“No voy a permitir que se meta con mi país”

O jogador do Corinthians Ángel Romero chamou a imprensa não para se desculpar pelo que disse sobre o Santos, mas para que você entenda pelo que ele e outros jogadores estrangeiros estão passando no Brasil.

No domingo passado, mais precisamente em 04/03, Corinthians e Santos se enfrentaram pela décima rodada do Campeonato Paulista. O jogo não foi bom tecnicamente, mas foi muito emocionante!

O Corinthians abriu o placar no primeiro tempo com um chutaço de fora da área do ex-santista Renê Júnior. A bola desviou de leve no meio-campista Léo Cittadini e tirou qualquer chance de defesa do excelente goleiro santista Vanderlei.

O Santos, então, lançou-se ao ataque com tudo. Em 55% do tempo de jogo a bola ficou com o time da Baixada. A posse de bola, contudo, não se transformou em jogadas bem trabalhadas, pois o time do Corinthians sabe, desde 2008 (com a chegada de Mano Menezes para levar o time recém rebaixado de volta à elite nacional) montar uma retranca difícil de ser transposta.

Resultado: 34 (!!!) bolas alçadas na área pelos santistas contra três do time da capital.

O jogo ganhava emoção a cada jogada de fundo de campo que o lateral santista Daniel Guedes fazia. O Corinthians vem tendo sérios problemas na bola aérea defensiva. Foram vários “quase gols” de cabeça do Santos. Lucas Veríssimo e Sasha foram os que chegaram mais perto de marcar, mas pararam em Cássio e na rede pelo lado de fora, respectivamente.

O Corinthians ia mal nos contra-ataques. O meia Rodriguinho até saia jogando bem, mas os pontas Clayson e Romero estavam num dia muito ruim. Os jogadores do Santos desarmavam os corintianos com facilidade e retomavam a blitz rumo ao empate.

Aos 20 minutos do segundo tempo da partida os refletores do estádio se apagaram. Foi o terceiro jogo SEGUIDO que isso ocorreu no estádio do Pacaembu. O curioso é que o Pacaembu foi a casa do Corinthians por décadas e os refletores se apagavam uma vez na vida e outra na morte, mas durante a gestão do atual prefeito de São Paulo ocorreu essa sequência inédita de apagões. Coincidência ou não, o gestor da nossa cidade trabalha forte para privatizar esse patrimônio público histórico que é o Estádio Municipal Paulo Machado de Carvalho. Parece que a retórica que vão tentar emplacar agora é que essas ocorrências evidenciam que o estádio deve passar para a iniciativa privada, e não que a culpada é a Eletropaulo – responsável pela distribuição de energia para as cidades metropolitanas do estado de São Paulo e pela manutenção dos receptores.

Mas não é sobre os apagões que vamos conversar hoje; o jogo voltou a rolar 50 minutos depois.

Aos 40 minutos do segundo tempo, Romero enxergou um lançamento vindo em sua direção e deu um carrinho para tentar dominar a bola, que passava de seu corpo e ia saindo pela linha lateral. O jogador, por causa do carrinho, foi parar na frente do banco de reservas do Santos. Dois jogadores, sentados, estenderam as travas da chuteira na direção do paraguaio. Um deles, Luiz Felipe, zagueiro reserva do Santos, projetou-se para fora da cadeira e fez um movimento vertical, de cima para baixo, contra a coxa do jogador corintiano, e teve êxito. Acertou a solada onde mirou.

Romero, que tentou jogadas de efeito o jogo todo e apanhou mais que lutador de MMA, rolou para dentro do campo e ficou caído, visando a procrastinar o reinício do jogo. Um bolinho de jogadores santistas se formou ao redor do paraguaio, que foi xingado até não poder mais.

Um minuto depois disso saiu o gol do Santos. Em mais um cruzamento para a área corintiana, Cássio rebateu a bola para frente e Diogo Vitor encheu o pé para explodir a torcida santista de alegria.

O jogo acabou aos 49, com o Santos botando uma pressão danada para cima do Corinthians. Tanto que ainda deu tempo de Léo Cittadini tomar um carrinho por trás do zagueiro corintiano Balbuena dentro da área. Foi pênalti, mas o juiz deu falta fora da área.

Ficou o gostinho de quase, mas a torcida do Santos comemorou muito o empate no finalzinho do jogo. Os jogadores corintianos saíram cabisbaixos. Um deles em especial: Ángel Romero.

