Caetano Veloso e os hibridismos da liberdade

Caetano Veloso é um artista da liberdade. Suas músicas tocam milhões há décadas e suas composições mantém incrível vigor. Elas exalam vida de forma exuberante, sensual e muito provocante.

Meu encontro com Caetano e toda essa potência musical se deu apenas no final da adolescência, já no Ensino Médio, com certo receio, diga-se de passagem.

A dupla Chico Buarque-Caetano Veloso é de um tremendo frescor poético, capaz de encantar gerações completamente diferentes. Todavia, meu coração estava mais aconchegado a Chico por uma razão muito precisa: militando a favor do petismo e do Governo Lula, não compreendia por que Caetano criticava o lulismo com tanto afinco chegando a classificá-lo como grosseiro, cafona e analfabeto1ao mesmo tempo em que declarava voto em Marina Silva, que segundo ele, era “Lula e Obama ao mesmo tempo… meio preta, cabocla, inteligente como Obama, não [era] analfabeta como o Lula que não sabe falar, é cafona falando, grosseiro. Ela fala bem2

Pode parecer contraditório e até ofensivo, mas os artistas são sempre instigantes, já que a arte desentoca o pensamento. Meu velho professor de filosofia, por quem nutro muito afeto, utilizou-se de uma frase de Caetano, bastante enigmática à época, para fazer a filosofia dançar:

“Não posso negar o que já li, nem posso esquecer onde vivo. Nego-me a folclorizar meu subdesenvolvimento para compensar as dificuldades técnicas”3

A frase deu um reboliço que só! E, no entanto, por ela, fizemos a filosofia dançar com alegria contagiante, numa escola da periferia de São Paulo, no extremo leste, no lugar mesmo das dificuldades técnicas.

Assim, embora meu encontro com a obra de Caetano Veloso tenha sido marcado pelo misto de receio político e alegria artística, o tempo me fez admirá-lo inclusive politicamente.

Se fosse europeu, Caetano seria um vulcão. Como é brasileiro, Caetano é uma pororoca.

Politicamente é preciso entende-lo artisticamente, de tal forma que possamos enxergar esse fio quase invisível entre arte e política, e que hoje, como uma fita de Möebius nos ajuda a enxergar muito além da crise. Enxergar, inclusive, o que os cientistas não conseguem ver, muito menos compreender: o fora.

Já na Universidade, no curso de direito do Mackenzie, um dos momentos marcantes: um simples comentário afetuoso de um amigo chamado Felipe Nogueira sobre Caetano, despertou novamente meu interesse pela obra do cantor. Saindo do trabalho, subia a Nove de Julho (e veja só!) por vezes cruzava a Av. Ipiranga com a Av. São João rumo à aula, ouvindo toda a coleção de Caetano em MP3. O coração acelerava na fatídica Rua Maria Antônia (…) E que encontro magnífico!

A potência delirante da música de Caetano é uma ode à liberdade. A liberdade que a velha esquerda perdeu e que passou a hostilizar achando que a palavra liberdade é coisa de burguês e liberal. Aquela liberdade-conceito que é o “bóson de Higgs” da revolução autonomista, esquecido pela turma do deixa-disso, a turma das pequenas reformas e leves retoques. Esse elemento incapturável, anarquista e desafiador mesmo para as estruturas ditas progressistas.

Pois bem, Caetano, o poeta da alegria, ainda em 1968 era vaiado no TUCA – o teatro da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, destrinchando desde lá o conservadorismo da esquerda que não compreende nada do que está acontecendo. Como bem destacou José Celso Martinez Corrêa “68 foi, acima de tudo, uma revolução cultural que bateu no corpo”.

Conectado ao desejante Maio de 1968, Caetano Veloso participou do Festival Internacional da Canção – FIC – da TV Globo juntamente com Os Mutantes em setembro daquele ano cantando “É proibido proibir”. De salto alto, plumas, batom, roupa de plástico e colares misturando elementos indígenas e fios de cobre, Caetano iniciou a canção com seus acordes desafinados e um som estridente de guitarras, sendo logo em seguida interrompido por uma monumental vaia. Ainda no palco, bradou um ácido discurso que permeia até hoje a nossa história:

…Mas é isso que é a juventude que diz que quer tomar o poder?  (…) São a mesma juventude que vão sempre, sempre, matar amanhã o velhote inimigo que morreu ontem? (…) “Vocês estão por fora! Vocês não dão pra entender. Mas que juventude é essa? Que juventude é essa? Vocês jamais conterão ninguém. Vocês são iguais sabem a quem? São iguais sabem a quem? Tem som no microfone? Vocês são iguais sabem a quem? Àqueles que foram na Roda Viva e espancaram os atores! Vocês não diferem em nada deles, vocês não diferem em nada. (…) Se vocês forem em política como são em estética, estamos feitos”

Quase 50 anos depois, os gritos de Caetano ainda reverberam: a esquerda claudicante não consegue enxergar a política porque não enxerga a arte. Prefere jogar a culpa na antipolítica e dizer que o povo pobre é ingrato. É uma esquerda triste no sentido espinosano do termo.

