A psicanálise cura ou não cura?

A palavra “cura” tem sua origem no latim, significava cuidado, vigilância, atenção, diligência. Foi com a evolução da medicina e a proliferação na nomeação de doenças que a cura passou a pressupor a matemática: doença/doente – cura/conserto. Gosto mais do verbo “vigiar” ou “manter a atenção”, acho muito mais digno para os sofrimentos humanos. ⁣

A grande questão dessa pergunta é saber de que tipo de cura se está falando. Se é da ordem de um conserto, uma arrumação e um desaparecimento de sintoma de forma remediada, ou seja, sem implicação num processo transformador, a psicanálise não tem nada com isso. Digo mais, talvez isso seja o avesso de uma psicanálise bem conduzida. ⁣

Costumo dizer que um bom jeito de iniciar uma análise é saber-se em sofrimento, mas sem poder dizer muito bem de que, porquê, desde quando ou onde. Um sintoma que vem amarrado num vazio, num vácuo de palavra, numa vacilação de saber. Aí mora a angústia, esse afeto que, como nos ensina Lacan, é o único que não mente. A queixa da qual se fala nas entrevistas preliminares vai, aos poucos, transformando-se em outra coisa. A retificação subjetiva implica o sujeito em sua própria existência, responsabilizando-o pelas decisões que ele foi tomando e chamando de destino, azar, sorte, dedo podre, etc. Não é fácil chegar nesse lugar, por isso uma análise não é sem dor, mas, quando se chega, é possível assumir as próprias produções, e também o sintoma ganha outro estatuto. Já não é mais um sintoma do qual se livrar, é um sintoma com o qual SE FAZ ALGUMA COISA. Talvez um sintoma ao qual se dirija atenção, diante do qual se mantenha uma certa vigilância, olhando pra ele de perto, já que é perto que ele se mantém. ⁣

É um percurso de trabalho que faz com que as repetições que fazem sofrer possam dar trégua, isso sim é cura. Eliminar um sintoma sem ter feito nada com ele não é cura, é um engodo, quando muito um adiamento. Freud já dizia isso em “recordar, repetir, elaborar”. ⁣

Portanto, sim, a psicanálise trata e cura. ⁣Mas isso dá bastante trabalho e nem todo mundo está disposto a ele. Justamente por isso, ainda que trate e cure, a psicanálise não é pra todo mundo e nem pretende ser. ⁣

Por Cauana Mestre

A psicanálise cura ou não cura

2 Comentários

  • “Seu sofrimento, meu lucro” – exercício da medicina, psicologia, odonto etc. hoje. O que quer dizer? Enfatuação, ganância e ambição (de ser e de ter) daquele que estudou e a sociedade permitiu agir sob esse tipo de treinamento, mais intelectualizado. “Eu mereço, eu posso -você, não.” – poder é uma forma de desamor; cruedade (não se colocam no lugar do outro). Portanto, melhor trabalhar com outra coisa para sobreviver e praticar uma cura compassiva, pois usar conhecimento e ciência para tanto é desumano. A evolução das terapias aponta para a solidariedade, a caridade, a compaixão e as formas do AMOR — nada a ver com a enfatuação de hoje em dia, entende?

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  • Não concordo com o comentário acima. A psicanálise cura sim. Uma cura pela palavra, mas acima de tudo uma cura pelo amor, onde entra o amor de transferência que estabeleço com o meu analista. Mesmo que ele se coloque na posição de vazio diante a nossa demanda de amor, há também um custo para ele suportar a transferência. O analista não lucra com o nosso sofrimento. Nem nós. Mas a psicanálise é uma ponte para atravessarmos estes sintomas. Quando se diz que não é para todos, não é não sentido de não poder pagar e sim nem todos conseguem sustentar a análise ou reconhecer suas responsabilidades nas desordens em que se queixam, parafraseando Freud.

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