Tá legal, aceito o argumento, mas não me altera o samba tanto assim…

O samba que dá o título do texto é de um grande brasileiro chamado Paulinho da Viola. Há quem diga que tenha sido uma indireta para Benito de Paula – que também admiro -, pois fazia samba de uma maneira não muito agradável aos tradicionais bambas do Rio de Janeiro.

Mas lembrei desse samba após inúmeros debates do que seria o Trabalhismo após o lançamento do livro “Projeto Nacional: Dever da Esperança”. Não falarei do livro, pois ainda não chegou na minha casa, e a crítica será feita diretamente ao Ciro, em texto.

Dito isto, gostaria de discutir um tema: o teor socialista do Trabalhismo e os cuidados para não cairmos na intoxicação da cultura política udenista.

Também, antes de me debruçar no tema, não estou falando que todos os dirigentes, parlamentares, prefeitos, militantes do PDT tenham que estar totalmente alinhados a minha tese. O Trabalhismo é heterogêneo, com contradições necessárias, porém o centro da linha política do Partido deve estar, sim, alinhado aos seus documentos históricos.

Nossa definição de Socialismo não é propriamente a dos marxistas-leninistas, embora grandes marxistas tenha contribuído para cultura política do Trabalhismo. Não podemos falar de PDT sem tratar da Teoria Marxista da Dependência e do grupo de Luís Carlos Prestes com seu anti-imperialismo revolucionário.

Porém, apresento, de modo didático, três afirmações de líderes trabalhistas para explicar nossa concepção de socialismo:

“Só a estrutura socialista resolverá os problemas da humanidade” – Leonel Brizola

“Propriedade privada é tão boa que queremos para todos” – Leonel Brizola

“A velha democracia liberal, a capitalista, está em franco declínio, porque tem seu fundamento na desigualdade. A ela pertencem, repito, vários partidos com rótulo diferente e a mesma substância. A outra é a democracia socialista, a democracia dos trabalhadores. A esta eu me filio. Por ela combaterei em benefício da coletividade.” – Getúlio Vargas

Sendo assim, fica claro que o socialismo democrático e patriótico do Trabalhismo está inserido na lógica de um Estado forte, atuante, mediador de conflitos, porém com prevalência dos trabalhadores organizados no controle do poder político.

O controle do poder político dos trabalhadores entra em colisão com a falta de poder popular da democracia liberal. Nosso projeto é pela Democracia Social para superar a velha democracia liberal e seus caguetes.

Evidentemente que, na atual quadra histórica, é importante defender a democracia liberal contra o autoritarismo – mais escancarado – também de cunho liberal. Mas a régua que mede a democracia social não é o que está bonito na foto, mas o que garante desenvolvimento e bem-estar para o povo brasileiro. Custe o que custar.

Por essas e outras que temos que ter no norte a dissolução do Liberalismo, seja na política, seja na economia, pois são indissociáveis. Não se engane. Um partido socialista como PDT tem esse dever.

Por essas e outras que Brizola era fã de Chávez e Fidel, e somente liberais vão dizer que estes têm alguma similaridade com Bolsonaro – este, sim, liberal até os ossos.

No campo econômico, Brizola reforça a tese getulista de uma estrutura socializante e centralizada do Estado na economia, porém defendendo o empresariado privado nacional para ajudar a desenvolver o país.

A estrutura socializante se dará, redigida na Carta de Lisboa, com uma agenda nacional-reformista, sonhada nas Reformas de Base de João Goulart, para organizar a produção nacional de modo mais planificado (como já estava no Programa Partidário do PTB ainda nos anos 40) para o interesse nacional.

Por isso, a solução trabalhista tem de ser muito além de reduzir, como vejo muitas vezes, apenas à taxação de grandes fortunas e diminuição da taxa de juros. Claro, uma coisa de cada vez e essas duas medidas são necessárias, mas se o norte for apenas isto, o fracasso virá sem piedade.

Vale ressaltar que o Manifesto do PDT diz: “Eis porque o trabalhismo é o caminho brasileiro para a construção de uma sociedade democrática e socialista.”

Sem contar que a Carta de Mendes afirma: “Por isso mesmo, o PDT assume, com inabalável e definitiva convicção e firmeza, pelo seu programa, sua prática e objetivos, a causa do socialismo democrático no Brasil. O PDT é um Partido Socialista”.

Sendo assim, o norte ideológico de um projeto nacional de desenvolvimento deve ser a construção do socialismo patriótico.

A tática de ascender ao poder irá variar de acordo com a conjuntura da quadra histórica. Embora Getúlio não defendesse mais uma revolução como em 1930 nos anos 50, ou seja, que nosso projeto estaria dentro da “ordem”, o mesmo não viu o Golpe de 64, o Plano Real, as privatizações, a Reforma Trabalhista e da Previdência – e nem imaginaria que um energúmeno como Bolsonaro ocuparia o mesmo cargo que ele.

Como costumo dizer, a radicalidade e a amplitude precisam estar no dicionário de quem quer construir um Brasil dos brasileiros.

Esta brevíssima apresentação da perspectiva de construção socialista do Trabalhismo ainda merece mais debates, porém não podemos negar sua necessidade de estar no seio do Partido não só como culto ao passado, mas como lentes para enxergar a realidade e mãos para a construção real da política.

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