1 ano sem João Gilberto

Salão da Assembleia Geral das Nações Unidas, setembro de 2003. A ONU se reúne para homenagear o embaixador brasileiro Sérgio Vieira de Mello e outros 21 mortos em decorrência de atentados no escritório da instituição em Badgá, que acabara de ocorrer. Ouve-se uma voz, estridente:

– Secretary General Kofi Annan, where are you? Come on stage, please… Secretary General, please.

O ganês Kofi Annan chega, sorri, recebe um abraço. Olha para a banda montada, como quem quer tocar. Alguém coloca um atabaque à sua frente. Ele se senta, sorri novamente. Na sequência, o Ministro da Cultura do Brasil – ninguém menos que Gilberto Gil – começa a tocar os primeiros acordes. Junto do Secretário Geral das Nações Unidas, entoa:

– Are you here? Are you there? Toda menina baiana tem um santo que Deus dá…

A ONU vem abaixo. Naquele instante, o mundo se dobrou ao Brasil.

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De lá pra cá, ladeira abaixo: sem projeto, o mundo dobrou o Brasil. Em um ano perdemos João Gilberto, Moraes Moreira, Aldir Blanc e outros 65.000 brasileiros – recorde histórico de catástrofes nacionais. A crise sanitária topou com a crise política e o moinho satânico que daí surgiu deixou Bolsonaro e sua trupe impávidos e inertes. A reunião ministerial e a live com Ave maria na sanfona são cenas que deixariam David Lynch com inveja.

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Antes disso tudo, lá nos idos de 1959, João Gilberto gravou Chega de saudade no Lado A e Bim bom no Lado B, e com isso mudou para sempre a história da cultura brasileira.

Surge uma coisa nova: a melodia tem fundamento europeu; a harmonia tem influência do jazz americano; o ritmo vem do samba (e, portanto, da África). A mistura de tudo com tudo cria uma novidade especificamente brasileira: o “sambinha” de João, ao emaranhar gregos, troianos, violão e voz numa coisa só, deixaria Darcy Ribeiro deslumbrado.

Sua matéria-prima era a canção popular, e não a fabricação padronizada de canções para o mercado. Sua obra revela uma construção profundamente estudada da simplicidade. “João Gilberto não subestima a sensibilidade do povo”, escreveu Tom Jobim na contracapa do LP Chega de Saudade. Dizem os estudiosos que João era o mestre da nuança: brincava com o silêncio num jogo de “branco sobre branco”.

João Gilberto não caracterizava sua música propriamente como bossa nova, mas como um samba, “um sambinha”. É Wisnik quem explica: “O que ele fez foi reequacionar o espaço rítmico do samba fazendo caber o incabível no compasso exíguo. Como a batida do violão de João Gilberto é a medula da bossa nova, ele se confunde com ela; mas como a sua limpidez não se confunde com nada, ele está suspenso pairando sobre e fora dela”. E, claro, Tom Jobim diz que a célebre “batida do violão de João” saiu diretamente do samba: “O samba sempre teve muito acompanhamento, muita batucada – às vezes sofria de excesso de acompanhamento, inclusive. Você tocando tudo ao mesmo tempo não deixa os espaços. Você acaba criando uma zoeira que mais parece um mar de ressaca. O que nós fizemos ali com o João foi tirar as coisas, criar espaço, dissecar, despojar, economizar. O violino dava uma nota em vez de dar 45, as harmonias também eram de dois, três tons, coisas simples e subitamente tudo se tornou mais claro, mais nítido dentro dessa neblina que é o Brasil, esse país superchuvoso e hereditário”.

Essa a força dialética da cultura: fornecer uma explicação geral precisamente quando desce ao específico. A genialidade reside no fato de que João é capaz de proclamar um projeto de país com um acorde. Quando ele saca o violão e canta algo, não faz música pura e simplesmente, como quem produz uma mercadoria qualquer, mas demonstra como deveria a sociedade brasileira se organizar para ser melhor.

