Contra o fetiche do passado acabado e da falácia pós-moderna – 2

Uma das disciplinas que está sendo atacada silenciosa e sub-repticiamente na guerra contra a Filosofia e a Sociologia é a História. Nesta segunda edição da série contra o fetiche que mistifica determinados problemas brasileiros contemporâneos, a ideia é mostrar que o equívoco é ver a História como estudo dos fatos passados e isolados sem repercussão no presente.

De acordo com essa visão, a compreensão da História se daria a partir de dados já prontos, pretensamente científicos e catalogados em bancos de informações confiáveis ou confrontados com fontes divergentes. Os chamados “fatos” ou “eventos” históricos teriam sua vida no passado, mas estariam extintos como fenômenos no presente. Além disso, dependendo de como estuda a História, você seria ultrapassado ou “antenado” na “pós-modernidade” por conta das novas tecnologias.

Os verbetes de hoje são, portanto: 1) O passado presente e 2) falácia pós-moderna. Ambos procuram mostrar como a ignorância leva à cafonice do prefixo “pós” em tudo e como o intelectual que se considera pós-moderno mostra-se iletrado, porém alegre e bem falante em seminários e congressos com seus “gad gats” de última geração.

1 – O passado presente parodia o título do livro de Reinhart Koselleck, “Futuro passado: Contribuição à semântica dos tempos históricos” (Rio de Janeiro: Contraponto: Editora PUC-Rio, 2006). Se logo no prefácio o autor nos faz refletir sobre o futuro como desafio por conta das técnicas que tornam o nosso tempo cada vez mais breve, aqui convido o leitor para também pensar no passado como um desafio permanente.

Na verdade, a História se constrói sempre no presente através de constantes pesquisas, com novas descobertas, abordagens e perspectivas. Em outras palavras, a História se faz no presente e nunca está “pronta” ou acabada no passado. Além disso, em termos de materialidade existencial, diria que o passado está presente no aqui e agora em dimensões transformadas diacronicamente. Os exemplos são muitos, mas podemos pinçá-los de forma aleatória, alguns restritos e outros abrangendo totalidades mais amplas das sociedades.

Para citar um específico da história brasileira, veja-se que consequências das mudanças empreendidas na Era Vargas estão presentes hoje em manifestações de conflitos por sua permanência ou destruição, a exemplo da flexibilização das leis trabalhistas e a entrega do petróleo para os estrangeiros.

Não à toa a frase emblemática do neoliberal mascarado de social-democrata Fernando Henrique Cardoso ao assumir a Presidência da República em 1994: “Aqui termina a Era Vargas”. Getúlio Vargas estava presente até então, e aproveito para complementar no sentido de que continua presente nos conflitos da atualidade. O que era tensão nos tempos de Vargas continuou sendo na Era FHC e também nos dias de hoje, isto, é: precisamos de mais ou menos Estado?

Outro exemplo: o casamento entre Cristianismo e Capitalismo, apesar da diferença de idades entre os cônjuges. A ética protestante demonstrada por Max Weber em sua famosa obra do início do século XX vale para os embriões da nascente sociedade do século XVI como também para os dias de hoje. Presentes, por exemplo, na ideologia da meritocracia que “deifica” os frutos do trabalho como sucesso supostamente resultante dos méritos pessoais, e não das contradições e conflitos de classes sociais. Espécie de “calvinismo heroico” de conseguir chegar lá por conta do esforço pessoal de natureza fundamentalista.

Por que esse exemplo? Ora, seria ocioso entrar em detalhes justamente, como falei, por causa da diferença de idade desses fenômenos históricos, um mais longevo que o outro, porém, ambos presentes mais do que nunca, aqui e agora, apesar de seus eventos “históricos” passados. Isto é, tudo o que aconteceu em torno da vida e da morte de Jesus Cristo e os eventos relacionados à nascente sociedade burguesa nas revoluções europeias, a partir do século XVII.

