ANA SUY: Centenário de Clarice Lispector

Esse ano comemorou-se o centenário do nascimento de Clarice Lispector. Em tempo, faço uma breve homenagem.

Volta e meia digo que aprendo muito de psicanálise lendo literatura, especialmente a de Clarice Lispector. Faço, com certa frequência, uma brincadeira, dizendo que Clarice Lispector era lacaniana.

Pois bem, ela não era. Até onde sei, Clarice jamais estudou teoria psicanalítica. Sei também que ela fez análise com pelo menos dois analistas e que encontrou efeitos importantes dessas análises, especialmente da segunda. Assim consta em sua biografia “Clarice”, de Benjamin Moser.

Na edição nova de “Além do princípio de prazer” (texto do Freud do qual também comemorou-se o centenário esse ano) tem uma epígrafe de um texto do Gilson Iannini, de um trecho do Borges, que é assim: “Os bons leitores são cisnes ainda mais tenebrosos e singulares que os bons autores”.

A leitura dos textos mais vivos, que são textos poéticos, não deixam o leitor se acomodar no lugar de mero objeto: convocam o leitor a dar algo de si, a escrever um texto próprio para além daquilo que o autor escreveu.

Daí a imensa possibilidade de interpretações desses textos cheios de aberturas. Um texto poético é como uma piada: se você explica, perde a graça.

A graça, aliás, está justamente numa certa suspensão de sentido que o encontro com o texto promove. A essa suspensão, Lacan chamou de Real.

A escrita de Clarice Lispector toca nesse ponto: nessa borda que ela faz ao Real, convocando o leitor a escrever também.

Com frequência, pessoas que não gostam de ler poesias, dizem que não as entendem. É que o sentido não está ali, dado de modo mastigado ao leitor, como nos textos informativos, por exemplo. O sentido está ali como causa, como a sinceridade maior da palavra: a sutil confissão de que a palavra mente, escorrega, diz mais do que a gente quer e por isso nos leva a dizer tanto. É nesse escorrego da palavra que mora a literatura lispectoriana.

Por isso digo que Clarice era lacaniana: porque tal como Lacan, fazia sua palavra acampar em uma abertura para além da própria palavra.

Quem lê Clarice, escreve (como cisne) também. Clarice dá uma baita dignidade a quem a lê.

Por: Ana Suy.

A leitura dos textos mais vivos, que são textos poéticos, não deixam o leitor se acomodar no lugar de mero objeto: convocam o leitor a dar algo de si, a escrever um texto próprio para além daquilo que o autor escreveu.  Daí a imensa possibilidade de interpretações desses textos cheios de aberturas. Um texto poético é como uma piada: se você explica, perde a graça.  A graça, aliás, está justamente numa certa suspensão de sentido que o encontro com o texto promove. A essa suspensão, Lacan chamou de Real.  A escrita de Clarice Lispector toca nesse ponto: nessa borda que ela faz ao Real, convocando o leitor a escrever também.

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