Cacique de Ramos – Uma revolução do fundo do nosso quintal

O samba
Por Fellipe Chueco – O samba é um jovem senhor com seus cento e poucos anos. Nasceu no morro, filho de baianos e cariocas, tios em Pirapora (SP) e com raízes em cada canto desse país. Como todo menino do morro, rapidamente amadureceu, tomou tamanho e se virou: criou sua própria identidade, roupagem e mesmo sem saber com que roupa ele iria, ele sempre foi. As primeiras fases de sua vida foram marcadas por dura repressão. O preconceito, o olhar torto da cidade. Mas ele foi descendo – do morro, descendo, foi chegando, aprendeu a gingar para desviar das adversidades assim como um marinheiro aprende com o balanço do mar. Com Ismael Silva e a turma do Estácio de Sá, sua primeira revolução, aprendeu a ensinar e virou escola. E a partir desse momento estava pronto para ganhar o mundo.

O cacique
Enquanto isso, cresciam pelos subúrbios da cidade do Rio de Janeiro outros garotos, que, filhos de uma das primeiras filhas de santo de Mãe Menininha do Gantois, traziam o samba, a ancestralidade e a luz para mudar a própria história e a história do Samba. Ubirany, Ubiracy e Ubirajara Felix do Nascimento.

Esses três garotos filhos de mãe de santo e pai boêmio, que cresceram sob a divina influência dos precursores do Samba, e com nomes referenciados aos nossos povos nativos. Juntos com as famílias Aymoré, Conceição, Espirito Santo e também a família de um outro garoto de nome Jalsereno, filho de Chiquita, também Mãe de Santo, começaram a se reunir em pequenas manifestações culturais sempre com muito samba.

Diante de toda essa influência artística e espiritual, crescendo aos sons de tambores e nas presenças dos principais nomes do samba da época, essa tribo de sambistas decidiu que precisava levar para o mundo todo esse poder e alegria. E assim, no dia 20 de janeiro de 1961, a exatos 60 anos, nasceu o Grêmio Recreativo Bloco Carnavalesco CACIQUE DE RAMOS.

Nos primeiros carnavais, saíam pelo subúrbio da Leopoldina todos fantasiados de índio, com alegria ímpar, com samba no pé. E assim como o samba, cresceram rápido e já em 1964 estavam na Avenida Getúlio Vargas, eternizando o samba “Água na Boca” de Agildo Mendes. Desse desfile em diante, a brincadeira se tornou o maior e mais tradicional Bloco Carnavalesco do Brasil. Os principais compositores de Samba da época passaram ou começaram por ali, mas a magia estava só começando. Era dentro de sua sede, da Rua Uranus, que a história estava sendo feita.

A tamarineira
Com a ascensão do bloco, o movimento na sede do Cacique de Ramos foi aumentando, e com isso a necessidade de trazer a proteção espiritual necessária para que aquele local seguisse levando alegria e arte para as pessoas. Foi então que a mãe de Ubirajara, que já se tornará Bira Presidente nessa época e Ubirany, colocou em um determinado lugar da Tamarineira que havia no meio da sede um patuá e com aquele ato marcou que a partir daquele momento, quem pisasse bem intencionado naquele chão, os seus dotes, suas qualidades e suas virtudes iriam transparecer. A partir deste momento as Tamarineiras se tornaram guardiãs não só do Cacique de Ramos mas como de todo o samba brasileiro.

A revolução
Com o sucesso do bloco no carnaval e com a proteção das Tamarineiras, a sede do Cacique virou o ponto de encontro dos compositores de todo o Rio de Janeiro, para não falar de todo o Brasil. Compositores se encontravam semanalmente para apresentar seus novos sambas, para tomar cerveja e fazer samba de improviso no partido alto mais pesado da cidade. Começaram por ali, bem debaixo da Tamarineira, nomes como Arlindo Cruz, Jorge Aragão, Zeca Pagodinho, Almir Guineto, Luis Carlos da Vila, Cleber Augusto, Neoci, Sombrinha, e muitos outros. A magia do lugar, a inspiração iria além das belas canções, novos instrumentos para o samba começaram a surgir daquele lugar.

Almir Guineto traz o Banjo country com adaptações na afinação e no braço para o samba; Ubirany através do improviso com o tonton de bateria e depois com o repinique de escola de samba, chega ao Repique de Mão; e o garoto Jalsereno, aqui nesse momento já conhecido apenas como Sereno, cria o tantã.

Com todas essas renovações e o talento de todos os compositores que por ali passavam, as rodas de samba do Cacique de Ramos se tornaram em pouco tempo um sucesso por toda a cidade. Não tinha sambista que não passava por ali. A simplicidade, a inovação, o talento derramados sem microfone, sem caixas de som, tudo no gogó e no braço, aquilo chamava a atenção de todos que chegavam, e chamou a atenção de uma grande cantora da época, uma moça elegante que se chamava Beth Carvalho. Quando foi pela primeira vez, a hoje “Madrinha do Samba” não acreditava no que estava vendo e ouvindo, diferente de tudo que já tinha visto e como todos que frequentavam, se emocionou.

Voltou outras vezes e nessas idas ao Cacique levou consigo o seu produtor Rildo Hora, que não demorou muito a perceber que estava acontecendo ali na sua frente uma revolução dentro do Samba, algo novo estava nascendo e ele estava ali, vendo, ouvindo e sentindo algo que mudaria para sempre a história do samba: estava diante dos seus olhos o Grupo Fundo de Quintal.

Inicialmente esses garotos foram chamados para gravar com Beth Carvalho e com Dona Ivone Lara até chegar 1980 com o primeiro disco “Samba é no Fundo de Quintal”. Mas isso é uma outra história para um outro texto.

O ponto aqui é que até hoje em cada esquina desse país, em cada bar, palco e nos fundos dos quintais, cada roda de samba tem um pouco do que se criou debaixo da Tamarineira no Cacique de Ramos: aqueles garotos, aquelas famílias que mudaram para sempre a história do Samba. E como o Samba é a identidade maior do nosso país, Bira Presidente, Sereno e Ubirany são com certeza alguns dos grandes revolucionários brasileiros! Obrigado do Fundo do Nosso Quintal.

Esse texto é em homenagem aos 60 anos do Cacique de Ramos, mas também em razão da partida do nosso chapinha, fundador do Cacique de Ramos e do Fundo de Quintal, Ubirany, que infelizmente foi uma das mais de 200 mil vidas brasileiras levadas pelo Covid-19. Descanse em paz Ubirany!

Por: Fellipe Chueco.

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