Crise no São Paulo é mais complexa do que parece

Diante de mais uma eliminação, e agora na segunda fase pré-grupos da Libertadores, vexame que igual no futebol brasileiro só o Corinthians tinha passado ao ser desqualificado pelo Tolima da Colômbia em 2011 (em 2018 a Chapecoense foi desclassificada pelo tradicionalíssimo Nacional do Uruguai, o que obviamente não configura em nenhuma humilhação), novamente há uma caça às bruxas pelos lados do Morumbi. Pede-se a cabeça do técnico Jardine, e há motivos para pedi-la; exige-se a saída do diretor-executivo do futebol e também eterno ídolo do clube, o ex-jogador Raí, e há boas razões para exigi-la; vociferam contra o presidente do clube, o Leco, e há excelentes razões para fazê-lo. Só que nada disso é suficiente. Mesmo que as demissões sejam perpetradas e o mandatário máximo renuncie, o que é razoável, o problema não deverá ser sanado, pois muito mais complexo do que apenas a troca pode sugerir.

Desde 2008 quando o São Paulo foi campeão brasileiro pela última vez, enfileirando um tricampeonato em sequência, o que é raríssimo no competitivíssimo futebol nacional, e num ciclo glorioso que começou com o título de uma Libertadores e um Mundialito da FIFA em 2005, muita coisa se passou e muito se desandou na estrutura do São Paulo Futebol Clube. É tolo imaginar que as mazelas, derrotas e opróbrios que agora se avolumam no histórico recente do Tricolor paulista tenham um único culpado ou uma única razão de existir.

Vejamos alguns números: de 2008 pra cá, o São Paulo trocou de treinador incríveis dezesseis vezes. Sem contar os que assumiram de forma interina. Em 2015, o São Paulo teve cinco diferentes técnicos no seu banco de reservas. Em 2016, foram quatro. E a média tem sido de pelo menos três de lá para cá. No segundo mês de 2019 o clube paulistano já deve trocar de treinador novamente.

No mesmo período o São Paulo ganhou apenas um título, o da Sulamericana de 2012. Amarga neste período uma série de eliminações para pequenos e médios clubes e derrotas marcantes – como o 6 a 1 para o Corinthians em 2015, placar mais elástico da história do confronto. O número de eliminações em mata-mata impressiona se contabilizarmos os últimos doze anos: são trinta e cinco eliminações em mata-mata com apenas duas finais – a Sulamericana já supracitada e a Recopa que lhe foi garantida a participação com a vitória no certame continental de 2012. Nessas tantas derrotas pelas mais diversas competições, Campeonato Paulista, Copa do Brasil, Sulamericana e Libertadores, há situações humilhantes que o São Paulo de outrora não passava: foi eliminado por times como Osasco Audax (sendo goleado por 4 a 1), Penapolense, Juventude (que se encontrava na terceira divisão), Bragantino, Ponte Preta, Colón e agora Talleres.

É um histórico muito vasto de fracassos para que a mera troca de nomes, ainda que necessária, venha a mitigar toda a ruína deixada na última década. O futebol do São Paulo, todo ele, parece comandado por amadores ou pessoas que não têm o devido tato com a gestão de um clube tão grande e em que há tanta cobrança. Perdeu-se em algum lugar a famosa blindagem que os cartolas são-paulinos conseguiam levar a cabo em relação ao elenco, dando tranquilidade para trabalharem – algo que hoje se vê muito bem no rival Corinthians, o clube do futebol brasileiro que mais ganhou nos últimos dez anos.

Mesmo a questão diretiva, que o clube tanto se orgulhava de ser mais organizada e pacífica que seus rivais da capital, sempre envolvidos em escândalos e picuinhas, hoje é um grave problema e não está livre da desordem. Desde que Juvenal Juvêncio mudou o estatuto do clube para permitir seu terceiro mandato em 2011, a coisa desandou imensamente e de lá para cá o fundo do poço sempre parece um pouco mais fundo. Até briga e denúncia de corrupção se viu sob a gestão desastrosa de Carlos Miguel Aidar. Daí que se conclui que o Leco é apenas a consequência disso. Ele é parte decorrente do desastre. E do desastre contínuo de uma direção que tenta ano após ano buscar em ídolos a blindagem que ela, incompetente e incapaz, não mais consegue dar ao seu elenco de jogadores – que também é reforçado de forma problemática, sem uma lógica e uma direção claras, somando-se com os irresponsáveis desmanches ao decorrer das temporadas que não permitem qualquer continuidade no trabalho. E quando estes ídolos alçados à posição de salvadores da pátria não conseguem os resultados esperados, sem delongas são jogados aos leões para serem devorados.

É óbvio que uma coisa assim não tem como dar certo, se torna apenas uma máquina de moer pessoas, treinadores, jogadores e ídolos. E enquanto assim permanecer, e pouco indica que vai haver mudanças estruturais, a tendência é mais eliminações, derrotas e vexames. Pior para o torcedor são-paulino que, como bem disse o jornalista Arnaldo Ribeiro, tem sido feito constantemente de palhaço por sucessivos fracassos que só fazem rir os torcedores adversários.

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