RICARDO CAPPELLI: A “Serra Pelada” do futebol mata

O que aconteceu no Flamengo não foi acaso. Nossos meninos há muito tempo viraram commodities no mercado mundial da bola, numa lógica extrativista desumana que matou a principal paixão nacional e destroça o futuro de milhares de crianças.

Os sonhos de jovens talentos das periferias brasileiras – que vislumbram no futebol uma das raras oportunidades de ascensão social – são triturados diariamente por empresários e clubes ansiosos por um bom negócio.

Não existem vidas nem famílias. Só negócio altamente lucrativo. Quanto mais rápida for a venda, melhor. Crianças de 12, 13, 14 anos, pelo país inteiro, são retiradas de suas famílias e confinadas em alojamentos em condições, na maior parte dos casos, deploráveis.

Como fica a formação destas crianças? Como fica a estrutura educacional, emocional, psicológica diante do rompimento precoce de laços afetivos com a família e os amigos? Qual o impacto nos meninos arrancados precocemente de seus pertencimentos? Quantos vão virar jogadores profissionais? Como ficam os “descartados” no processo?

Em alguns países da Europa, leis rígidas disciplinam a questão. Os clubes formadores são obrigados a cuidar prioritariamente da educação dos meninos. É obrigatório o ensino, por exemplo, de uma segunda língua preparando-os para um mercado globalizado. As crianças não podem treinar todos os dias. O Estado regula e impõe limites aos clubes e à sanha do Capital.

No Brasil temos a junção dos elementos de uma tragédia anunciada. O sonho das crianças com a “Serra Pelada do Futebol”, a ganância do capitalismo selvagem e o descaso das autoridades do Estado. Antes de serem atletas e talentos nossas crianças são cidadãos brasileiros. Antes do lucro, o cuidado com a formação integral para a vida é o mínimo que se espera.

A tragédia no Flamengo deveria mobilizar o Congresso Nacional, os Conselhos de Direitos, o Ministério Público e todos os demais poderes numa cruzada pela vida. Mais importante que achar culpados é impedir que outras vidas sejam queimadas pelo agressivo mercado da bola.

O Flamengo é do tamanho do Brasil. Seu luto é capaz de mobilizar a nação. Dez brasileirinhos cheios de vida se foram. Que as lágrimas se transformem na força necessária para dar um basta definitivo, enfrentando de forma dura esta máquina de moer os sonhos e o futuro de nossas crianças.

Por Ricardo Cappelli

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