A crueldade humana feita de amavios no capitalismo democrático

Nessa época de celebração pela ideia de ressurreição de Jesus Cristo, certa humanidade abstrata domina corações e mentes daqueles que acham que o Covid-19 apareceu como castigo para um ser humano cruel e destruidor da natureza. Espécie de aviso do iminente juízo final por conta da suposta arrogância da razão e da ciência.

Fenômenos como a atual pandemia tornam-se, assim, motivo para a proliferação, consolidação e legitimação de ações que se confundem perigosamente e evitam a objetividade dos problemas estruturais.

Refiro-me tanto às ações bem-vindas em épocas de crise como também as suspeitas, tais como as de voluntariado, benemerência, filantropia, igrejas pentecostais, esoterismos, orientalismos ascéticos e o despudor derramado contra a laicidade do estado.

Correntes diversas convergem para a mesma ideologia, aquela que enxerga o ser humano de forma etérea, sem história, um ser imutável num presente perpétuo, feito por obra de algum demiurgo onipotente e onipresente – ser humano descolado do chão da economia política e de seus conflitos e contradições.

Uma espécie de positivismo vem se renovando desde o século XIX de maneira mais chula e imbecil (porque se pretende não ideológico), na medida em que as sociedades vão ficando mais complexas com a expansão do capitalismo que muitos chamam de globalização.

Essa expansão, entretanto, tem história – e esta nunca foi separada da natureza, como bem mostra Marx e Engels na Ideologia Alemã.  Nessa obra (1845-1846), eles derrubam a metafísica abstrata para se compreender o ser humano como ser social, dizendo que sempre se esteve diante de uma “natureza histórica” e de uma “história natural”.

O ser humano faz parte da natureza como uma das várias espécies de animais. Porém, diferentemente de todas as espécies, desenvolveu sua forma de ser através da divisão social do trabalho num constante e complexo metabolismo com a natureza. Nesse metabolismo, este ser constrói, reconstrói, prevê e cria alternativas para o futuro (mesmo que malogradas e com consequências não previstas), diferentemente de qualquer outra espécie.

Se abelhas e formigas também vivem algum tipo de divisão do trabalho, a ciência ainda não comprovou qualquer semelhança com o ser humano. Isso, no tocante à capacidade deste último de prefigurar e planejar futuros, primeiro em sua mente, para depois criar ferramentas a fim de realizá-los de maneiras cada vez mais diferenciadas.

Enquanto formigas e abelhas são espécies em si, o ser humano é em si uma espécie – mas, além disso, pode ser “para si” e “para o mundo” (mais do que espécie em si animal apenas) por sua capacidade cada vez mais complexa de criar ferramentas novas.

A vida dos seres humanos foi se desenvolvendo com a divisão social do trabalho dentro desse metabolismo com a natureza. O ser humano afastou-se de sua barreira natural através, repito, de mil maneiras diferenciadas.

Isto se deu e se dá através da expansão territorial em busca de mercados, novas tecnologias e complexidades cada vez maiores das formações sociais. É uma trajetória marcada por contradições e conflitos em decorrência, reitere-se, da divisão social do trabalho. Divisão entre classes e grupos em seus países e regiões e divisão entre países.

Ora, esse processo não ocorre de forma linear percorrendo um fio condutor previsível e seguro com uma origem pré-definida e um destino final também pré-estabelecido.

É caracterizado antes por acasos, lutas de classes, colonialismos, guerras, bomba atômica, arsenal nuclear, Hiroshima, Nagasaki, Vietnã, Torres Gêmeas, escravidão, genocídios de comunidades indígenas e destruição da natureza sem formas de remediação.

Essas ocorrências, que Jesus Cristo, seja em metáfora, santinhos ou imagens, jamais vai dar conta, incluem fome, miséria, produção industrial corruptora de formações genéticas, fabricação de doenças e uma série de escombros que enfartariam qualquer anjo da história antes que ele tivesse tempo de esbugalhar os olhos e controlar suas asas esvoaçadas pelo vendaval do progresso. A interpretação de Walter Benjamin sobre o quadro “Angelus Novus”, de Paul Klee, parece se reatualizar a cada passo do ser humano de sua chamada “evolução”.

Evidente que tudo isso não acontece porque o animal humano seja cruel por natureza. Tem-se notícia de que abelhas e formigas possam ter produzido em “sua história” tamanha sucessão de desastres? Uma resposta provável e, obviamente, negativa conferiria, comparativamente, um caráter de crueldade à natureza humana? Também evidente que não!

