O Clube da Esquina e a amizade como laço da sociabilidade urbana

O Clube da Esquina, movimento musical de incrível referencial estético composto por músicos internacionalmente reconhecidos pela qualidade e versatilidade, ao passo que se referia à amizade e esperança em tom poético, apresentava uma visão crítica e reflexiva da conjuntura repressiva da década de 70 desafiando os limites do tempo e espaço.

Lo Borges, Fernando Brant, o ex-presidente da República Juscelino Kubitschek e Milton Nascimento em 1971
Lo Borges, Fernando Brant, o ex-presidente da República Juscelino Kubitschek e Milton Nascimento em 1971

Dentre os eventos musicais e movimentos culturais situados entre os marcos da Bossa Nova e do Tropicalismo, um verdadeiro período de ruptura e renovação musical influenciado pelo ciclo de desenvolvimento nacional, o Clube da Esquina surge na década de 1960 em Belo Horizonte, Minas Gerais, como um movimento que trouxe inovações estéticas, porém sem encaixar-se por completo nos estanques musicais da Bossa Nova, Samba Canção, Tropicália, Jovem Guarda ou Canção Protesto.

Com Lô Borges, Beto Guedes, Toninho Horta, Fernando Brant, Wagner Tiso e, claro, o emblemático Milton Nascimento, sua figura central e idealizadora, e tantos outros, o Clube da Esquina, cunhado assim a duas mãos por Lô Borges e “Bituca”, apelido de Milton, era um grupo de amigos que se reunia para conversar sobre poema, música e cinema num boteco do bairro de Santa Teresa, situado na esquina da Rua Divinópolis com a Rua Paraisópolis.

Integrantes do lendário grupo. Ao fundo, Toninho Horta (blusa azul) e Milton Nascimento.
Integrantes do lendário grupo. Ao fundo, Toninho Horta (blusa azul) e Milton Nascimento.

Apesar de nunca ter sido entendido como um movimento musical, o grupo trouxe o que podemos chamar de world music, criando uma síntese culturalmente diversificada e densa que digeriu e aglutinou Jazz, Música Caipira, Nueva Trova Latino-americana e Beatles, sem falar da mistura de elementos progressivos com psicodelismo, Cantos Étnicos e Congado.

Portanto, distanciando-se não somente da Bossa Nova, já que os últimos consideravam a música rural obsoleta, mas também do tropicalismo, vez que os “esquinistas” se utilizavam da música rural e do balanço e da harmonia bossa-novistas em meio ao rock progressivo, como pode ser claramente visto nas canções “Para Lennon e McCartney” e “Um Girassol da Cor de Seu Cabelo”.

Em sua primeira fase, no período que compreende o final da década de 1960, como pode ser analisada nos álbuns “Travessia” (1967) e “Courage” (1968), a essência das letras constituía-se mais em elementos do Jazz e da Bossa Nova, assim, de forma bem menos diversificada do que em um segundo momento do grupo (1970-1973), no qual as composições dos seus integrantes começaram a incorporar não somente os elementos do rock progressivo inglês, mas tradições musicais e culturais dos andinos e cancioneiros mineiros, fase em que se consolida sua popular e genuína fusão de tendências estéticas.

Com uma sonoridade própria, nem tão coloquial quanto a Bossa, nem tão irreverente quanto o Tropicalismo, o Clube da Esquina foi o mais importante movimento musical da história recente de Minas Gerais. Valorizando suas raízes mineiras impressas de maneira singular nos antológicos álbuns “Clube da Esquina” (1972) e “Clube da Esquina II” (1978), sem pretender tal objetivo, seus integrantes conseguiram colocá-los como dois dos mais relevantes discos de todos os tempos da Música Popular Brasileira. O regionalismo de dentro para fora que enaltece as tradições mineiras pode ser visto na canção “Paisagem da Janela”, tratada com alguns dos requintados recursos harmônicos bossa-novistas.

