a ferro e fogo, golpe, vindo das Forças Armadas, só os que ele vem dando com sua espada, deixando nus os tradicionais vendilhões da Pátria e aqueles que fragmentam a alma da Nação com suas nobres causas particulares. No fim da palestra, o General diz ter esperança que “na campanha eleitoral deste ano nós consigamos colocar esses temas em discussão junto com outros temas de Estado, e já estamos até, confesso, trabalhando, fazendo contato com os candidatos já, mais ou menos, consolidados e oferecendo até consultoria e ajuda para que eles trabalhem nesse sentido.”

Essa é uma boa notícia, pois, à exceção de um conhecido candidato, os demais precisam muito dessa consultoria.

 

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