Se em passado remoto os seres humanos jogavam outros seres humanos aos leões e agora já não cultivam mais essa prática (embora ainda transforme outros seres humanos em escravos), seria por que o “ser humano” se aprimorou moralmente e ficou menos cruel? Também não parece afirmativa a resposta.

Para os que pensam em Jesus Cristo numa reflexão e celebração desvinculadas do chão da economia política, o mito bíblico da maçã mordida por Adão e Eva sugeriria alguma metáfora dialética das contradições por conta da ambivalência do ser humano – a de ser versado no bem e no mal? Que se acalente o mito quem quiser, mas crueldade humana não é fruto de nenhuma dialética abstrata, fora da história e do chão concreto da realidade.

Animais não são cruéis, pois agem “naturalmente” – vale dizer, porque não se afastaram de sua barreira natural, diferentemente dos seres humanos. Não cabe o termo crueldade para os animais em geral. Daí que, a meu ver, xingar um ser humano de “animal” é ofender, sem dúvida, todas as outras espécies.

O cerne da questão pode ser então esse: quanto mais razão, ciência, tecnologia e acumulação de riqueza material, quanto maior a divisão social do trabalho, o ser humano foi ficando mais cruel tanto com seus semelhantes como com a natureza e – simultaneamente – lutando cada vez mais para não ser ou ser menos cruel.

O nome dessa contradição é lutas de classes, no plural – e não “crueldade”, enfim, de um ser humano abstrato. E não crueldade que será neutralizada por algum messias. Não se precisa de epifanias místicas ou religiosas para compreender isso, mas sim usar a história como método.

E essa crueldade se esconde tanto na valorização do valor de um hamburger do restaurante badalado de propriedade de um fascista ou um empresário reacionário, indiferente à morte de pessoas pelo Covid-19, desde que as pessoas possam ir para as ruas e entrar no seu estabelecimento – como também nas práticas sórdidas de muitos pastores corruptos, ditos evangélicos. Práticas dos que exploram a crença de pessoas humildes para lhes subtrair dinheiro na maior caradura. Seria possível crueldades maiores do que essas junto com o desemprego, a fome, a miséria, o estupro e a tortura física e psicológica de seres humanos?

Diria que hoje a sociedade capitalista (que já foi chamada de “sociedade do espetáculo” e que eu chamaria de sociedade dos escombros) é muito mais cruel que as sociedades de outros tempos em que seres humanos eram jogados aos leões.

Na sociedade contemporânea, chancela-se a crueldade da mentira na abstração tornada universal e natural que valeria para todos os tempos. É a crueldade da legitimação desses descalabros para que eles possam acontecer como normais.

Trata-se do binômio igualdade-liberdade das revoluções burguesas europeia e estadunidense dos séculos XVII e XVIII para legitimar a democracia de araque do estado contemporâneo.

Crueldade para camuflar, de forma abstrata, seu caráter de expressão política e jurídica do Capital. Um estado pretensa e mentirosamente “civilizatório”, isento e falsamente representante de todos. Um estado, na verdade privatizado, para permitir a exploração legalizada de muitos em favor de poucos.

Trocando em miúdos: liberdade para vender e comprar a força de trabalho de seres humanos numa situação hipócrita de abstrata paridade jurídica – paridade essa legitimada pela falsa igualdade entre os atores na divisão social do trabalho. Só o estado do tipo ocidental capitalista pode garantir e positivar essa mentira.

Tão cruel essa sociedade quanto sutil e, ao mesmo tempo, ostensiva e conflituosa por suas ferramentas e instituições desenhadas com os amavios dos protocolos constitucionais e democráticos. E costuradas com os veludos hipócritas da civilização ocidental moderna, hoje em sua indumentária contemporânea cada vez mais rasgada por contradições e incertezas.

Os seres humanos deixaram de jogar outros seres humanos aos leões não porque se tornaram melhores moralmente. Mas, sim porque exigências de ordem religiosa e política precisavam legitimar divisões de poderes à maneira “civilizada” e aceitável. Ao cabo de dois mil anos de história, o casamento entre cristianismo e capitalismo caiu como uma luva para as legitimações hipócritas dos últimos dois séculos.

Escrevendo na Sexta-Feira da Paixão, encerro com uma frase de Reinhart Koselleck : “A morte e o amor são as únicas contrainstâncias capazes de evitar que o progresso desemboque num estado racialmente legitimado de duas classes, no qual a classe dominante consiste em ideólogos conscientes de sua escrita e a outra classe é sepultada no nada do esquecimento espiritual.” (Estratos do Tempo: Estudos sobre História, Rio de Janeiro: Contraponto, PUC-Rio, 2014, p. 137).

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