Celso Furtado e a razão tropical

“Pergunto-me se não devemos refletir mais a fundo sobre a clivagem entre desenvolvimento e subdesenvolvimento, a dinâmica perversa que concentra a renda em escala planetária em benefício dos que controlam os capitais, as tecnologias e a informação. Sem dúvida, devemos evitar as armadilhas do reducionismo econômico. Mas como não enfrentar a problemática das estruturas de poder, o papel progressivamente dominante das empresas multinacionais, a anulação do Estado nacional como força motora nas regiões subdesenvolvidas?”.

Celso Furtado, 22/02/1993

Onze anos antes de sua morte, Celso Furtado (1920-2004) nos brindou com essa reflexão em seus diários. Talvez ele nem imaginasse que suas anotações particulares seriam publicadas mais tarde – em 2019 -, e que em seu centenário estaríamos, nós, os seus leitores, munidos de cerca de quatrocentas páginas inéditas sobre a sua vida e o seu pensamento.

Não surpreende que, em seus mais de setenta anos, Furtado ainda se preocupava com as mesmas questões com que lidara durante a vida toda. Seu pensamento inconformista e insubmisso nunca pretendeu o dogmatismo e, na verdade, era quase avesso à certezas. Sua marca não foi oferecer as repostas, mas fazer as perguntas corretas.

Foram as perguntas que alçaram Celso Furtado ao posto de maior intérprete do Brasil. Ao contrário de tantos intelectuais conhecidos entre nós, ele não se contentava em oferecer fórmulas herméticas, muletas intelectuais que pudessem ser instrumentalizadas automaticamente para a ação. Dos liberais aos nacionalistas, não poupava críticas onde enxergasse irracionalidade. Inimigo do mimetismo cultural, Celso Furtado foi o arauto da razão tropical.

Profundo na análise, foi também um gigante na ação. Não espanta que em sua obra autobiográfica e em seus diários se encontrem tantas críticas a personagens importantes da história. Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, John F. Kennedy, Roberto Campos, Che Guevara, Jean Paul Sartre, Álvaro Vieira Pinto, Hélio Jaguaribe, Guerreiro Ramos, Kissinger, Brizola, Lula, FHC, Ulisses Guimarães. Estão todos lá. O leitor que se depara com as divergências políticas e intelectuais de Furtado com essas figuras não pode tomá-las como prepotência. Fato é que ele possuía a estatura dos grandes estadistas e a envergadura dos maiores intelectuais.

A Sudene, inventada por ele em 1959 para socorrer o nordeste do subdesenvolvimento e das desigualdades regionais, redesenhou num só ato o federalismo brasileiro, redistribuindo o poder regional e possibilitando reformas profundas em benefício do povo e do desenvolvimento nacional. De mentalidade original, Celso Furtado foi capaz transformar o quadro institucional do país sem recorrer a exemplos de experiências internacionais.

Ele sabia que o Brasil só poderia ser pensado a partir dele próprio. Sua ruptura ideológica mais sensível foi apontar que, para adequar os meios aos fins fundamentais do país, era indispensável que os meios fossem outros que não os prescritos pela ciência convencional, importada de países cuja realidade não era parecida com a nossa.

Mas não nutria qualquer tipo de xenofobia intelectual. Nem sequer cultural. Sabia que as grandes civilizações da humanidade eram capazes de extrapolar a criatividade local e produzir legados com pretensão de universalidade. Não temia mergulhar nas culturas alheias, absorver o que nelas havia de melhor. Ocorre apenas que não duvidava da existência de espaço para o Brasil naquilo que era universal.

O Brasil, fruto da expansão inicial dos povos europeus para o além-mar, nascido do encontro daqueles com os índios nativos da América e com os africanos sequestrados violentamente de suas terras natais, era prova viva da força da história. Daí que seu método haja sido, antes de tudo, um método de investigação histórica. O subdesenvolvimento não poderia ser pensado fora da história.

