SILVIO ALMEIDA: A cultura do “cancelamento” é a antipolítica por excelência

A “cultura do cancelamento” ou “outrage culture” é totalmente incompatível com três matrizes ético-políticas que considero essenciais para superarmos este terrível momento: as tradições afrobrasileiras, as cosmovisões indígenas e a filosofia crítica.

Acredito na política como meio de criação e de transformação do mundo. Com a política novos mundos se tornam possíveis, porque é na política que a humanidade revela o seu potencial – gerador ou destruidor – diante das determinações naturais.

A política é também o lugar do conflito, da agonia e da contradição. É o lugar da luta, do enfrentamento e da crítica. Mas, por apostar na humanidade como invenção, a política é igualmente o lugar da pedagogia

Não nego o conflito, o enfrentamento e a crítica contundente. Há situações, pessoas e ideias que devem ser combatidas com extremo vigor. Considero um dever moral o uso da força contra o fascismo quando necessário. Com igual vigor, devemos tratar quem apoia racismo, sexismo e extermínio de pobres.

Tanto o uso da força como a educação exigem responsabilidade. Por isso, a cultura do cancelamento é a antipolítica por excelência. É a recusa da educação e, mais ainda, do confronto. Seu único objetivo é negar a existência do outro. O cancelamento é o triunfo da irresponsabilidade.

Cancelar é produzir um morto-vivo, ou ainda, uma alma penada que habita uma casa arrastando correntes. Cancelar é um gozo de sofrimento. O cancelado e o cancelador se unificam na irresponsabilidade moral e política.
Cancelamento é incompatível com Orixalidade. Orixalidade é pedagogia e/ou enfrentamento dos inimigos até as últimas consequências. As flechas de Oxóssi ou de Seu Sete Flechas não cancelam; ou mostram o caminho ou matam. Os grandes mestres da filosofia crítica não abdicam da contradição e nem se rendem à impotência politica.

Em algumas comunidades tradicionais quando alguém comete um erro é colocado em uma roda e a comunidade em volta fala de todas as coisas boas que a pessoa fez na vida. A intenção é que se lembre que pode ser melhor e, responsavelmente, com a ajuda da comunidade, repare seu erro. A cultura do cancelamento deve ser cancelada porque nada tem a ver com o Brasil.

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