Champions League – South american edition®

“A liberdade do novo mundo é a esperança do universo”

“A unidade dos nossos povos não é simples quimera dos homens, senão inexorável decreto do destino”.

As duas frases que servem de epílogo a esse texto são do Libertador, de Simón Bolivar, o herói da independência da América Latina e o revolucionário que livrou do jugo colonial a Bolívia, a Colômbia, o Equador, o Panamá, o Peru e a Venezuela. O panteão sulamericano também é composto por San Martín, Líder da emancipação Argentina e partícipe dos processos Chilenos e Peruanos, O’Higgens redentor do Chile, Artigas do Uruguay e Sucre, coronel de Bolívar e segundo presidente da Bolívia.

Com o intuito de homenagear os heróis da emancipação americana, em 1965 a Copa dos Campeões da América da lugar à Copa Libertadores da América, uma decisão de caráter político e afirmativo da independência e não submissão do nosso Continente, da luta diária daqueles que sabem que a  riqueza da metrópole se dá em razão de nossa pobreza, nos dizeres de Galeano.

Quem acha que o esporte não é arena de disputa política é cego para a magnitude da mudança que ocorreu em 1965, a partir daí o torneio intercontinental (hoje em dia Mundial de Clubes da FIFA™ ) se tornou a disputa entre Sul e Norte, entre os libertadores da américa e os tiranos. Aquele que compartilha da opinião do apresentador global não vê que o processo de mudança no formato de disputa da Libertadores iniciado pela CONMEBOL no ano passado é a negação do caráter emancipatório e afirmativo do torneio continental, é a submissão a padrões importados e impostos pela Europa, é tudo aquilo contra o que os nossos heróis lutaram. Seria melhor mudar o nome do torneio para Entreguistas da América e passar a “homenagear” figuras do escalão de Mauricio Macri, de Temer, de Serra, Pinochet, Fujimori e Médici.

Os avanços do futebol-negócio e a cada vez maior impossibilidade de competir com o poder aquisitivo de outros mercados fez com que o cenário sul-americano se enfraquecesse  em demasia. A Copa Libertadores não ficou imune e a CONMEBOL , no seu ímpeto de submeter o torneio ao padrão europeu, à Copa dos Campeões,  fez com que a competição que acontecia no primeiro semestre  se estendesse pelo ano todo, com 42 semanas de duração. Não há neste continente time que consiga manter seus melhores jogadores, os que se destacam e nos dão esperança na magia do futebol por tanto tempo e quando eles passam a encantar as nossas arquibancadas são cooptados pelos times do mundo e se vão e aqui ficamos nós, mais uma vez me valho de Galeano para exprimir meus sentimentos, como mendigos futebolísticos, implorando uma bela jogada pelo amor de deus.

O torneio perde força e a antes batalha entre colonizado e metrópole no Mundial de clubes ganha ares de massacre, estamos na maior sequência histórica sem um triunfo americano, o último time campeão foi o Corinthians no distante ano de 2012 e não há esperança na reversão deste terrível quadro.

A decisão anunciada pela Confederação Sul Americana de que a final da Libertadores será disputada em campo neutro previamente estabelecido põe fim ao torneio americano e opera o retorno à Copa dos Campeões da América ou caso os nobres dirigentes optem por um nome  novo, Champions League South American Edition.

Alejandro Domínguez, mandatário da entidade que preza pelos interesses do nosso futebol, ao anunciar a implementação do padrão europeu justificou a mudança afirmando que trará mais desenvolvimento, mais dinheiro e democratizará a competição, pulverizando as sedes das finais por diversas cidades. Indago ao digníssimo senhor que desenvolvimento trará? O investimento para a realização da final será mínimo e o impacto na infraestrutura da cidade sede será nulo. Nem mesmo a justificativa de que a mudança traria mais lucros para os clubes finalistas se sustenta, o presidente afirma que independente das vendas de ingressos, os clubes receberam 2 milhões, muito pouco perto do provento de 14 milhões de reais auferidos pelo Atlético Mineiro quando foi finalista.

Mas, de fato, o lucro estará presente, no bolso da Confederação que poderá repassar livremente ingressos aos seus patrocinadores que os darão de brinde a toda sorte de engravatados. E o povo? E a hinchada? Dará audiência recorde nas televisões, uma vez que estará a milhares de quilômetros do local da partida. O espetáculo in loco é reservado para aqueles que podem arcar com as custosas despesas de uma viagem em nosso Continente, pobre em infraestrutura, e aos patrocinadores. O futebol já não é mais do povo.

Em outros tempos, a Libertadores podia eventualmente ser decidida em campo neutro, como desempate dos dois primeiros duelos, que seguiam o esquema de local e visitante. Foram 13 finais decididas no jogo de desempate: 6 realizadas em Santiago, 4 em Montevideo, 2 em Assunção e outra em Lima. Ora, mais um argumento que se mostra falacioso, quando a competição previa a possibilidade de campo neutro as decisões se concentravam nas mesmas cidades!

Não nos deixemos enganar, a mudança de formato da finada Copa Libertadores serve somente aos interesses econômicos de algumas empresas e indivíduos que ao menos em respeito aos Libertadores mudem o nome da competição, pois esta farsa que se vende como Copa Libertadores não lhes rende homenagem, pelo contrário Bolívar estaria indignado com a vil submissão da CONMEBOL à metrópole.

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