Alberto Dines, do Brasil (1932-2018)

Carioca da gema, nascido no Flamengo e vizinho de Graciliano Ramos, Alberto Dines fez parte da geração de ouro do jornalismo brasileiro. Ao lado de Samuel Wainer brigou por uma imprensa diferente no Brasil. Qualificada, inventiva, rápida. Eram influenciados pela geração de maio de 68. Dono de uma estética impecável e de conhecimento enciclopédico, começou na imprensa escrevendo sobre cinema, tendo frequentado por muitos anos o cineclube Brasil, fundado e mantido por Vinícius de Moraes. Era jovem e respeitado, podendo facilmente ser encontrado nas esquinas do Rio de Janeiro  tomando um café no fim de expediente numa mesa com Drummond ou Manuel Bandeira.

Com passagens pela direção do Diário da Noite, de Assis Chateaubriand, Alberto Dines foi editor-geral do Jornal do Brasil quando este rivalizava com o Estado de São Paulo pelo primeiro lugar na preferência dos brasileiros. Comandava, na casa dos 20 e poucos anos, uma equipe que contava com nomes como Carlos Bickman, Fernando Gabeira e Clarice Lispector. Era uma um homem visionário.

Enfrentou a censura de 64 como poucos e foi responsável por um dos episódios mais marcantes da imprensa brasileira: a edição sem manchete:
No dia 11 de setembro de 1973 o presidente Salvador Allende foi derrubado por uma conspiração militar que culminou na ditadura mais sangrenta da America Latina. O correspondente internacional do Jornal do Brasil por acaso estava de férias em Santiago e de pronto enviou a reportagem com os acontecidos. A censura prontamente reprovou a inclusão da matéria como manchete, permitindo-a somente ser noticiada. Dines brilhantemente defendeu sua redação, colocando a notícia no topo do jornal, sem dá-la como manchete.

Voltando ao Brasil depois de uma temporada como professor convidado em Columbia, foi transformado por Octavio Frias, publisher da Folha de S.Paulo, em comentarista político. Criou a famosa página 2, até hoje mantida pela Folha, ao lado de seu velho amigo Samuel Wainer. Era um social-democrata ligado aos movimentos judaicos de esquerda.

Seu trabalho dá uma reviravolta quando torna-se o primeiro ombudsman do Brasil. Era ombudsman quando este termo ainda nem havia chegado por aqui. Sua coluna “O jornal dos Jornais” policiou a imprensa escrita e deu bases para os estudos de mídia feitos até hoje. Era um crítico ferino e cuidadoso dos jornais brasileiros, cuja redação e vícios conhecia como ninguém.
Fundou o Observatório da Imprensa, um centro de estudos de mídia do Brasil, ligado a UNICAMP.
Alberto Dines, ao lado de Samuel Weimer, pensou um jornalismo crítico, inventivo e minucioso. Acima de tudo, um jornalismo brasileiro, feito pelo e para os brasileiros, com seus vícios e louros.
Seu ultimo artigo na imprensa foi vinculado na volta do Jornal do Brasil e segue e pode ser lido AQUI. Termino citando-o

“O jornalismo está impregnado do espírito sequencial, de passagem, de prolongamento e continuidade. Nosso ofício, que começa e se esgota a cada fluxo, a cada novo dia, é o exercício da permanência, da duração. Por melhor ou pior que tenha sido a edição anterior, o que vale é a seguinte. E depois dela, a outra. É um nunca acabar, ou eterno renascer.

Um grande jornal faz-se com a consciência do tempo e a capacidade de atrair o leitor, todos os dias, para a maravilhosa aventura de saber um pouco mais.

Há um caminho aí que é o de fazer pensar. Oferecer alternativas de pensamento e marcar presença, fazer história. Pensar grande.

Mario Sergio Conti, em coluna recente, lembrou de “Memórias de um Antissemita”, o romance de Gregor von Rezzori: “O sangue jorra como antes. A única dignidade que se pode manter no nosso tempo é a dignidade de estar entre as vítimas”.

No caso do JB, é brigar pelas vítimas.

Não é fácil, mas é possível. Agora mais do que nunca. “

Agora, mais do que nunca.

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