Bacurau: a História se escreve com a peixeira

O mundo, diz a antropóloga Marylin Strathern, é “mais que um, menos que muitos”. Isto é: o Rio Doce pode ser fonte de energia para a Vale e um avô para os Krenak, mas sua devastação coloca o antepassado em coma (termo do próprio Ailton) e torna o recurso inútil. Isso porque aquele volume de água mitológica é mais do que uma Coisa única, pura e natural, e sim um corpo metamórfico investido de genealogias conflitantes – mas, ainda, um corpo: limitado e incapaz de satisfazer todas essas genealogias num mesmo momento.

Bacurau, o novo filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, vem sendo notoriamente ovacionado por onde passa. Mesmo assim, a crítica brasileira parece estar conseguindo neutralizá-lo da maneira mais profundamente decepcionante: para diminui-lo, acusa-o de incendiar um radicalismo bárbaro; para enaltecê-lo, intitula-o de Tarantino tupiniquim. Como se Lunga fosse um Aldo Raine dos trópicos (o personagem de Brad Pitt em ‘Bastardos Inglórios’), e o prazer de vê-lo degolando supremacistas brancos fosse o mesmo de ver Hitler se desmanchando pelos tiros de metralhadora ao final do filme, para o deleite de uma esquerda frustrada. É uma esterilização brutal que afunda a obra-prima de Mendonça Filho – muito provavelmente a última, diga-se de passagem, com financiamento da moribunda Ancine nos moldes como a conhecemos.

É necessário dissecar os jogos do enredo com o devido cuidado. Em primeiro lugar, no filme os invasores não são única e somente americanos: são supremacistas brancos, os mesmos que têm cometido assassinatos em massa semanalmente na América de Trump. São eles os frustrados, profundamente, com as infinitas promessas de gozo jamais consumadas. Precisam assassinar seres inferiores (constantemente, no body count, se referem aos mortos como ‘macho’ ou ‘fêmea’) pra poder sentir algo, pra poder trepar, pra experienciar alguma relação com o mundo. Infelizmente, tais personagens não estão restritos ao mundo da ficção.

Do outro lado, não há ingenuidade por parte dos moradores de Bacurau. O vídeo dos assassinatos de Pacote e a infâmia de Lunga retira-os de uma beatitude pueril que o invasor infernal chegaria pra perturbar. O confronto se dá em um plano mais complexo que o do maniqueísmo americanista que estamos acostumados a consumir.

É necessário, aqui, fazer um breve extravio para pensarmos uma teoria do monstro. Grosso modo, conforme pensado pelo antropólogo Eduardo Viveiros de Castro e seu perspectivismo ameríndio, o humano é a perspectiva que engendra uma natureza ao ser por ela engendrada. É dizer: o humano está sempre do lado que diz ‘nós’, eu e os meus; a onça é o humano da onça, e a natureza por onde ela caminha diz dessa humanidade. Para o não-humano há vários nomes: caça, besta, monstro, presa. Um xamã é aquele que consegue navegar por essas humanidades e naturezas, e estabelecer diplomacia entre aqueles dispostos a ela: não qualquer onça, mas, igualmente, a onça-xamã.

E quando essa diplomacia falha? E quando ela é impossível? Mais que um, menos que muitos: daí nasce a guerra, a caça e o confronto. Os supremacistas brancos chegam a Bacurau para caçar latino-americanos. Não há contrato de humanidade entre os dois grupos: quando os pelegos do sudeste tentam agradar e dizer que são brancos, “como eles”, tomam tiro pra lembrar das profundas diferenças. Para estes dois personagens, patéticos em sua sujeição, tal confronto é uma novidade: são entusiastas do Novo e carregam armas modernas. Os Brancos sabem se tratar de um embate arcaico, e por isso mesmo só usam armas vintage.

Os moradores de Bacurau também o sabem, donde o lugar tão privilegiado do museu para a cidade. A memória do cangaço, a insistência numa genealogia que sabe dizer sua humanidade e sua natureza são a verdadeira força do vilarejo – e não sua beatitude angelical. Em tempos de contrato social vigente, as armas podem ficar expostas na parede como memorabilia, e Lunga pode ficar em seu castelo, que muito lembra uma prisão. Mas sem ingenuidade a memória é restaurada, a arma reabilitada, e a frase de Plínio sublinha a história ali viva: “você escrevia tão bem Lunga, devia continuar escrevendo.” A História muitas vezes se escreve com a peixeira.

As críticas tão profundamente decepcionantes ao filme vêm daqueles que se recusam a acreditar em maniqueísmos tão ultrapassados quanto humano e monstro. Essa resistência foi construída, no imaginário ficcional, com a melhor das intenções: a de compreender e agregar no âmbito social aquilo que tradicionalmente foi encarado como monstruoso ou animalesco pela classe (branca) dominante – o negro, o índio, o homossexual etc. Mas o entrave ao qual Bacurau aponta diz do momento em que esse grupo, que constrói sua vida na base do aprendizado cotidiano sobre o necessário colorido de uma biodiversidade social – a esquerda –, agora se encontra face a face com um monstro.

Há laço democrático de humanidade possível entre o negro e o supremacista branco? Entre o índio e o incendiário monocultor extrativista? Entre o astrofísico e o terraplanista? O angustiante dolorido que sentimos é a incompatibilidade dos ideais higienistas que nos fantasiam sobre um convívio brando, enquanto mesmo os ínfimos contratos necessários para o sustento dessa sociabilidade são cuspidos e rasgados na nossa frente. Esse é o afeto que Bacurau mobiliza, enquanto tônica de uma trilogia ascendente – precedido por O som ao redor e Aquarius –, um afeto duro e difícil de engolir por aqueles que pensam ter havido excessos dos dois lados, militantes e militares, cangaceiros e latifundiários.

Anjos e demônios não cabem em nossas mitologias tupiniquins. Mas sabemos bem como é nos sentirmos presa, e sabemos bem que é isso que sentimos agora. A adikía, a injustiça dos gregos ou a primeira pedra já foi lançada e o primeiro sangue foi derramado: são as crianças do bairro sob o helicóptero, os caixões de Marielle e Marisa Letícia enfileirados ao final do filme. A resposta de Lunga não é um contrato e uma caneta Bic ou similar nacional, mas sim uma peixeira muito bem afiada.

 

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