A centralidade da questão nacional no trabalhismo

No prefácio de sua obra magistral, “o Povo Brasileiro”, Darcy Ribeiro faz uma pergunta tão simples quanto profunda: “por que o Brasil ainda não deu certo?”. Quer dizer, como este país colossal, com tamanha abundância em recursos, com uma unidade cultural e linguística única no mundo, como esta país ainda não deu certo?

Essa mesma pergunta ecoa ao longo de nossa história, aparecendo sob diversas roupagens em todo o espectro político e intelectual brasileiro. Alguns já explicaram que o problema do Brasil é fruto de nossa herança colonial lusitana, que teria criado um homem cordial que confunde o espaço público com o espaço privado – daí a corrupção que impregna toda a administração pública. Outros disseram que o problema do Brasil são suas estruturas sociais e econômicas arcaicas, que mantém o país em uma espécie de atraso perpétuo, como se o nosso país não fosse moderno. E tantas outras explicações do tipo “jabuticaba” – coisas que só dão no Brasil. O problema é nosso jeitinho brasileiro, o problema do brasileiro é que ele não tem cultura, o problema do Brasil é o populismo, etc. Quase sempre acompanhadas daquelas comparações “aí, você precisa ver como na França eles são civilizados”; “aí no Japão você não vê um chiclete grudado na calçada”.

Agora, reparem no seguinte. Todas essas explicações guardam algumas coisas em comum. Primeiro, partem do pressuposto absurdo de que os países são como ilhas, que se desenvolvem em separado e autonomamente, ligados somente por minúsculas pontes do comércio internacional, das imigrações, da política externa, etc. Segundo, que o Brasil é uma espécie de versão ainda por se completar de alguma coisa que já existe nos países de primeiro mundo – seja a democracia em seu modelo ocidental, a tal “sociedade civil” evoluída ou alguma coisa de cunho cultural.

O companheiro Theotônio dos Santos, um dos grandes intelectuais do trabalhismo e signatário da Carta de Lisboa, demonstra em sua obra que foram os navios abarrotados de açúcar, ouro e café feitos com o suor e sangue dos brasileiros que realizaram a acumulação primitiva dos vastos capitais sediados nos países europeu, permitindo o surgimento da moderna maquinaria industrial. E isso continua no presente. As economias de mercado e a socialdemocracia no Primeiro Mundo não sobreviveriam sem os excedentes econômicos espoliados pelas transnacionais na periferia do capitalismo, nas costas do trabalhador oprimido pela superexploração. Inspirado em André Gunder Frank, o companheiro Theotônio mostra que a história do Brasil é marcada por esse “desenvolvimento do subdesenvolvimento”. Portanto, o problema do Brasil não é o atraso, visto que fizemos a modernidade. E muito menos somos uma ilha isolada, posto que já surgimos e seguimos voltados pra fora.

Desde os seus primórdios, o trabalhismo se colocou contra a ideia de que somos a versão incompleta de alguma outra coisa. No meio da contenda da Guerra Fria, outro pensador e político do trabalhismo, Alberto Pasqualini, no “Diretrizes Fundamentais do Trabalhismo Brasileiro”, postula que o trabalhismo é uma linha própria de pensamento, preocupada com justiça social, disposto a manejar elementos do capitalismo e do socialismo como se fossem técnicas em prol deste fim. Outro genial quadro de nosso partido, Guerreiro Ramos vai muito mais além e rejeita a importação de modelos teóricos e políticos estrangeiros e sua aplicação pura e simples para explicar o “caso” brasileiro – como se fossemos o desvio de alguma outra coisa. É ainda de Guerreiro Ramos a noção de a urbanização e a industrialização do Brasil lançaram as bases para a formação de uma consciência nacional.

E o que seria essa consciência? Consciência é conhecer a si mesmo e ser capaz de agir em virtude desse conhecimento. O trabalhismo é a ideologia desse conhecimento do Brasil pelo Brasil objetivando sua emancipação enquanto povo.

Assim é que podemos entender a importância da educação para o trabalhismo. Primeiro, como condição material de nossa emancipação: para que nosso povo se apodere da tecnologia estrangeira e produza sua própria. Segundo, como condição ideológica de nossa emancipação, na medida em que funcione como motor de conhecimento de si mesmo e de produção de um conhecimento autônomo, nacional e crítico. Daí a longa tradição trabalhista na educação, que vai de Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro até os CIEPs de Brizola e a experiência de Sobral no Ceará.

Darcy Ribeiro e Leonel Brizola provam da merenda do refeitório durante inauguração de CIEP
Darcy Ribeiro e Leonel Brizola provam da merenda do refeitório durante inauguração de CIEP

Agora, que governo nós temos em Brasília e aqui em São Paulo? Uma gente que se envergonha de ser brasileiro, que enlameia os símbolos nacionais em prol de um servilismo mesquinho para os Estados Unidos. Um falso nacionalismo vazio que quer nos reduzir a uma espécie de Estados Unidos incompleto. Um governo lacaio que entrega nossas riquezas para as transnacionais, que dilapida a Petrobras, que rasga nosso tecido industrial, que destrói o edifício de nossos direitos trabalhistas. Uma suposta operação de combate a corrupção – a Lava Jato – que sacrifica o país no altar de uma suposta “neutralidade técnica”, ajudando o departamento de Estado norte-americano a destruir a indústria brasileira. Uma importação de um modelo político do pior tipo, que submete e aliena o Brasil.

Quando Darcy Ribeiro se debruça sobre o quê deu errado no Brasil, responde que jamais pudemos nos constituir como povo para nós mesmos, sempre sendo um país em função dos outros. Primeiro, uma feitoria escravagista para a produção de bens tropicais, depois como um local em que as transnacionais podem arrancar grossos excedentes.

É preciso resgatar a bandeira nacional de José Bonifácio, de Getúlio Vargas e de Brizola da mão destes farsantes. É preciso resgatar a tradição rebelde do trabalhismo, que não se submete ao destino colonial que nos querem impor. É preciso resgatar a simbiose entre os brasileiros e o Brasil, sintetizado genialmente por Getúlio Vargas na expressão com que iniciava todos os seus discursos: “Trabalhadores do Brasil!”

Viva Brizola! Viva Getúlio Vargas! Viva o Brasil!

Comunicação proferida no I Congresso da Juventude Socialista do PDT – municipal de São Paulo em 11 de maio de 2019, em homenagem ao Centenário de João Goulart

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