Naquele dia, o happening4 de Caetano era típico dos tropicalistas demonstrando rebeldia com os padrões pré-estabelecidos tanto em relação à ditadura quanto à própria juventude dita de esquerda que “impunha regras internas para pessoas aderirem aos ideais deles [e, ao contrário] os tropicalistas queriam justamente inovação na música, trazendo novo sentido a ela5, portanto, a liberdade.

A imagem de Caetano e dos Mutantes no palco não coadunava com o que a juventude de esquerda esperava, pois dos tropicalistas requeria-se uma posição mais clara contra o militarismo e uma postura mais viril6, já que rebolados provocativos e roupas de plástico não pareciam suficientemente críticos para a disciplinada militância de esquerda.

Mas é preciso ir além. É preciso compreender um pouco mais do tropicalismo para entender a atualidade de Caetano:

O tropicalismo era uma mistura de uma série de projetos a partir dos anos 50 e 60, incluindo a obra de Oswald de Andrade e a antropofagia. A novidade é que o tropicalismo ao misturar, ajudava a pensar criticamente a canção por meio daquilo que Caetano chamava de “linha evolutiva”, isto é, o trabalho com escolhas diferentes dentro da música brasileira, de Noel Rosa à Bossa Nova, selecionando sem excluir, modificando, transformando e levando adiante a produção do novo muito mais como um experimento.

Em 1968, Caetano já havia produzido algo terrivelmente político: não apenas seu discurso contra os autoritarismos de esquerda, mas sua canção Tropicália enquanto obra monumental sobre o Brasil. [Ouça a música clicando aqui]

Caetano retomava a aventura de conhecer o Brasil, o Brasil profundo: o interior desconhecido, os isolamentos, aquilo que é tido por arcaico, a periferia, o atraso, o progresso, expondo toda a contradição do desenvolvimento. Era uma espécie de passeio, onde é preciso quase que pairar sobre o território brasileiro enxergando ao mesmo tempo o interior e o litoral, a metrópole e a periferia, não como meras oposições mas como partes indissociáveis de um mesmo quadro.

“A ideia de Brasília [Planalto Central] fez meu coração disparar por provar-se imediatamente eficaz nesse sentido. Brasília, a capitalmonumento, o sonho mágico transformado em experimento moderno e, quase, desde o princípio, o centro do poder abominável dos ditadores militares. Decidi-me: Brasília, sem ser nomeada, seria o centro da canção-monumento aberrante que eu ergueria à nossa dor, à nossa delícia e ao nosso ridículo”7

A canção é um encontro do xote da palhoça, da roça e do Brasil rural com a bossa nova das grandes cidades. As estrofes em tom solene, com certa dor, são intercaladas por pequenos refrões festivos que beiram o ridículo. Estão ali ao mesmo tempo a dor e o ridículo: o sertão subdesenvolvido cheio de terra e suor e o desenvolvimento, da cidade-planejada, a Brasília de concreto armado. Talvez, denunciando o subdesenvolvimento não como elemento arcaico em oposição ao moderno, mas como uma perversa aliança de trajetória que o próprio desenvolvimento estabelece, ou seja, como “uma criança sorridente, feia e morta [que] estende a mão”.

A mata e a mulata se misturam e ganham contornos de entidades reconhecidas por Caetano como “múltiplas e misteriosas”8. Fala nordestina e o som urbano, em conjunto com a palavra “farol” tomam o fundo da canção para anunciar sem dúvidas de que se trata de um hibridismo brasileiro ao mesmo tempo potente e assustador. Não deixa de ser uma denúncia, sempre atual, do custo de um desenvolvimento sem democracia, tal como posteriormente imposto pelo Regime Militar. A repetição final das rimas (sempre com ‘ta-ta’…’ta-ta-ta’) remete ao som das metralhadoras do autoritarismo, e, no entanto, no meio disso tudo aparece uma rápida e potente menção a Viva Maria, um filme de Louis Malle que retratava, à época, a luta revolucionária das mulheres na América Latina.

No decorrer da letra, outras falsas oposições aparecem como misturas potentes: Iracema e Ipanema, bossa e fossa, bossa e palhoça… acrescidas de menções sutis ao dadaísmo, formando o Brasil como tragicomédia híbrida, potente, selvagem, sempre com alegria encorajadora e crítica imponente: que tudo o mais vá pro inferno, meu bem!

