Baiana System ‘Experience’

Nessa altura do carnaval é provável que você ou já tenha se curvado perante o poder da arrojada usina sonora do Baiana System ou que esteja tentando entender do que essa porra se trata. É possível também que você não goste de música e esteja ignorando tudo isso. Paciência.

Um grande amigo meu, produtor musical belorizontino, me acusou de fanboy de Baiana. Logo o corrigi: sou um devoto, pois o devoto aprecia, dedica, afeta-se, zela e contempla. Sou devoto porque o Baiana System não é pra ser ouvido, é pra ser testemunhado.

O Baiana não é uma banda comum. Não porque esteja muito acima da média, mas porque trabalha afetos muito mais complexos que outras bandas – mesmo as boas – não conseguem trabalhar.

Escreveu Caetano, após dar seu primeiro testemunho:
“É um evidente exercício de civilidade, comoventemente iluminado por valores tidos como de classe média (amor? educação? filhos? família?), mas é instintivo e espontâneo, multitudinário e eficaz. A ideia de organizar uma coletividade solidária e cooperativa se dá num clima de êxtase dionisíaco. É como ter a chama do gueto sem a tirania do chefete. É aquilo para o que o carnaval baiano atravessou eras de ingenuidade, de mesquinharia, de grandeza criativa, de cobiça e crueldade.”

O Baiana claramente não é um projeto estritamente musical. Não é banda, apesar dos bons músicos; não é poesia, apesar dos versos certeiros; não é espetáculo visual, apesar dos belos painéis e luzes; e não é só música, apesar do melhor álbum de 2017, assinado pelo genial Ganjaman. Logo, quem critica alguma dessas facetas não entendeu nada. Porque isso tem importância menor do que eles realmente são: Baiana System é uma experiência.

Por essa razão, amigo, eu não posso te explicar. Nem eu nem alguém muito mais lido ou sabido que eu. Quando falamos de uma experiência, só o empirismo resolve: você viu ou não viu.

Vejo nessa baianada aí algo que percebo no Jimi Hendrix Experience (olha só, outra experiência!). Todo mundo ama o Hendrix, mas nem todo mundo fica ouvindo. Hendrix, o maior guitarrista de todos os tempos, é mais legal de ser visto, que ouvido. Você o testemunha (e agradece a Deus e o Diabo por existir YouTube). Lembro que nos documentários sobre o Jimi, a vibe dos caras era ficar contando quando o viram a primeira vez. A primeira vez que experimentaram a Jimi Hendrix Experience.

Acredito que Baiana passe por aí, uma experiência a qual se submetem as multidões, a polícia, o underground, o mainstream, o playboy, o favelado, o BNegão e o Caetano Veloso. Música popular brasileira.

*Para os paulistanos desavisados:
Baiana System, a bordo de seu trio elétrico Navio Pirata, puxa a multidão amanhã, dia 17/02/18, em São Paulo.
Local: Av. 23 de Maio, altura do Viaduto Sta. Generosa.
Concentração a partir do meio dia, início às 13:00.

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