JONES MANOEL: Identitarismo e a crítica marxista das opressões

Eu entendo o incômodo que o vídeo mais recente do meu canal causou em certas pessoas e organizações.

É muito fácil taxar tudo de pós-moderno e não encarar os problemas de frente. Identidade existe, é historicamente constituída, transpassa as configurações de classe, e a identidade universal, uma representação idealizada da classe dominante, também incide nas organizações de esquerda.

Essa identidade dominante é branca, heterossexual, masculina e com ares aristocráticos. No meu vídeo sobre representatividade eu coloco que defendo sim representatividade, mas não nas estruturas do capital e do poder burguês e sim nas organizações, espaços de resistência e luta.

Se a maioria da nossa classe trabalhadora, que não é uma abstração no espaço-tempo, é feminina e negra, as organizações da classe devem, em sua composição social, espaços de direção e formação de figuras públicas/intelectuais, representar sim essa configuração histórico-concreta da classe.

Claro que isso é processual, bem pensado, e não como simples representatividade vazia, uma espécie de obrigação formal.

A moral da história é que para alguns “marxistas” a crítica ao “identitarismo” serve para manter o local privilegiado de direção/formulação teórica para o mesmo perfil de sempre. É uma espécie de corporativismo pequeno-burguês.

Ainda tem o elemento da preguiça, é claro. É mais fácil dizer que tudo é pós-modernismo ou identitarismo do que formular uma teoria marxista da identidade e da luta pelo reconhecimento com qualidade, consistência e bem melhor que os pós-estruturalista.

O vídeo em questão: https://www.youtube.com/watch?v=tTqYPuZnwbs

1 Comentário

  • Existe um problema sério na esquerda, que é tratar Marx como se ele representasse o suprassumo do comunismo. A esquerda nunca vai querer admitir isso, mas ele nem sequer era socialista. Era um sujeito que era casado com uma mulher da aristocracia, que durante a vida inteira teve empregada doméstica morando na sua casa, e que era filiado ao SPD, um partido alemão que ainda existe até hoje, e que ninguém minimamente sério vai dizer que é socialista. O Marx fingia ser contra os lassaleanos, mas na prática se uniu a eles. O Engels era amigo pessoal do Karl Kautsky, mesmo na época em que o Kautsky já era obviamente revisionista.

    Quanto ao tema do identitarismo, acho que é uma coisa que atrapalha demais. Socialismo significa a luta contra a exploração econômica, e não a luta por igualdade absoluta. Podem parecer 2 conceitos semelhantes, mas na verdade são muito diferentes. Não existe nenhum problema num exército apenas com soldados homens, ou, por exemplo, num governo em que a maioria dos ministros sejam velhos, com mais de 60 anos. Mesmo se os jovens formarem mais de 50% da população, isso não significa que os cargos de autoridade devam seguir a mesma proporção.

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