A modernização do Brasil como falácia

O tema da “cultura e modernidade no Brasil” suscita um equívoco quando se assume uma espécie de perspectiva evolutiva e linear de temporalidade histórica. Ainda mais quando se indaga até que ponto somos modernos, quando nos tornamos modernos ou, se não, quando seremos, ou ainda quem são os verdadeiros modernos. É o erro de enxergar os modernos como “eles” do hemisfério norte – e que o Brasil ainda não chegou lá. Em outras palavras, trata-se do equívoco, comum entre certas interpretações, de ver o Brasil “atrasado”, “patrimonialista”, “cordial”, “carnavalesco” e “corrupto”, fazendo esforços para chegar a uma suposta modernidade já alcançada pela Europa e pelos países do hemisfério norte.

O tema é mais do que oportuno nesses tempos em que o whatsApp mostrou a verdadeira cara de boa parte do Brasil. Não como tese inovadora, mas como lembrete necessário até como questão de sobrevivência. Na verdade, o Brasil sempre foi “moderno”, cumprindo sua função subalterna na divisão internacional do trabalho a partir das revoluções burguesas iniciadas no século XVII. O Brasil não chegou depois, mas sim sempre fez parte da própria construção dessa modernidade, como colônia de exploração fornecedora de recursos naturais e, depois, do futuro exército de reserva de mão de obra barata para formar a “escravidão contemporânea” dos assalariados mal remunerados, com suas raízes no sistema de exploração dos negros sequestrados da África.

Isso, primeiro a serviço de uma nação que concorria pelo posto hegemônico nos séculos XVI e XVII e, depois, submisso a outra potência na trama geopolítica da construção das relações modernas já como nação constituída. Agora, na contemporaneidade, a submissão acontece em relação a uma terceira potência que emergiu a partir da Primeira Guerra Mundial.

Em outras palavras, essa condição (moderna) foi, respectivamente falando, primeiro como posto avançado escravocrata de um país que nunca adotara em seu próprio território o trabalho forçado da mão de obra negra nas relações econômicas. Segundo, como “colônia” prática, embora não formal, da pátria da Revolução Industrial, funcionando como um dos fatores estratégicos na nascente sociedade de mercado, fornecendo seus metais preciosos e, como já dito, o posterior exército de reserva do proletariado produtivo e consumidor oriundo do sistema escravocrata. Por fim, o passado recente do século XX e o momento presente do século XXI, com sua história marcada por golpes de estado patrocinados pela atual e ainda potência hegemônica internacional.

Ser moderno, numa perspectiva do senso comum imposta por colonizadores e imperialistas (e “aceita” pelos dominados, ou melhor, pelos “dominadores” internos e intelectuais lacaios a serviço dos externos), é plagiar sociedades mais ricas em termos econômicos, artísticos e culturais. A chamada “modernização” em diferentes arenas seria a importação de artefatos técnicos, processos e procedimentos, além, é claro, dos valores, comportamentos e visões de mundo. Dentre alguns autores, sobre isso sempre me vem a lembrança de Guerreiro Ramos, para quem o Brasil precisava (e ainda precisa) inventar sua própria sociologia.

Em termos do conhecimento e compreensão do fenômeno social chamado Brasil, lembremos que, se era sinal de bom status e até uma necessidade para a classe dominante local enviar os filhos para estudar em Coimbra no tempo do Império, já que universidade não havia em território brasileiro, hoje é chic incentivar jovens (quem pode, é claro) a estudar em Harvard, Chicago ou na Alemanha. Nada contra, evidentemente, estudar em outros países, desde que este tipo de empreendimento não sirva como elemento estruturante da dominação colonizadora e imperialista que alguns chamam “modernização”.

Ser moderno, na verdade, é reconhecer a divisão internacional imposta pela expansão do sistema capitalista. Isto implica compreender a dominação para fins de exploração e subordinação, o que significa admitir a existência do conflito, da inevitável pluralidade e controvérsia acerca de diferentes temas. A modernização não está dada a priori. Só uma visão colonizada entende a “modernização” como um processo de “catching up”. O Brasil foi e é tão moderno quanto Inglaterra, França ou Estados Unidos em termos sincrônicos e diacrônicos, uma vez que o desenvolvimento capitalista se dá por integração conflituosa e desagregadora. Processo esse marcado por disjunções e acomodações simultâneas nas formas sociais determinadas pelo poder econômico e político hegemônicos.

