Misoginia, impunidade e machismo foram as apostas dos assassinos de Marielle Franco

Matar alguém não é para qualquer um. Além da coragem e audácia, deve dar muito trabalho as ações de mando e pistolagem.

Planejar, decidir hora e local da emboscada, levar a arma, sentir seu peso, administrar riscos e medos não é para qualquer um mesmo! Que o diga o ex-procurador-geral da República, Rodrigo Janot.

Porém, dois aspectos parecem líquidos e certos, talvez sendo comuns a qualquer candidato a pistoleiro ou matador por emoção e circunstância.

Um deles é mais fácil de entrever numa análise aparentemente óbvia, que é a justificação pela violenta emoção por uma injustiça.

Por exemplo, uma agressão violenta sofrida por um filho, pai, mãe, irmão ou mesmo a morte ou o risco de morte, própria, ou de parentes, enfim, um sentimento de preservação, calcado no excesso de medo por ameaças sofridas.

Fácil de entrever, mas complicado de aceitar. Pessoas não acostumadas com armas, pessoas “normais”, digamos assim, sem cultura de pistolagem ou emboscada, procuram outros meios para resolver situações descritas no parágrafo anterior.

Já o outro diz respeito a algo mais complexo, comum também aos que não estão acostumados com armas, mas no seu reverso: conjunto de valores ideológicos e culturais de pistoleiros e mandantes. Para ser pistoleiro imagino que precisa ter uma cultura de pistolagem. Precisa ser “educado” para isso e certamente ter uma prática, um currículo.

Costumo dizer que a maioria das pessoas de bem não quer ter armas e, se tivesse, não sairia armado nas ruas. De bem (no sentido de não ser corrupto ou delinquente) e de bem com a vida. E que quem sai armado, ainda que seja de bem, está disposto a matar, além de, mesmo sem saber ou desejar conscientemente, disposto a morrer.

Fiz um curso de tiro uma vez para uma matéria do jornal O GLOBO nos anos 1990. A pauta era eu, clandestino como aluno, para observar quem eram e o que pretendiam os demais alunos. Havia colecionador de arma, pequenos comerciantes, mulheres que viviam sozinhas, enfim, situações envolvendo as motivações mais variadas.

Qual não foi minha surpresa que a orientação do curso, de propriedade e conduzido por um casal de policiais civis, era para que nunca andássemos armados. Mesmo se tivéssemos arma.

Isso porque quem porta uma arma sempre se transforma também num alvo no momento de exibi-la e/ou usá-la. As mortes em ônibus ou locais públicos, ou mesmo dentro de casa, por reações a assaltantes, atestam essa verdade elementar.

Já os assassinos da Marielle Franco e Anderson Gomes, obviamente, devem ser “peagadê”. Porém tão boçais quanto arrogantes e ignorantes no cálculo das consequências.

Tão boçais como os que se camuflam nas redes sociais para fazer ameaças. Ao mesmo tempo corajosos, também burros e toscos achando o quê, que seria apenas mais uma morte na cidade violenta?

Sua aposta levou em conta o fato de a vítima ser mulher, negra, lésbica, de origem pobre e audaciosa demais na cabeça deles para um mundo comandado por machistas, sejam machistas honestos ou corruptos e bandidos.

Em resumo, os assassinos apostaram na chancela de certo senso comum da sociedade, ainda mais num clima de desapreço pela política, a vítima exercendo a vereança numa casa legislativa tratada por muitos como arena de negócios privados e, normalmente, de machos. Ou seja, apostaram num mundo da suposta farsa das leis.

Daí porque esse caso está no mesmo nível de sapo engasgado na garganta republicana ao da condenação injusta de Lula. Não se trata de um caso “partidarizado” ou “politizado” pela esquerda, mas uma questão de toda a sociedade. Como jornalista e cidadão, mas também como pai e avô, enquanto não for resolvido, ficará me ofendendo todos os dias.

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