Um repórter da Bandnews FM conseguiu a atenção do paraguaio e lhe perguntou: “Romero, o que aconteceu naquela hora no banco de reservas alí?”. O jogador respondeu: “o cara me deu uma porrada, mas tá tudo bem. Faz parte do jogo. Olha como estão comemorando. Time pequeno”. Alguns minutos depois o zagueiro santista David Braz foi informado das palavras do paraguaio e revidou: “só lembrar a ele que o Santos nunca caiu”. Parecia que a polêmica havia morrido alí. Parecia.

No dia seguinte – e no resto da semana – a declaração de Romero foi o assunto mais comentado nos programas e periódicos esportivos. No Globo Esporte, Casagrande disse que o Corinthians deveria imprimir a história do Santos e dar na mão de Romero para ele ler. Nos programas esportivos televisivos da Band – Jogo Aberto e Donos da Bola – esse foi de longe o assunto mais discutido.

Os participantes do programa esportivo de rádio Estádio 97 foram além da discussão. Uniram-se em um discurso de ódio contra Romero, Paraguai e Seleção Paraguaia. Disseram que Romero “é um idiota que não tem dimensão do que é grandeza, pois veio de um país que é uma aldeia indígena cuja economia funciona à base de tráfico de drogas e contrabando”. Sobre a Seleção Paraguaia, disseram que só se recordam da “Larissa Riquelme, uma tetuda que ficava pulando com o celular preso nos peitos”. O trecho do programa em que os participantes falam tais absurdos pode ser ouvido aqui.

Romero, então, chamou a mídia na terça-feira para fazer um “esclarecimento”. Vale lembrar, de início, que Romero não falava com a imprensa brasileira há mais de 1 ano. Você pode assistir à íntegra da coletiva clicando aqui.

Durante os três primeiros minutos de sua fala, Romero esclareceu o cenário em que estava quando disse o que disse após o jogo. Estava irritado pelo fato de seu time ter sofrido o empate no final da partida e assistia aos jogadores do Santos, próximos da torcida, comemorando efusivamente o empate. Negou estar chamando a “instituição do Santos” de pequena – mencionando Pelé, Robinho e Neymar como exemplos de grandes jogadores que passaram pelo Time da Vila. Quis dizer, isto sim, que comemorar um empate jogando “em casa” era coisa de time pequeno.

A partir de então, Romero colocou um ponto final no assunto e, aproveitando a reunião de jornalistas de importantes portais à sua frente, começou a falar sobre o que realmente lhe importava.

Romero disse que há quatro anos, desde sua chegada ao Corinthians, encara com naturalidade – e com certa boa vontade – as críticas que os jornalistas fazem sobre seu futebol. Falou que gosta de ser criticado, pois busca a melhora nos aspectos futebolísticos que lhe são destacados negativamente.

O que não suporta – e não permitirá que continue – são os comentários que fizeram – e fazem – ao longo desses 4 anos relacionados à sua nacionalidade.

O jogador disse que aguardou dois dias após o domingo para chamar a coletiva com os jornalistas para ver o que os jornais e programas televisivos falariam sobre sua polêmica manifestação. Nada de novo no fronte: novamente teve que ouvir comentários, piadas e críticas ao seu país sem relação alguma com sua pessoa, com seu comentário pós-jogo ou com o Santos.

Romero pediu aos jornalistas para terem mais respeito por todos os jogadores estrangeiros que vêm atuar no Brasil. Tocou em assunto delicado ao dizer que é terminantemente contra o racismo que o jogador brasileiro sofre fora de seu território, e que por isso não aceitará que os jornalistas brasileiros destratem os estrangeiros que vêm jogar bola aqui.

Citou o caso de Edmundo, hoje comentarista da Fox Sports, sem mencionar seu nome. O Animal, no sábado passado (03/03), criticou o atacante argentino Andrés Rios, do Vasco da Gama, e advogou pela contratação do atacante Kazim, do Corinthians, dizendo que o argentino era muito ruim e que, por isso, “parece paraguaio”. Romero perguntou aos jornalistas o que o Paraguai teria feito a Edmundo para que ele falasse de seu país de forma pejorativa. Disse que estava assistindo à televisão com sua esposa e se sentiu insultado.

