Acqua Movie: novo longa de Lírio Ferreira retoma o afeto da identidade nacional

Acqua Movie

Acqua Movie é o novo longa metragem do diretor pernambucano Lírio Ferreira (Baile Perfumado e Sangue Azul) que veio em boa hora. Com estreia na 43ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, que ocorre dos dias 17 a 30 de outubro, o drama é metáfora, identidade nacional e sobretudo o afeto de se fazer cinema em um Brasil cujo audiovisual está em processo de respirar por aparelhos. Enquanto o presidente Jair Bolsonaro apresenta um projeto de lei que prevê corte orçamentário de 43% do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), administrado pela Ancine e uma das mais relevantes fontes públicas de fomento ao cinema nacional, temos diretores que felizmente insistem em ter a coragem de expressar a capacidade criativa e inventiva que nosso povo tem de sobra. Esse é o caso de Lírio, e Acqua Movie sustenta essa minha certeza.

O longa é um filme de estrada – o tal do subgênero road movie – e uma extensão de Árido Movie (2005), uma das maiores contribuições de Lírio Ferreira ao cinema nacional e ao retrato contemporâneo do sertão brasileiro. Se em Árido Movie Jonas (Guilherme Weber) fez a desventurada viagem de São Paulo ao sertão pernambucano da fictícia Rocha para enterrar seu pai, agora que o sertão vai virando mar é Cícero (Antonio Haddad), seu filho, que repete inconscientemente a sina ao levar as cinzas de Jonas à sua cidade natal. O antagonismo trazido pelo roteiro é que Rocha está submersa, devido às obras realizadas pelo governo local, em um filme que novamente é sobre a falta da água e excesso de informação.

Acqua Movie novo longa de Lírio Ferreira retoma o afeto da identidade nacional árido movie
Árido Movie

As duas viagens retratadas nestes filmes tem o mesmo DNA: a personagem Soledad (Giulia Gam) é em Acqua Movie chamada de Duda e interpretada de maneira competente por Alessandra Negrini, elo entre o passado e presente do sertão-palco de uma direção de fotografia esplêndida de Gustavo Hadba. Os cortes e movimentos permanecem com a dinâmica de Árido, com a coloração agora menos quente e saturada. A complexidade da relação maternal de Duda e Cícero é um dos pontos de foco do roteiro, sendo desenvolvida com maestria através da conexão construída pela interpretação de Negrini e Antonio Haddad. Do conflito, a trama recria o afeto que havia sido perdido no cinema nacional nas últimas décadas, enquanto trata justamente sobre a reconstrução do afeto entre uma mãe e filho. A crítica social expressa em Árido Movie ainda incendeia Acqua, que toca em assuntos relevantes para a compreensão da formação brasileira, como a questão indígena, o coronelismo, a seca, a questão habitacional, a desigualdade regional e agora adentra na transposição do Rio São Francisco. A novidade trazida é a força e densidade que ao mesmo tempo trazem leveza à obra, no processo de construção desse afeto, explorado, por um lado, a partir da concepção da maternidade contemporânea. De outro, no conflito entre inovação e pós modernidade, personalizadas em Cícero, sendo apresentadas ao sertão tradicional, “arcaico” e em mutação cultural, econômica e social, na figura de Márcio, irmão de Jonas que em Acqua se tornou prefeito de Rocha.

Mas apesar de um olhar menos atento acreditar que são Duda e Cícero, ao decidirem embarcar nessa viagem, os protagonistas de Acqua Movie, a direção, acompanhada da montagem fluida e potente de Vânia Debs (Árido Movie), evidenciam o sertão em primeiro plano. É ele, o sertão do Cinema Novo, que permanece protagonizando nossas histórias e sendo desbravado por um povo ainda esquecido. E é a partir dessa reflexão que enfatizo a importância de Árido e Acqua; de Lírio Ferreira e do cinema nacional que se propõe a olhar de onde viemos e para onde vamos, possibilitando a permanência do processo de criação do nosso imaginário cultural, nossa identidade, desenhando a potencialidade criativa que podemos sedimentar e projetar para o mundo todo ver.

Se em Árido optou-se por centralizar o conflito cultural, econômico, político e social na figura do índio Jurandir (Luiz Carlos Vasconcelos), agora a questão se torna coletivizada em grupos indígenas da região. Talvez seja porque agora, o até então pessimismo do diretor tornou-se uma análise realista de nossa construção social, que não realizou a demarcação de terras indígenas como deveria e não solucionou a desigualdade regional e a questão habitacional agrária, ainda marginalizada e autorregulada pelo conflito armado.
A contemporaneidade destes temas, que de 2005 para cá pouco se alteraram, fizeram com que a volta do personagem de Zé Elétrico retomasse também a relevância de seu monólogo em uma cena estrutural à compreensão de ambas as obras:

“Tinha um povo que habitava essa região que sabia usar bem ela. Um povo que tinha respeito por essa terra e era respeitado por ela. Os verdadeiros donos dessa terra. O povo que veio depois, que invadiu e matou, chamava esses primeiros habitantes de índios. E os índios foram se dividindo, misturando. De donos viraram empregados, as mulheres viraram putas. Primeiro a gente perdeu as terras, e logo depois o respeito. Junto começamos a perder os dentes. As vezes aparece um pessoal dizendo que tudo era nosso, que tudo era lindo. Não era. Tinha guerra, tinha disputa. Tinha fartura e tinha falta, mas era nosso. E a gente terminou sem nada, saiu por aí. Eu mesmo já morei até em São Paulo, fui levar maconha e terminei trabalhando num puteiro na Avenida São João. Mas voltei. Por que?”

Quando Lírio Ferreira e toda a equipe cinematográfica de Acqua Movie ousam recriar e projetar em imagem e som todo esse imaginário nacional e nossas raízes, apesar da crise de financiamento cultural que enfrentamos, tenho ainda mais orgulho de ser brasileira. De ter uma metrópole como São Paulo, sendo palco para o desenvolvimento cultural ao executar uma das maiores edições da Mostra Internacional de Cinema, com a exibição de 300 filmes, sendo 65 nacionais.

Confira o comentário de Lírio Ferreira e do diretor brasileiro Beto Brant sobre o filme, após a sessão de exibição de estreia do filme em 23 de outubro, na Reserva Cultural, durante a 43ª edição da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo:

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