Por que o Brasil deve e precisa politizar seus jovens

A verdadeira educação de um povo se faz mediante o ensino das disciplinas das ciências exatas, humanas e biológicas em conexão com a Política já no ensino básico e no 2º Grau para crianças e adolescentes. Português, História, Geografia, Religiões, Artes, Matemática, Física, Química, Biologia e Educação Física – todas são, direta ou indiretamente, inescapáveis da dimensão política da vida social que elites políticas e econômicas sempre querem sequestrar das nossas mãos.

Dar prioridade à educação é tratá-la de forma holística, assim confirmam experiências de outros países, como Alemanha, Coréia, Japão, só para citar alguns, e outros que investiram na preparação da sociedade desde cedo como estratégia básica e elementar para o desenvolvimento capitalista. A história dos povos é pródiga em exemplos de como uma descoberta na Física ou na Química acaba na Ciência Política com seus usos direcionados para a guerra ou a diminuição da pobreza.

Nenhum país se desenvolve sem engenheiros assim como sem profissionais com espírito crítico ou cidadãos aptos a votar e decidir pelo seu próprio destino. Nenhum país pode subsistir dignamente sem indivíduos com subjetividade e dotados do caráter de agência política. Agente é aquele que age. Mesmo na forma passiva de indivíduos ou grupos isolados, frequentando ou não igrejas de diferentes religiões, participando ou não de filantropias, há uma ação de outros indivíduos, organizações e instituições produzindo consequências políticas, econômicas e culturais.

Ser pessoa não resulta de empreendimentos individuais de forma isolada. Mas sim da imbricação da trajetória de cada um na vida social mais ampla em diferentes graus, determinações e contradições. Isso, a partir da família e do bairro onde se nasce, a cidade, a região, o país, a escola onde se estuda, o lugar onde se trabalha ou onde se encontra vizinhos e amigos para o lazer. Quando nascemos, as instituições já estão prontas, conformando nossas vidas para o bem e para mal, daí a dinâmica da vida social de conflitos e transformações. Daí que nossas vidas não se resumem a aceitar a realidade como ela é, mas sim nos instando a agir no presente com base em alternativas que nós mesmos construímos para o próprio presente e o futuro – e isso, inescapavelmente, só através da Política.

Óbvias essas considerações, sem dúvida, mas não tanto quando altas autoridades do país anunciam claramente como política de Estado a intenção de “despolitizar” os jovens. E não se trata de ser politizado ou não por escolha, preferindo-se, em caso negativo, passar o tempo na praia ou curtindo no celular joguinhos imbecilizadores, cenas de violência, além de “memes” e “selfs” com ameaças ou palavras de ódio disseminadas pelos robozinhos digitais.

Nada contra praia ou esses joguinhos que absorvem a atenção de três ou quatro entre dez passageiros do metrô. Mas quem prefere permanecer sempre nessas situações hipotéticas está também agindo “politicamente” sem saber e sem imaginar a que interesses estão servindo. No caso de funcionários públicos, por exemplo, o pensador italiano Norberto Bobbio já apontava no século passado que aqueles que se assumem apenas “técnicos”, apartados da política, estavam praticando a pior política e nunca deixando de agir e se assumir politicamente, ignorando ou não essa condição.

Já Max Weber enfatizou no início do mesmo século suas preocupações com a autonomia excessiva da meritocracia técnica do chamado “poder racional-legal”, mesmo achando necessária sua independência da Política. Diferentemente, porém, donos de empresas privadas, bancos, investidores, operadores da Bolsa e grandes conglomerados nacionais e internacionais sabem muito bem a importância da Política e que só através dela conseguem fazer valer seus interesses morais e pecuniários.

No caso de adolescentes e jovens em formação básica e de 2º Grau, impossível ensinar nas escolas Geografia, História, Artes e outras disciplinas sem tratar da Política, vale dizer, sem estabelecer os nexos de fatos e situações isoladas com o todo social e sua trajetória histórica, tendo como pano de fundo o conjunto de diferentes atores e seus interesses em conflito. Ou vamos ser ingênuos de acreditar que crianças das periferias e comunidades pobres das grandes metrópoles não têm consciência de sua condição e das diferenças que as separam de outras crianças de classe média quando se encontram pelas ruas?

Em relação aos jovens universitários, impossível também ensinar Economia sem adentrar na Política, a não ser que se queira brincar de história da carochinha. Da mesma forma, estudantes de Direito brasileiros seriam ridicularizados caso estivessem fazendo intercâmbio internacional e dissessem por aí que Direito não tem nada a ver com Política ou com a Economia. Um engenheiro de produção seria visto como boçal em outros países se ficasse propalando que seu foco são apenas as questões técnicas e operacionais de sua atividade e não também os problemas sociais, econômicos ou políticos.

Os exemplos podem ser muitos se jogássemos luz em diferentes áreas. Basta dizer, porém, que essa tentativa de despolitização proposital tem a ver com a criação de mitos, tabus e outras baboseiras que não se sustentam na inconfessável instrumentalização política e ideológica para manter e reproduzir a ignorância das pessoas. Isso, enquanto outros usam a Política para enriquecer e determinar como deve ser o modo de vida em sociedade. Ou seja, para que uns usem a Política para fins de dominação e exploração mediante a despolitização dos dominados e explorados.

Assim, muitos, até ignorando o significado histórico do predicativo, propagam por aí que ensinar história é ser comunista; estudar os seus nexos com a geografia e a geopolítica é ser comunista; estabelecer os nexos entre Direito, Política e Economia só pode ser coisa de comunista; ser contra a destruição da previdência pública é influência de comunista; defender pobres e minorias é assunto de comunista; cobrar punição aos mandantes do assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes é coisa de comunista; também o tema dos direitos humanos teria sido inventado pelos comunistas, embora seja uma agenda criada pelas revoluções burguesas com seu marco emblemático na França do século XVIII; ser contra o desmonte do Estado e as privatizações criminosas só pode ser ideia de comunista; criticar o governo, claro, tem origem em conluios de comunistas – e  por aí vai. Até ser a favor do desenvolvimento do capitalismo brasileiro se tornou coisa de comunista.

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