Fácil ver por aí, por exemplo, hoje em dia, como a fé das pessoas é explorada por certos espíritos monetários de igrejas mundo afora. Sem falar que, como a parúsia acabou não acontecendo, Religião e Ciência se contemporizaram entre si como quem diz: tudo bem, convivamos, porém cada um com suas respectivas verdades.

Outro exemplo emblemático: a chamada Revolução de 1930 no Brasil ocorreu apenas quatro décadas após a abolição formal do regime escravocrata do Império. A essência exploradora deste regime, porém, continua até hoje em novas formas engendradas pelo sistema capitalista, que transformou o escravo em trabalhador assalariado e consumidor. Mudaram forma de estado, sistema de governo, maneiras, leis e hierarquias, porém permaneceram mecanismos exploratórios da mão de obra em níveis absurdos, ainda mais agora, com a tal flexibilização das leis trabalhistas e as tentativas de destruição da previdência pública, aqui no Brasil, e mundo afora. A escravidão, portanto, não é simplesmente coisa do passado.

Da mesma maneira, estruturas de dominação e concentração de renda instauradas pela ditadura civil-militar no Brasil, a partir de 1964, permanecem até hoje. A ideia não fetichista, portanto, é tentar compreender por que o processo de redemocratização do país, que culminou com a Constituição de 1988, não aboliu a situação originada naqueles tempos.

2) Falácia (ou cafonice intelectual) pós-moderna. Uma postura muito comum e pretensamente revolucionária em seminários moderninhos de todas as áreas científicas é aquela em que o palestrante exorta o seu público a olhar o contemporâneo com “olhos do século XXI” e não mais com olhos do século XX. Parece até coadunar com os imbecis que empunharam faixas em manifestações de rua contra Paulo Freire. O que significa olhos do século XXI?

Significa acreditar que vivemos um presente perpétuo emanado de uma revolução tecnológica repentina, surgida há poucas décadas da cabeça de gênios. É o fetiche que ignora como o presente foi sendo construído a partir do passado e como este permanece presente em diferentes formas, embora com fatos novos e elementos inéditos de convívio social. Porém, repito, permanecendo velhas estruturas escondidas pelas frequentes cortinas de fumaça borrifadas pelos golpistas políticos e econômicos.

É a crença de que grandes narrativas como socialismo, por exemplo, estão ultrapassadas porque, afinal de contas, o Muro de Berlim foi derrubado em 1989, e o capitalismo saiu “vencedor”. Seria o fim da história, nada mais sendo possível no presente e no futuro. Não existiria outra alternativa de sociedade, a não ser a capitalista, com sua ideologia infantilizadora do protótipo imperialista estadunidense: sociedade marcada por futilidades, novas formas de barbáries, fome, exploração, guerras, crises e futuro sempre incerto. O absurdo transformado em normalidade. Isso tudo, apesar da suposta e fetichizada “evolução” do ser humano.

É a ilusão de que não precisamos ver o que aconteceu no passado porque tudo já está aí nas redes sociais e na internet. É o engano do empreendedorismo mágico dos “empresários de si”, que se ofendem quando são chamados de “proletários”. Isso, embora sejam em sua nova versão de escravos digitais e do setor de serviços.

A cafonice é se assumir “hiper-moderno” com a maior cara de pau, ou “pós-moderno”, adjetivo que não quer dizer absolutamente nada – porém, na condição inescapável da velha forma surgida a partir do século XIX – vale dizer, a sociedade de mercado. Nesta sociedade, nós, supostos indivíduos livres e “iguais”, heróis atomizados, não conseguiríamos compreender a nossa peculiaridade específica (inédita em relação a sistemas anteriores não capitalistas) de sermos meras mercadorias, além de consumidores de mercadorias, fantoches das grandes corporações que determinam como deve ser a vida em sociedade. Portanto, pensemos e afastemos certos fetiches para compreender que estamos vivendo séculos sobrepostos. Estamos no século XXI, mas também ainda nos séculos XIX e XX.

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