A indústria cultural de massas e a música popular

Não existe contraposição necessária entre ”indústria cultural de massas” e música ”raiz” ou ”popular”. Todos os gêneros hoje ditos como tradicionais foram delimitados e tiveram a linguagem formatada pela indústria cultural de massas.

Antes dos registros fonográficos e das gravadoras modelarem esses gêneros, associando-os a macro-regiões do país, não existia ”samba”, ”música caipira”, ”forró” etc. como o que entendemos hoje, mas estilos micro-regionais fora do mercado.

É essa incompreensão que está por trás de afirmações como, ”ah, mas essa música aí é feita pro mercado, não é samba ‘tradicional’.” Ou ainda, ”pô, mas isso é sertanejo pro mercado, não é a ‘verdadeira música caipira’.”

Samba e música caipira SÃO produtos também da indústria cultural de massas e da consolidação de empresas fonográficas, que se iniciou nos anos 1910 e 1920 e prosseguiu pelas próximas décadas definindo nichos de mercado e públicos.

A linguagem que conhecemos hoje como ”forró” foi formatada por Luiz Gonzaga, que começou vendendo seu som não para camponeses do sertão, mas para migrantes que formavam um cinturão de nordestinos nos bairros do Rio e, depois, São Paulo. Era esse seu público e mercado alvo, principalmente.

Quer dizer que Luiz Gonzaga, Samba, Música sertaneja etc. não tem raízes populares e reginais etc. Não, estou dizendo o contrário, que terem sido modelados pela indústria cultural NÃO implica necessariamente que sejam meros produtos de mercado sem quaisquer raízes.

Ontem, publiquei uma pesquisa interessante feita por pesquisadores da USP. Ela revelava que o brasileiro é o país, dentre todos os países incluídos no levantamento, que mais consome música própria. E que, para músicas internacionais fazerem sucesso no mercado brasileiro, tem de se ajustar a elementos que são muito característicos da sensibilidade artística que se formou nesses terras.

Claro que todas esses músicos, ainda que nacionais, estão vinculados a grandes empresas internacionais que passaram a dominar o mercado fonográfico pátrio a partir dos anos 1980. Mas até aí morreu neves, esse é um fator comum ao redor do globo. Isso continua sem explicar o porquê consumimos menos música estrangeira por aqui.

Por André Luiz Dos Reis

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