Edmundo, inclusive, respondeu a Romero no dia 07/03 (quarta-feira). Disse que é uma brincadeira comum no Brasil chamar alguém de “paraguaio” (no sentido pejorativo) quando esse alguém remete a algo “falso”. A brincadeira, de acordo com o comentarista, é tão despretensiosa quanto chamar “o pessoal lá do norte de paraíba (no Rio de Janeiro) ou de baiano (em São Paulo)”; não se trata de preconceito, de acordo com o Animal, e sim de uma “expressão” (que, de acordo com Edmundo, não tem carga social ou histórica alguma). Para fechar sua resposta, Edmundo disse especificamente para Romero o seguinte: “ao invés de os brasileiros se adaptarem a você, você é que está no nosso País, você que tem que entender nossa linguagem e nossa língua, porque está há 4 anos aqui… já está mais do que na hora de falar um bom português”.

Tanto Romero quanto Balbuena (também jogador do Corinthians e paraguaio) disseram que os chateia o teor das “brincadeiras” sobre sua nação. Edmundo, basicamente, mandou ambos (e todos os demais estrangeiros) se acostumarem com o que o brasileiro tiver vontade de falar, pois estão em nosso território. Mais uma reação injusta e xenófoba da imprensa brasileira ao jogador estrangeiro, ignorando o fato de que quem diz o que é e o que não é ofensivo é o destinatário da mensagem, e não seu emissor.

tempos Romero queria falar sobre esse assunto. Falou que foi por causa dos comentários maldosos e pejorativos sobre o Paraguai e sobre a Seleção Paraguaia que ficou um ano sem falar com a imprensa brasileira, e que decidiu reunir os periodistas agora porque com sua volta à pauta dos programas televisivos e dos jornais (em decorrência de sua manifestação polêmica após o jogo contra o Santos) voltaram, também, os comentários maldosos sobre seu país e sobre sua seleção.

Encerrou a coletiva – toda em espanhol, embora entenda e fale razoavelmente bem português – dizendo que é justamente pelo que passa há 4 anos que se identifica tanto com o clube pelo qual atua. O Corinthians é um time que traz muita antipatia de rivais locais e de outros estados pelos mais variados motivos. De acordo com o atleta, o clube luta “contra tudo e contra todos”,  e ele, desde que chegou ao Brasil, luta “contra tudo e contra todos”. A diferença é que o Corinthians tem uma enorme “militância” para rebater as críticas que sofre. Romero, um dos poucos paraguaios atuando no futebol nacional, ouve desmerecimentos ao seu país sem motivo algum e com quase nenhum poder de reação.

Ontem (08/03), o atleta, falando para a rádio paraguaia ABC Cardinal, lembrou de quando Felipe Melo, em abril de 2017, referiu-se ao Corinthians como time pequeno. Protestou pelo fato de a mídia, à época, não ter se manifestado como se manifestou sobre ele; disse que nada aconteceu porque Felipe Melo é brasileiro. Muitos estão dizendo que não tem nada a ver. Tem tudo a ver, na verdade. A prova cabal disso foi a manifestação do pessoal do Estádio 97, que reagiu ao comentário de Romero xingando o país onde o atleta nasceu e sua seleção, mostrando que a indignação da imprensa é sim seletiva e é sim xenófoba.

O corintiano escancarou que está, há muito tempo, chateado com isso. É jogador gravado pelas câmeras brincando com seus colegas nos treinos da Seleção Paraguaia, mas taciturno e cabisbaixo quando sai de campo nos jogos do Corinthians (justamente no momento em que passa pelos repórteres).

O atleta é mais um paraguaio que, ao lado de seus conterrâneos e de haitianos, bolivianos, peruanos e outros indivíduos de países irmãos sofrem com a xenofobia no Brasil diariamente.

O brasileiro não pode fechar os olhos para situações absurdas que ocorrem recorrentemente com seus compatriotas no estrangeiro. Semanalmente, torcedores espanhóis, italianos, russos, ingleses, alemães e de outras nacionalidades entoam cânticos racistas contra jogadores brasileiros, lhes arremessam bananas e fazem som de macaco quando tocam na bola.

E o preconceito não atinge só o jogador negro que vai jogar bola lá fora. O brasileiro branco muitas vezes não está livre das ofensas gratuitas. Além do mais, ele é latino, encarado muitas vezes como uma subespécie em território europeu e norte-americano.

Daí o brasileiro, ciente disso, vai lá e trata como subespécie seus irmãos de terra.

Romero sabe que esse cenário não vai mudar espontaneamente; sabe muito bem que as pessoas não vão, uma por uma, debruçar-se sobre a questão e refletir sobre seus atos. A prova cabal disso foi a reação repugnante dos participantes do Estádio 97. Romero, na verdade, chamou a mídia para dar um aviso: respeitem os estrangeiros, porque se não o fizerem, não respeitaremos vocês também.

Tamo junto, Romero.

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