No Brasil atual, tudo isso permanece, ainda que de formas distintas. Capaz de articular as palavras com uma sutileza ímpar, Caetano compôs a música “O Quereres” que entoa com Maria Gadú, e, que  a meu ver é um verdadeiro hino à resistência epistemológica, ponto inicial da virada que precisamos levar adiante, sobretudo no atual momento de ruptura, em que o ciclo progressista do final dos anos 70 se esgotou.[Ouça a bela canção aqui] Uma pintura musical sensível, comparável ao avassalador e desconcertante Políptico de Tomaz Tadeu.

Esse mesmo Caetano fez campanha em 2010 para Fernando Gabeira no Rio de Janeiro, declarou voto em Marina Silva em 2014. O mesmo Caetano já declarou que “o slogan quem conhece o Brizola, vota no Brizola é verdadeiro, é genuíno”, também é o Caetano que denunciou o “risco que se apresenta na esquerda de não respeitar a democracia” e perguntou: “Onde está o Amarildo?” Esse Caetano também defendeu Lula da prisão arbitrária e gritou “Lula Livre” no palco, mesmo debaixo de vaias.

Suas ideias muito mais próximas à Internacional Situacionista do que propriamente à Internacional Socialista, ao mesmo tempo brilhantes e instáveis, são a expressão de liberdade criativa perdida no seio da velha esquerda, a liberdade capaz de nos tirar do atual lamaçal e que infelizmente continua passando desapercebida pela esquerda hegemônica.

É o Caetano que durante as Jornadas de Junho de 2013 vestiu-se de Black Bloc enquanto a velha esquerda, perdida, criticava ferozmente a tática anarquista sem empenhar o mínimo esforço para ao menos compreender o acontecimento. É esse artista, o Caetano proibido pela Justiça de cantar na ocupação do MTST em São Bernardo do Campo/SP.

Cantor e compositor Caetano Veloso vestido de Black Bloc

É o Caetano Veloso que recentemente disse de modo muito lúcido a Pedro Bial:

Em torno disso [da indignação contra a desigualdade social brasileira] todo mundo devia poder se unir (…). Os projetos liberais podem produzir resultados melhores, é possível. Mas sou muito desconfiado e acho que os brasileiros devem ser desconfiados disso – os brasileiros responsáveis – porque a força oligárquica, a força que quer manter as coisas e que precisa e crê que só pode continuar vivendo mantendo esse grau de desigualdade, é enorme e está atuante (…) a gente tem que ficar alerta! (…) Eu tenho quase que uma superstição de esquerda, eu tenho uma reação contra a religião da esquerda, a religião marxista… eu reajo, aí eu me lembro de novo de Rubens Molina que disse pra mim: superstição é melhor que a religião (…) a esquerda é como se fosse o desejável último, o mais importante, e a direita são as soluções imediatas para a alegria momentânea.

Essa sua capacidade esquiza, anárquica, escorregadia, fluídica, lhe entregou o rótulo de pós-moderno, como se a pós-modernidade fosse tanto mais um xingamento do que uma constatação. Pouco importa! Caetano Veloso continua potente, talvez ainda mais e como nunca. Recentemente entrevistou Roberto Mangabeira Unger e declarou voto em Ciro Gomes nas eleições de 2018, defendendo o experimentalismo como saída viável para o Brasil, afinal, gente é pra brilhar, não pra morrer de fome.

[A entrevista completa pode ser assistida aqui]

Caetano é um inventor, um misturador de sílabas, temido por certa esquerda que no fundo crê no machismo viril, na disciplina militar, nos lugares marcados, no autoritarismo de bem, tanto quanto a direita, e encara a luta com uma tristeza, uma falta de imaginação…

Sentado num auditório, dessa vez na Universidade Federal do ABC, em pleno 2018, passado tudo o que já se passou, ouvi alguns jovens defendendo a volta da teoria revolucionária leninista, criticando essa ‘baboseira’ de black blocs, dizendo que junho de 2013 foi coisa dos americanos, e que essa história toda de mulheres, negros, gays e tudo o mais, só serve para ‘enfraquecer a causa’.

Lembrei mais uma vez de Caetano… De fato: eles continuam não entendendo nada, nada, nada…absolutamente nada!

Notas de Rodapé

  1. O ESTADO DE SÃO PAULO. Em artigo Caetano explica fala sobre Lula, 10 de nov.2009
  2. Ibdem.
  3. Depoimento a Décio Bar (Realidade, dez. 1968, p. 197) e a Carlos Acuio, Manchete (16.12.1967, p. 23).
  4. Técnica de expressão utilizada pelos tropicalistas onde o artista incorpora algum movimento, ato espontâneo ou improvisado que não era mais repetido em outra apresentação com envolvimento do público.
  5. FADEL, Átila Maranezzi; WERNER, Guilherme Braga. “Vocês não estão entendendo nada!” Uma análise do discurso de Caetano Veloso no Festival Internacional da Canção de 1968, Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação
  6. Ibdem.
  7. VELOSO, Caetano. Verdade Tropical, Companhia das Letras, São Paulo, 1997, p. 184
  8. Ibdem, p. 185

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