Combate à corrupção se tornou a nova doença holandesa do Brasil

Nem a clássica doença holandesa do petróleo brasileiro teve tempo de se manifestar de forma aguda como enfermidade nacional diante da captura da agenda do país pelos movimentos conhecidos como mensalão e lava-jato. E estes são escritos aqui em caixa baixa por questão de soberania cognitiva numa perspectiva de preocupação com a soberania nacional, que só é possível com projeto de nação e desenvolvimento. É como se a agenda anticorrupção tivesse se articulado por antecipação para substituir uma possível doença por outra doença, porém, concreta – muito mais grave e deletéria.

A caixa baixa é a recusa de tratar esses movimentos partidários que se fingem de jurídicos como supostas instituições republicanas na linha pretendida por seus próceres e pelos idiotas que os aplaudem. Esses novos partidos políticos são a quintessência da corrupção contemporânea, nada tendo a ver, portanto, com o moderno príncipe gramsciano, pois se apresentam com o falso moralismo do apolítico judicial, agindo, porém, como verdadeiras agremiações em defesa de interesses partidários.

Doença holandesa é quando um país fica muito dependente de apenas um tipo de recurso natural como fonte de divisas, não promovendo a diversificação e a complexidade de sua economia. O nome tem origem no fato de os Países Baixos terem descoberto uma grande quantidade de gás em seu subsolo na década de 1960 e ficado refém dessa única fonte de recursos, ou dela fazendo a principal fonte, sem ampla estruturação produtiva a partir de outros meios.

Caberia indagar se e quando o Brasil sofreu de doença holandesa em sua trajetória republicana ou se estava para sofrer no contexto da decisão de explorar o pré-sal na primeira metade da década passada. Ou se já estávamos sofrendo da referida doença com a exportação de minérios e outros produtos sem uma perspectiva de industrialização e complexidade econômica.

Ou ainda se nem teve tempo de arriscar a sofrê-la como doente em estado gravoso tamanho foi o rolo compressor do desmonte nacional com a criminalização da política promovida por esses movimentos partidários camuflados de corporações judiciais.

A indagação é pertinente se considerarmos que, muito antes dessa crise que culminou com o golpe de 2016, o Brasil registrou crescimento notável comparado a outros países do mundo. Não me refiro nem ao crescimento mais recente promovido pelos dois primeiros governos do PT, impulsionado por uma série de fatores internos e externos, dentre os quais, o preço das commodities. O que, aliás, já poderia até caracterizar sintoma de doença holandesa numa perspectiva analítica do ponto de vista econômico.

Voltemos mais atrás e joguemos luz sobre o período de 1930 a 1980, quando o país teve a maior média de crescimento econômico do planeta – vale dizer, meio século nada desprezível. E nada desprezível também comparações temporais, mesmo considerando as especificidades de formações e conjunturas. Se o Brasil hoje possui apenas uma agenda há 13 anos, qual seja, o combate à corrupção, que é o tempo do mensalão e da lavajato, a comparação chega a ser notável para nos indagar por que em 15 anos foi possível Getúlio Vargas promover amplas transformações para tirar o Brasil do jugo das oligarquias agrárias e implantar as bases da industrialização brasileira.

O que acontece ou não acontece com o avanço cognitivo e a massa crítica de um país em termos temporais? Quinze anos do passado dando uma lição de desenvolvimento a 13 anos dos dias atuais no que diz respeito à pujança e diretrizes para um projeto nacional. Depois dos 15 anos de Vargas (1930 a 1945) – e após intervalo de cinco anos – seguidos de mais quatro anos de continuidade do desenvolvimento para, enfim, a o emparedamento nacional por forças retrógradas, culminando no suicídio do estadista em meio também a denúncias de corrupção.

Interpreta-se com doses altíssimas de plausibilidade que o tiro no peito de Vargas (1954) adiou em dez anos o golpe dos que sempre quiseram restringir a democracia para fins privatistas e colonizadores. Bastante sentido nessa interpretação, pois, afinal, Juscelino Kubistchek continuou o projeto de desenvolvimento, nos moldes possíveis de outra conjuntura dentro das novas configurações da expansão capitalista no mundo. Isso, graças à garantia do Marechal Lott de impedir que o governo fosse derrubado pelos golpistas.

Numa terminologia usada por Otavio Ianni em seu livro “Enigmas da Modernidade-Mundo”, o moderno príncipe gramisciano, vale dizer, o partido político, consagrado na segunda metade do século XIX, teria sucedido a figura do condottiere encarnado no príncipe de Maquiavel, que inaugurou o pensamento político moderno no século XV. Depois desses dois príncipes, segundo Ianni, o século XX assistiu ao crescimento do que ele chamou de “príncipe eletrônico”, a tal parafernália comunicacional que conhecemos no contexto do desenvolvimento das tecnologias da informação, internet e outras.

A associação entre este último príncipe e os partidos das corporações jurídicas também explica muito sobre essa avacalhação que vivemos hoje no Brasil relacionada ao retrocesso cognitivo e à gosma acrítica que não consegue separar alhos de bugalhos. Há remédios pomposos para males sem cura, tanto na farmacopeia das multinacionais, como no imaginário da sociedade.

No caso, a doença holandesa atual não é nem em relação a algo concreto tributário de seus predicados no plano econômico, mas sim um fetiche ou um mito teleguiando as disposições de eleitores e diferentes partes da sociedade. Seria a dependência de algo mistificado para supostamente explicar a realidade, apaziguar histerias e extremismos, tratar acertos como erros e justificar golpismos econômicos e políticos de falsos moralistas.

Enfim, a nova doença é tapar o sol com a peneira da grande corrupção, peneira, mesmo, no sentido seletivo do que significa corrupção, qual seja: a perpetuação dos mecanismos que reproduzem as desigualdades sociais e econômicas através do desmonte do estado nacional, a evasão de divisas, as dívidas trabalhistas e previdenciárias de empresários, a destruição da previdência pública e a entrega dos recursos estratégicos que, ao contrário, se trabalhados e utilizados num projeto de desenvolvimento nacional, podem neutralizar a clássica doença holandesa e promover a complexidade da nossa economia.

 

 

 

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