Beth Carvalho morre aos 72 anos no Rio de Janeiro

Morreu na tarde desta terça-feira (30), aos 72 anos, a sambista e intérprete Beth Carvalho, vítima de complicações derivadas de um antigo problema na coluna, que perseguia a cantora desde 2009.

Beth, conhecida como “Madrinha do Samba”, teve a carreira iniciada ainda no período da Bossa Nova, ritmo que a inspirou nos primeiros anos, quando gravou com nomes como Menescal e Bôscoli.

A cantora também ficou conhecida pelo seu forte ativismo nas causas populares, com forte atuação no Movimento dos Trabalhadores Sem Terra. Era filiada ao PDT e apoiadora assumida de Leonel Brizola – a quem foi sempre grata pela construção do Sambódromo. Também fez campanha para o ex-presidente Lula, estando presente no famoso vídeo da campanha de 1989 “Lula Lá” contra Fernando Collor no segundo turno. Seu ativismo foi muito influenciado pelo pai, cassado pelo golpe de 1964. Durante toda a vida Beth Carvalho manteve-se fiel ao campo progressista, tendo sido filiada ao PDT, partido de Brizola, até o último dia da sua vida. Entregou, a convite da Câmara Municipal do Rio de Janeiro, o título honorário de Cidadão Honorário da Cidade a Fidel Castro.

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Beth Carvalho em evento de campanha de Brizola no PDT, partido ao qual a cantora era filiada
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Fidel Castro e Beth Carvalho

Em 1966, Beth se afasta da Bossa, para seguir – como gostava de dizer – com o samba “mais popular”. Gravou, nesta época, com Nelson Sargento e Noc da Portela. Participou de quase todas edições do FIC (Festival Internacional da Canção) tirando o 3º lugar de 1968 com “Andança”.

Estre seus principais sucessos estão “Acreditar”,” Vou Festejar”, “Firme e Forte”, “Coisinha do Pai”, “Olho por Olho”, “Saco de Feijão”, “1800 Colinas”, “Mas Quem Disse Que Eu Te Esqueço”. Além de grande interprete, Beth teve um importante papel ajudando a revelar muitos dos maiores nomes da história do samba como Nelson Cavaquinho e Cartola, Fundo de Quintal, Almir Guineto, Zeca pagodinho, Sombrinha, Arlindo Cruz, Jorge Aragão e Luiz Carlos da Vila.

Tida por muitos como uma das fundadoras do “Pagode”, foi frequentadora assídua das grandes rodas de pagode do Rio, como o tradicional “Cacique de Ramos“ de onde aprendeu novos elementos a serem incorporados ao samba, como por exemplo a utilização do tan-tan, banjo com afinação de cavaco e repique de mão.

Reconhecida em diversos países do mundo, concorreu ao Grammy diversas vezes. Em 2005 participou do aclamado Festival de Montreaux.

Impediu a utilização de “Vou Festejar” numa passeata dos movimentos conservadores em 2015. quando disse “para que fique bem claro, eu, Beth Carvalho sempre me posicionei ao lado de líderes como Che Guevara, Fidel Castro, Hugo Chávez, Leonel Brizola, João Pedro Stédile. Inclusive, a música “Vou Festejar” sempre representou movimentos de esquerda e de abertura política como as Diretas Já e o segundo turno de Lula contra o Collor em 1989.”

jamelão, beth carvalho e hugo chávez
Jamelão, Beth Carvalho e Hugo Chávez

A maior preocupação de Beth era ainda a manutenção da cultura brasileira, em 2016, deu fortes declarações denunciando a dominação ascendente da cultura americana no país:

“Para dominar um país você tem que acabar com a cultura dele, essa é a teoria dos fascistas, dos Estados Unidos, principalmente. E, em termos de música, a coisa mais forte do Brasil é o samba. Melhor, é o forró, o sertanejo, o samba e o chorinho. Eles começaram a deturpar isso tudo. Hoje você ouve um sertanejo ou um samba que não é mais sertanejo, que não é mais samba (…) Hoje você não vê uma criança tocando tamborim, hoje você vê uma criança vestida de garoto americano, com a calça bem baixa, capuz, uma roupa que não tem nada a ver com o clima brasileiro, aliás. E muitas igrejas evangélicas que são contra o samba, são contra o candomblé, contra a macumba, contra o espiritismo. E o samba vem disso. Não conseguiram acabar com essa nossa riqueza, mas a intenção é essa: um país que perde sua cultura é um país dominado.”

A “madrinha do samba” sempre esteve ao lado do povo brasileiro, defendendo assiduamente as tradições, a cultura e música brasileira. Nunca será esquecida. Para Beth Carvalho “O samba é do povo, que sofre e sabe o que é a fome”.

Por Álvaro Camões Padilha e Renato Zaccaro

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