Mario Sergio Conti diz que João “retira os andaimes da música”. Lorenzo Mammì afirma que João, em diversos momentos da canção, toca violão como quem pendura roupas “no varal da melodia” – as notas lá todas penduradinhas e a canção fica suspensa com acordes blocados. Os exemplos de nuança são infinitos e a maioria está descrita no livro João Gilberto organizado por Walter Garcia. Em Lígia, João omite o nome da amada, para evitar o derramamento exagerado. Em Coração vagabundo, retira a palavra “meu” e o verso vira apenas “coração vagabundo” (enquanto mentalmente todos cantamos “meu coração vagabundo…”). Em Sampa, ao contrário, repete “alguma” em “alguma alguma coisa acontece no meu coração” e depois altera “a força da grana que faz [em vez de ‘ergue’] e destrói coisas belas”. Em Eu sei que vou te amar, canta o verso “eu sei que vou sofrer” em uma oitava abaixo, para depois fazer a voz saltar de oitava no verso seguinte, “a eterna desventura de viver”, como quem indica o sentido correto da canção. Em Me chama, vira Lobão de ponta cabeça, inverte a música: a canção, originalmente para fora, expansiva, retorna a si mesma, intimista, delicada. Em Pra que discutir com madame, brinca com vogais e consoantes e junta os versos com aliteração do /s/: “madame tem um parafuso a menos/s/só fala veneno”. Em Desafinado, em meio aos hippies no festival de Águas Claras, não canta “que isto é bossa nova / isto é muito natural”, sugerindo que, passados tantos anos, resta o samba apenas. Saudosa maloca é um filme cantado: equilibra-se entre a dura e digna conquista de um lar e a indiferença desavergonhada do poder e da desigualdade nos grandes centros urbanos, em que “os homem coa ferramenta” demolem a “maloca querida”. Sua versão do Hino nacional sustenta um sentimento de brasilidade latente e, ao mesmo tempo, uma melancolia recuada. A sonoridade apresentada indica que algo está faltando. É preciso ainda construir uma parte do país para que, então, o “sonho intenso” e os “raios vívidos” desçam à terra.

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Mas por que diabos João não compõe? “Há tanta coisa bonita a ser consertada”, explica.

Por que sempre as mesmas canções? “Um homem canta o que canta ao longo da vida. São suas canções”.

Sobre os primeiros shows em Nova York, em 1962, afirma: “Eu sentia que tinha que corresponder. Pedia a Deus que me libertasse de todos os problemas, que me fizesse bem descontraído, para que a música passasse por mim sem encontrar barreiras. Que eu fosse apenas um veículo. Queria que o público visse ali não o João Gilberto, mas o Brasil; que eles sentissem, a partir de mim, tudo que eu trazia de experiências vividas. Eu queria ser acima de tudo, naquele momento, um brasileiro”.

Drummond ou Guimarães Rosa? “Guimarães reinventa lembranças, mas me comovo mais com Drummond, que aprofunda lembranças”.

Yogananda? “Com Yogananda, voltei a concentrar-me. Aprendi com ele que o temperamento é uma doença: não é preciso ter temperamento, basta ser”.

E a política? “Os americanos perceberam que o Brasil estava mudando no final dos anos 50 e no começo dos 60. Havia Juscelino. Havia a bossa nova, que estava tomando o mundo. Havia uma porção de coisas acontecendo no Brasil. Ainda não havia um povo consciente de si mesmo, mas havia indivíduos: havia um povo em formação. E o que os americanos fizeram? Fizeram com que fosse dado um golpe militar e viesse a ditadura. Vinte anos depois, o Brasil estava todo escangalhado e ainda não se recuperou”.

E Lula e FHC? É Conti quem testemunha: “Telefonou-me um dia e elogiou Lula. Não pela sua política, e sim porque ele chamara Marisa de ‘minha galega’. Comemorou: ‘É um brasileiro de Pernambuco!’. Em contrapartida, achava Fernando Henrique Cardoso ‘paulista no mau sentido’, o que talvez queira dizer ‘presunçoso’”.

Quando Tom Jobim morreu, João recordou: “Lembro de Tom no concerto no Carnegie Hall. Ele moço, tocando piano. Nós ali, fazendo música. Nós ali, representando o Brasil. A gente querendo homenagear o Brasil, querendo o bem do Brasil. Nós querendo fazer uma coisa boa para o país. Um Brasil que fosse representado pela sua música, uma música bonita. Era uma coisa meio infantil, ilusão da juventude, o que seja. Mas acho que fizemos alguma coisa pelo Brasil. Tom fez tanto pelo Brasil [João Gilberto chora, chora, chora]. O Brasil já foi tão bonito… Estou aqui, falando no telefone sem fio, de frente para a janela que mostra o Rio de Janeiro. Estou vendo o mar, a Lagoa, os morros. O Rio de Tom. O Rio de Janeiro do meio amigo Antonio Carlos Jobim. Mas agora onde está Tom? É Drummond, de quem Tom gostava tanto, quem pergunta: ‘E se todos nós vivêssemos?’”

Ao completar 85 anos, Dorival Caymmi ganhou de presente um poema:

Meu Dorival Caymmi

Amo você desde menino

Você é imenso, único

Obrigado por tudo

Agora cantamos pra Deus proteger-te

Um beijo carinhoso

João Gilberto.

***

Sem João Gilberto e sem o movimento de afirmação nacional por ele iniciado, a cena de Gil na ONU seria simplesmente impossível.

Não fosse a cultura brasileira, tão maltratada e relegada a um papel secundário na vida social, seria insuportável enfrentar a morte de mais de 65.000 brasileiros de uma hora para outra, com a indiferença com que temos visto. Ainda bem que João Gilberto e tantos outros abriram esse caminho de esperança para nós, que ficamos.

Agora cantamos pra Deus proteger-te, João.

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