466 anos da cidade de São Paulo

São Paulo completa hoje 466 anos. É uma idade pequena para uma cidade tão importante. Pequena porque viramos metrópole há menos de 100 anos. Isso quer dizer que nosso maior tempo foi o tempo dos indígenas, dos colonos portugueses, dos negros escravos, dos bandeirantes e dos imigrantes que chegavam fugindo da fome em seus países.

Não foi fácil desbravar essa cidade cheia de rios, mares de morros e indígenas que eram donos dessa terra, dos campos de Piratininga. Lá no alto da Serra do Mar, longe do Porto por onde chegavam os navios portugueses foi preciso aprender com os índios os caminhos mais amenos para transpor essa imensa muralha entre o mar e o planalto. Assim nosso nascedouro vem da empreitada portuguesa e jesuíta e do conhecimento indígena. Nascemos dessa forma como cidade, como taba já éramos um grande aglomerado de tribos.

No período colonial a tônica foi uma tentativa errônea de domesticar os donos da terra. A sede da capitania se instala então no topo da colina a 25 metros de altura acima do nosso Rio mais paulistano de todos, o Tamanduateí para se proteger do ataque, (ou defesa) dos indígenas. A resistência e persistência indígenas viraram mestiçagem e a estratégia foi criar os aldeamentos para catequização pois os jesuítas fazem parte da nossa construção desde o início. Houve até teatro de rua incentivado pelos padres.

Mais tarde a escravidão nas fazendas de cana e depois do café. E a busca pelo ouro aos pés do nosso pico mais alto. O Jaraguá. A cidade se esvazia mas vira o entroncamento de todos os caminhos que levaram aos sertões e à conquista de novos territórios para o interior e as “minas gerais”. Muitos pousos à beira dos rios e a praça das bandeiras era o principal lugar das trocas e abastecimento para as viagens para o interior. O Tamanduateí e o Porto geral eram os meios do abastecimento da vila colonial. O café muda a economia e levas de imigrantes são trazidos para o Brasil para o trabalho nas lavouras e na cidade. São Paulo recebe levas de italianos de uma Itália recém formada como país. O fim da escravidão liberta negros africanos que procuram ficar perto das novas áreas de trabalho urbano. Outras nacionalidades vem com a indústria.

E o século XX viu a cidade mudar sua feição três vezes para virar a maior metrópole da América Latina e a quarta mais populosa do mundo. A cidade de taipa do período colonial, a cidade de tijolo dos italianos e a cidade do concreto das grandes obras.  Culturas se misturaram, culturas regionais permanecem nos vários bairros e fragmentos de todas elas se destacam por entre os arranha-céus.

A partir dos anos 50 e por razões que surgem de fenômenos nacionais como as levas de migrantes nordestinos que vem fugindo da seca, da fome e em busca de trabalho as periferias se estendem por vários quilômetros além do centro e dos bairros que se formaram ao longo da ferrovia. E assim atingimos os 12 milhões de habitantes só na cidade e mais de 20 milhões na região metropolitana.

Um enorme complexo dividido por um espigão e espraiado ao longo das várzeas de dois grandes Rios, o Tietê e o Pinheiros e seus afluentes, limitado pela imponente Serra da Cantareira que ainda pode ser vista do centro, na Avenida 23 de Maio, na Mooca sobre o viaduto do trem e na rua Treze de Maio. Ao sul antes da Serra do Mar, a beleza das nossas represas e matas junto ao rio Capivari -Monos. Uma cidade ao mesmo tempo acolhedora de todas as culturas e ao mesmo assim pouco afável com seus habitantes.

A grandeza tem sido a justificativa para a dificuldade, mas a grandeza cria as oportunidades e atrai quem precisa de trabalho ou estudo.
A cidade pode continuar crescendo, não será agora que fechará suas portas a quem busca trabalho. Mas pode ser diferente mais generosa e com mais qualidade de vida. O ponto de partida é valorizar todos os povos que aqui chegaram desde o período colonial. Entender esse amálgama de culturas diferentes.

Depois é parar o crescimento nas alturas para podermos ver nossa paisagem tão pujante de rios e mares de morros. Desconstruir e abrir novos parques. Expandir os trilhos urbanos conectando pelo chão os bairros, os lazeres, o estudo, o trabalho e a saúde. Iluminar a noite e deixar os jovens conversarem até tarde. Cuidar dos caminhos e passeios públicos para as crianças, os jovens e os idosos. Trazer a casa e a nova fábrica 4.0 perto do centro e animar a rua com a agitação dos bairros operários.

São Paulo é a síntese do Brasil e seus povos pode vir a ser o exemplo de uma nova era de prosperidade e democracia para as próximas gerações. Parabéns minha cidade pelos seus 466 anos.

Por Rosana Miranda, arquiteta e urbanista aposentada da Prefeitura de São Paulo e professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP.

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