Tampouco a criatividade, essa capacidade inventiva que em certos momentos da humanidade encontra as condições econômicas, políticas e institucionais para florescer, deve ser descontextualizada. Subdesenvolvimento e criatividade, duas ideias que aglutinam a economia e a cultura para mostrar que o desafio do desenvolvimento é, acima de tudo, político, indicam que mesmo as abstrações conceituais de Furtado nunca se apartavam do aspecto mais concreto da realidade, o elemento histórico, aquele que elucida os movimentos de transformação da estrutura social no tempo e no espaço – o que colocou Furtado no degrau dos grandes estruturalistas do pensamento latino-americano.

Assim, Furtado rejeitou o reducionismo econômico e nos mostrou que o subdesenvolvimento é um problema político e que guarda uma dimensão cultural. Não sendo apenas uma etapa econômica pela qual os países desenvolvidos já passaram em algum momento, a essência do subdesenvolvimento só se torna identificável quando se observa as estruturas de poder que bloqueiam o bem-estar da população.

Imerso nas ideias de seu mestre – o argentino Raúl Prebisch -, Furtado enxergava o capitalismo como um fenômeno global e caracterizado pela ruptura entre países centrais e periféricos. A divisão se dava na capacidade de produzir e difundir a tecnologia de vanguarda, restando aos países periféricos a absorção destas através dos hábitos de consumo. Por trás dessa troca estava a capacidade de uns e a incapacidade de outros de formar seus próprios sistemas econômicos nacionais, objetivo inatingível sem independência tecnológica.

Mas não via a tecnologia como um bem meramente econômico. A difusão do progresso técnico é portadora dos valores culturais da civilização que lidera o desenvolvimento. A descontinuidade tecnológica, todos percebemos no nosso cotidiano, altera o comportamento das pessoas, transforma o modo de vida, impõe novas relações sociais. É um fenômeno primordialmente cultural.

O subdesenvolvimento, portanto, é a característica central das estruturas econômico-sociais em que valores civilizacionais externos penetram através dos hábitos de consumo de um setor privilegiado da população. Para mimetizar o padrão de consumo dos países desenvolvidos, essas minorias abastadas condicionam o processo econômico a níveis de concentração de renda substantiva e psicologicamente insuportáveis para amplas camadas sociais, criando um cenário de violência e revolta que só pode ser contido pela segregação crescente.

A esse acontecimento – a absorção do progresso técnico não na estrutura produtiva, mas nos hábitos de consumo -, Celso Furtado deu o nome de modernização. A modernização nunca conduz ao desenvolvimento. Como está fundamentada pela desigualdade, acaba por se institucionalizar. O processo político, por consequência, adquire roupagens cada vez menos democráticas.

Neste 26 de julho, Celso Furtado completaria cem anos. Mais do que uma celebração, essa é uma oportunidade para os brasileiros se reencontrarem com a sua obra, retomarem o contato com o seu legado e com a sobriedade de seu pensamento.

É também um alerta. Aqueles que leem Celso Furtado se deparam com um desafio: conhecer o Brasil sem as lentes do preconceito, mas também sem as lentes do dogmatismo. É recusar uma visão mecanicista do país e do mundo. Trata-se de um chamado à razão.

A sinceridade também é uma forma de demagogia. Se bem utilizada. Afirmo categoricamente que não faço promessas. Não alimento ilusões. Trato de fazer com que todos entendam o meu ponto de vista. Isso de que os homens querem ser enganados é apenas uma meia verdade. Cada vez mais me convenço de que a razão é um poderoso instrumento de dominação, mesmo das multidões. O evangelista da razão…”

Celso Furtado, 24/05/1959

Neste 26 de julho, Celso Furtado completaria cem anos. Mais do que uma celebração, essa é uma oportunidade para os brasileiros se reencontrarem com a sua obra, retomarem o contato com o seu legado e com a sobriedade de seu pensamento. 

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