CESAR BENJAMIN: Alan Turing e o herói anônimo

Ultimamente, quando fico muito cansado do trabalho, retorno a uma biografia de Alan Turing que não tem edição em português.

Turing foi um dos personagens centrais do século XX. Matemático de formação, decifrou os indecifráveis códigos alemães durante a Batalha do Atlântico, salvando a Inglaterra. Para isso, construiu a primeira “máquina universal”, ou “máquina de Turing”, hoje conhecida como computador. Eu não sabia que, além disso, o jovem Turing havia dado contribuições muito importantes em lógica matemática, trabalhando com Kurt Gödel em Princeton.

Em 1952 o Estado inglês condenou esse gênio, herói de guerra, à prisão e à castração química pelo crime de homossexualismo, levando-o ao suicídio, por não aceitar a humilhação. Tinha 42 anos de idade. Em 2009 a rainha pediu perdão, formalmente, em nome do Estado inglês.

Não é isso que desejo destacar agora, mas sim o heroísmo anônimo que está sempre presente em uma guerra.

Desde 1939, a equipe de Turing, instalada no chamado Barracão 8, ultrassecreto, pelejava para encontrar as chaves do código alemão, que usava as máquinas Enigma. É impossível descrever aqui como elas funcionavam. Sempre as imaginei gigantescas, pela sua complexidade, até que vi uma delas num museu em Londres. Cabiam numa mala de mão. Eram um prodígio da engenharia alemã. Uma mesma palavra, teclada duas vezes, gerava combinações completamente diferentes de letras, aleatórias. Não havia nenhum ponto de partida para o trabalho de decifração.

Turing conseguiu avançar um pouco ao perceber que a maioria das mensagens alemãs usava certos jargões (que ele chamava de “costeletas”), como “previsão do tempo”, “situação no Canal da Mancha” ou, simplesmente, “Heil Hitler”. Começava a pesquisa procurando onde estavam essas “costeletas”. Mas não progredia.

Precisava desesperadamente ter acesso a instruções que os operadores alemães levavam em cada navio ou submarino, mesmo sabendo que elas eram trocadas diariamente. Queria apenas conhecer que tipo de instruções eram essas. A Marinha inglesa foi acionada, mas as tripulações alemãs tinham ordem expressa de se desfazer dessas instruções em caso de perigo.

Em 26 de abril de 1940, o contratorpedeiro inglês Griffin abordou um (falso) navio mercante de (falsa) bandeira dinamarquesa para uma inspeção. Na verdade, era um navio alemão carregado de munições. Passo ao livro:

“O mar jogava intensamente, com grandes ondas, quando alguém viu uma bolsa de lona semissubmersa. Os marinheiros tentaram alcançá-la, sem êxito, pois a embarcação oscilava violentamente. Um deles se amarrou em uma corda e se jogou ao mar. Conseguiu agarrar a bolsa, mas a corda arrebentou. Manteve-se agarrado nela, emergindo e afundando. Finalmente foi resgatado, quase sem fôlego, segurando uma segunda corda que os companheiros lançaram. Subiu a bordo com algo que havia sido jogado fora pelo navio abordado. Eram papeis secretos, com as instruções que Turing buscava.”

Esses papeis permitiram um importante avanço no trabalho de Turing, decisivo, como eu disse acima, para a Inglaterra sobreviver à Batalha do Atlântico.

Tudo o que escrevi é para homenagear esse herói anônimo. Pessoas assim ganham uma guerra.

Por: Cesar Benjamin.

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