Confrontar a Invenção do Brasil

Digo que estou encantada com uma nova invenção”, Elis Regina.

 

É curioso notar como tanta coisa pode mudar. Nos anos 1880, a marinha dos Estados Unidos era menor que a do Brasil! Nos anos 1890, a vitória dos japoneses na primeira guerra sino-japonesa consolidava o “break-up” chinês, que dividiu a China em áreas de influência entre potências como Inglaterra, França, Alemanha, Japão e Rússia. Hoje, os Estados Unidos são a maior potência mundial e a China se ergue rapidamente a ponto de ameaçar a hegemonia dos americanos.

De lá para cá o Brasil passou por altos e baixos. Importantes feitos nacionais rodeados de outros tantos mais tímidos. Mas sabemos que o orgulho brasileiro imita o movimento de uma sanfona muito mais por conta das incansáveis investidas que sofre do que por razões verdadeiras. O mais sincero é que em nossa identidade há motivos de sobra para cultivarmos uma autêntica satisfação.

Não somos nós os maiores campeões do esporte mais popular do globo terrestre? O mesmo, quem sabe, que ser o mais triunfante gladiador da Roma Antiga? No campo da criatividade, não somos os responsáveis pela Bossa Nova, que levou no embalo e conquistou o mundo muito antes do tabuleiro de War ser inventado?

Da mistura do europeu com o índio e o africano nasceram as mais apetitosas receitas gastronômicas dos quatro cantos do planeta e o gingado brasileiro, que compõe a estética da capoeira, do futebol e do samba.

Das entranhas do nosso país brotaram Tarsila, Dorival Caymmi, Luiz Gama, Machado de Assis, Guimarães Rosa, João Gilberto, Leolinda Daltro, Marta, Pelé, Garrincha, Maria Bethânia, Maria Esther Bueno, Aleijadinho, Niemeyer, Celso Furtado, Darcy Ribeiro, Milton Santos, Elis Regina…

E quando o avanço científico esbarrou em nossas fronteiras, afinal, descobriu-se que somos donos da mais monumental megabiodiversidade que existe. O pré-sal brasileiro, tantas vezes questionado, já compete com o petróleo do Oriente Médio. O sucesso da Embraer nem é surpresa, nós que inventamos o avião!

Pois bem, entre as dádivas que herdamos de Alexandre de Gusmão e do Barão do Rio Branco estão hoje duas riquezas inestimáveis, daquelas de fazer salivar qualquer analista sério da geopolítica mundial: a Amazônia e a Amazônia Azul. É aí que reside a grande fatia da já catalogada megabiodiversidade do país e das conhecidas reservas de petróleo sob a nossa soberania. Somente a Amazônia Azul, com seus praticamente 4,5 milhões de quilômetros quadrados em pleno oceano, soma ao território nacional uma área próxima de 50% da sua extensão!

Imaginem, porém, que o mundo que habitamos não seja movido apenas pelo som das teclas de um Tom Jobim, ou pela vibração das cordas do nosso João Gilberto, por mais originais e expressivos que sejam. Que, para lá das brutalmente delicadas curvas modernistas que há meio século nos apontam um futuro que evitamos enxergar, haja perigo na esquina.

É fato que cada nação moderna forjou historicamente os valores de seu próprio povo, e que esses valores constituíram a outra face de uma certa materialidade, que também evoluiu e transformou-se numa sucessão de contextos postos e sobrepostos. Muitas dessas nações gravaram em seu caminho de ascensão e queda o expansionismo, o imperialismo, a catástrofe ou o isolamento. Também o Brasil sofreu e praticou a violência, pois somos um episódio do mesmo processo de mundialização desse sistema plural de Estados nacionais.

Por outro lado, nossa condição de país miscigenado, continental, unido de cabo a rabo pelo mesmo idioma, geograficamente rasgado e culturalmente aproximado por largos e tortuosos rios, cercados pela espinha dorsal da América Latina, de iguais povos novos, sofridos e misturados, conectados a outro continente de joelhos por um Atlântico Sul impiedosamente formador da nossa identidade, tudo isso, nos legou talvez um dos poucos valores históricos universalizáveis ao restante da humanidade: a convivência.

Criado a partir de um empreendimento colonial europeu visando tudo extrair daqui para lá, inusitadamente o Brasil porta um significado de humanidade superior ao que lhe deu origem.

Darcy Ribeiro, profeta da nossa utopia civilizacional, mostrou que porque sofremos, porque incorporamos mais humanidades, a essência da nossa tropicalidade é generosamente oferecer ao mundo a possibilidade de se abrir à convivência. Que outro povo possui tarefa mais nobre?

Otimismo demais se olharmos o Brasil dividido diante do qual nos encontramos atualmente? Realmente, de que serve o nosso país fraturado? O que poderia nos unir? Se ignorarmos a complacência da geografia, o que nos resta? Bem verdade que um Brasil unido talvez fosse perigoso demais, paradoxalmente por conter em si as possibilidades de um futuro brilhante.

Algumas considerações:

  • Os portugueses, em seu ímpeto aventuroso da metade do milênio passado, desejando firmarem-se na eternidade da história, contornar um Mediterrâneo intransponível, dominado por armadas embarcações venezianas, aqui chegaram e dentro de um breve espaço de tempo deram origem a um povo inteiramente inédito, que não era mais português, tampouco índio, nem africano. Nascia um ninguém, um brasileiro, um povo não transplantado.
  • Como aqueles alquimistas chineses que inventaram a pólvora na busca por uma “fórmula da imortalidade”, quando na verdade estavam concebendo o exato oposto.

Não seria o Brasil uma bela ironia, como a pólvora? A intensidade de uma instantânea explosão, inesperada, deixa qualquer um estupefato, ainda que por um brevíssimo instante. Ocorre que a imagem do espetáculo se faz eterna, imortal.

Não é a nossa identidade que precisa ser transformada. Deve-se, antes,  compreender a questão nacional e transformar o destino do país para preservar aquilo que nos constitui e nos identifica.  Confrontar a nossa própria invenção. 

É curioso notar como tanta coisa pode mudar. Que outro país carrega no ventre as sementes de um antidestino?

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