Ao misturar o rural com o urbano, o local com o global, o movimento viu na música a sua arma mais pungente. Apesar de não explicitar seu engajamento como o fizeram Chico Buarque, João Bosco, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Tom Zé, os integrantes do Clube da Esquina discretamente tendiam sempre à corrente cultural nacional-popular. De forma geral, como dito outrora, o grupo não optou por contrastar unicamente com elementos como o erudito, tradicional e nacional, mas também com o popular, o estrangeiro e a vanguarda, uma combinação e assimilação especialmente críticas da cultura vigente à época.  

Mesclando de forma recorrente temas como “viagem”, “estrada”, “mudança”, “amizade” e sentimentos como o de “tristeza” e “paz”, há uma clara carga histórica em suas composições. Boas perspectivas e a esperança de um país maior presentes nas letras, em sofisticada harmonia com a melodia, ressoam até hoje através das respectivas apresentações de seus integrantes. Sem citar diretamente a opressão e repressão do contexto social e político da Ditadura, a angústia e a preocupação marcam os seus recursos tímbricos e as suas densidades sonoras, num verdadeiro contraponto à alteração do modo de vida implementado pela sociedade capitalista e pelo referido período de exceção.

 

Tanta gente no meu rumo

Mas eu sempre vou só

Nessa terra desse jeito

Já não sei viver

Deixo tudo deixo nada

Só do tempo eu não posso me livrar

E ele corre para ter meu dia de morrer

Mas se eu tiro do lamento um novo canto

Outra vida vai nascer

Vou achar um novo amor

Vou morrer só quando for

– “Outubro”, Milton Nascimento e Fernando Brant (1968)

 

Portanto, com uma mineiridade que mais se parece com um manancial histórico do Estado de Minas, e exercendo um diálogo reflexivo e altamente criativo com a realidade sócio-política da época, o Clube da Esquina teve uma considerável importância no contexto cultural da Ditadura.

Destacando um momento particular da música brasileira, e tendo como ponto de partida os discos “Minas” e “Geraes”, ambos do cantor, compositor e violonista Milton Nascimento, através de um ambiente sonoro constituído por um saudosismo e “fé no povo” que “resiste e insiste” por uma saúde social, pode-se dizer que toda discografia do Clube da Esquina possui não somente a identidade cultural como marco fundamental, mas a amizade como sua principal fonte de inspiração poética.

 

Amigo é coisa para se guardar

No lado esquerdo do peito

Mesmo que o tempo e a distância digam “não”

Mesmo esquecendo a canção

O que importa é ouvir

A voz que vem do coração

 

Pois seja o que vier, venha o que vier

Qualquer dia, amigo, eu volto

A te encontrar

Qualquer dia, amigo, a gente vai se encontrar

– “Canção da América”, Milton Nascimento e Fernando Brant (1979)

 

Com um olhar dotado de uma dimensão política, ao tratar da amizade e do valor da união que surgiu dos encontros pelos cantos, becos, praças, bares e esquinas da cidade, o Clube da Esquina expressa em suas canções como o espaço urbano pode ser um local de construção das relações sociais e de troca de ideias e opiniões diversas diante do bem comum.

Influenciado pela topografia e fisionomia da cidade, portanto à mercê das transformações políticas, sociais e urbanísticas de Belo Horizonte, o grupo conseguiu, em torno da experiência de amizade, interação e diálogo, construir uma canção popular que reivindicasse a cidade enquanto espaço das liberdades humanas e do fortalecimento do espírito associativo, rompendo, então, com o esvaziamento da esfera pública.

Em um período que entregar-se ao mundo significava correr riscos, ao cobrir musicalmente desde a fazenda ao estádio de futebol, passando pelas estradas de terras periodicamente frequentadas pelos cancioneiros, o Clube da Esquina valorizou as tradições mineiras ressignificando os sentidos de como ocupar a cidade com alegria, emoção e criatividade.

 

Os sonhos não envelhecem!

 

 

 

 

 

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