CESAR BENJAMIN: Pasteur e a metodologia das ciências

No trabalho que estou escrevendo sobre história e metodologia das ciências, ainda estou centrado em quatro autores que impactaram fortemente as ciências biológicas na segunda metade do século XIX e prepararam os desenvolvimentos do século XX: Darwin, Bernard, Pasteur e Mendel.

Primeiro, me debrucei sobre Darwin e Bernard. Agora, terminei de rever a trajetória e os principais textos de Pasteur. Vou destacar quatro aspectos: seus trabalhos em cristalografia (fundamentais e pouco conhecidos), sua demonstração da natureza biológica (e não puramente química) da fermentação, o desenvolvimento de vacinas em grande escala para doenças importantes, numa época em que não se sabia nada sobre o funcionamento do sistema imune, e, finalmente, seu papel decisivo na refutação da hipótese de geração espontânea de vida.

Este último caso é cheio de lições sobre a prática da ciência:

1. A motivação primeira de Pasteur não tinha nada de científica. Conservador, monarquista e religioso, ele dizia que a geração espontânea de vida seria uma vitória do “materialismo” e colocaria em risco o papel do Criador. A França conservadora de Luís Bonaparte associava geração espontânea e evolução das espécies (duas teorias diferentes) e recusava ambas por pressão da Igreja Católica. Pasteur se inseriu nesse movimento maior.

2. Ao contrário da lenda, Pasteur não demonstrou, nem podia ter demonstrado, que não há geração espontânea. Suas experiências foram claramente inconclusivas;

3. Apenas 10% das experiências que fez confirmavam seu ponto de vista, que, não obstante, permaneceu inalterável;

4. Com o que se conhecia na época, as experiências de Archimède Pouchet a favor da geração espontânea estavam corretas e não podiam ser contestadas. A questão deveria ter permanecido aberta. A posição da Academia Francesa, a favor de Pasteur, foi claramente ideológica. Ninguém propôs uma experiência decisiva sobre o assunto.

5. Pasteur e Pouchet realizaram experiências honestas e competentes, obtendo sistematicamente resultados contraditórios entre si. Mas nenhum deles reproduziu exatamente as experiências do outro.

Este último aspecto foi decisivo. Pasteur usava água de levedo de cerveja e Pouchet usava água de feno – ambas esterilizadas pelos melhores métodos da época. Só depois se descobriu que esses métodos não matavam alguns esporos, especialmente resistentes, que existem no feno. Na época, ninguém sabia disso.

Enfim, Pasteur tinha razão – de fato, não há geração espontânea de organismos vivos –, mas não tinha nem uma motivação científica aceitável nem um método correto para demonstrar seu ponto de vista. Teve que usar todo o seu talento de polemista para anunciar uma vitória que não existiu. Foi acolhido e regiamente financiado pelos poderes da época.

A evolução da ciência, como se vê, passa longe das descrições padronizadas nos livros didáticos, em que tudo segue as prescrições da razão.

Cabe ressaltar, porém, a incrível intuição de Pasteur. Durante sua longa carreira, foi sempre certeiro, mesmo quando não tinha uma boa teoria onde pudesse se apoiar.

Mendel me espera.

Por Cesar Benjamin

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