Quando Oswald de Andrade diz que antes de os portugueses descobrirem o Brasil, “o Brasil tinha descoberto a felicidade (…)”, isso nada mais era do que resistir à ideia de modernização exógena. “A alegria é a prova dos nove” sintetiza o que é ser moderno como brasileiro – e entendo isso como ser criativo e original. Não que a originalidade seja atributo exclusivo de brasileiros, mas sim que é reação, iniciativa ou disposição potencial de qualquer ator engolfado nas complexas tramas internacionais de interdependência entre os países durante a construção da chamada modernidade e contemporaneidade. Vale dizer, nas tramas dos fenômenos que, convencional e respectivamente, compreendem o período entre os séculos XVI e XIX e o referente ao que vai do século XIX aos dias atuais.

A possibilidade e necessidade de “antropofagia” não é um atributo exclusivo de brasileiros, e tanto isso é verdade que, assim como o “fordismo” desembarcou no Japão no século XX, o “toyotismo” fez o mesmo nos Estados Unidos, produzindo os efeitos de criação, recriação e transformação das relações produtivas nesses respectivos países e no mundo. Isso, só para citar um dos aspectos de uma das dimensões (a econômica) das relações sociais.

Nesse sentido, modernização e cultura têm a ver com a questão da nacionalidade, que não se resume à defesa de tradições autóctones ou de fronteiras e formas de viver estritamente “nacionais”. A nacionalidade está imbricada na trama complexa em que o povo brasileiro se reconhece como comunidade perante si mesmo e perante o contexto internacional. Nosso problema é esse: o que somos para nós e para os outros. Desafio o mais nevrálgico: conceber a nacionalidade para o povo, num contexto de interdependência entre as nações, não, evidentemente, como subordinação a outras nações ou a corporações privadas. Nacionalidade, obviamente, que não se reduz a questões de território e fronteiras ou de xenofobia, mas sim no de como fazer da nacionalidade algo singular para se imbricar no universal.

Se não for assim, não teremos povo no sentido de comunidade política e cultural localizada, processando relações para fins de colaboração entre gerações. Pátria é legado. Esse texto não é nenhuma tese nova ou original. Vários outros autores e comentadores já expuseram a questão de forma muito mais rica e sábia. Para finalizar, mas não concluindo, mais do que “alcançar” a “modernidade” imposta pelos outros, o que nos cabe talvez, como prioridade, é pensar a nossa identidade como processo contínuo de construção dentro de uma modernidade contraditória de expansão e contração da vida.

Da mesma forma que os valores liberais dessa modernidade (europeia) consolidaram a agenda universal de direitos humanos – que incidiu na assunção constitucional dos direitos fundamentais da dignidade humana, da igualdade e da liberdade –, esses mesmos valores liberais serviram para estruturar as relações de dominação no sentido de “naturalizar” a existência de países e indivíduos ricos e pobres. Como se os ricos não se tivessem tornado ricos graças à pobreza dos outros. Um olhar atento e abrangente ilumina essa verdade, neutralizando as costumeiras mistificações e falácias, quais sejam, as que apregoam que os modernos são modernos porque conseguiram ser mais capazes e melhores – e os “atrasados” precisam aprender e seguir seus passos.

Ser “moderno” não é alcançar uma suposta “modernidade” dos outros ou uma “modernidade abstrata”. Nosso desenvolvimento de forma multidimensional, incluindo riqueza material, potencialidade criativa e cultural, depende de percebermos que não precisamos ter como referência os outros, mesmo que, inevitavelmente, troquemos experiências e façamos aquisições materiais e simbólicas dos outros. Nosso desafio é inventarmo-nos e reinventarmo-nos não como “antropofágicos” ufanistas e iludidos de achar que outros não possam também ser “antropofágicos” alhures. Mas sim, definindo o que queremos para nós, como comunidade nacional, na trama de relações convergentes e/ou divergentes com os outros. Isso, considerando que vivemos no mesmo planeta e estamos aqui para deixarmos um legado para as próximas gerações.

Deixe uma resposta