JONES MANOEL: O “debate” sobre apropriação cultural

Olha só, antes de tudo, esse “debate” sobre apropriação cultural é típico das camadas médias e segmentos universitários. Os processos de resistência e preservação da cultura e modos de vida nas favelas, terreiros, quilombos, etc., acontecem desde sempre sem nunca precisar usar esses termos [IMPRECISOS] da moda. A despeito da sua ou da minha opinião enquanto estamos em casa milhares de expressões de resistência cultural – mesmo que seus atores não saibam que o que fazem é resistência – vão acontecer (a quantidade e a qualidade de textões na internet não mudará isso).

Dito isso, vamos ao menos importante. Na dinâmica capitalista a burguesia detém os meios de produção materiais, culturais e simbólicos. A música, a moda, o cinema, as artes etc. são negócios capitalistas que atendem ao interesse da produção de mais-valor e a reprodução da dominação política e ideológica de classe (dominação essa que é organicamente atrelada as opressões como parte indissociável do sistema de dominação burguês); isso significa que a “indústria cultural”, essa grande fábrica de forjar subjetividades, vai criar padrões dominantes que vão ser racistas, machistas, LGBTfóbicos, excludentes, elitistas, cosmopolitas (antinação), colonialistas etc.

Quando uma manifestação cultural popular – como o samba ou rap – é engolido pela “indústria cultural” ele sofre uma espécie de higienização: são retirados todos seus elementos de revolta, contestação e os signos mais evidentes da sua criação como produto da resistência popular. Acontece o mesmo com a moda; com o teatro; as artes. A “indústria cultural” capitalista é tão eficiente que ela cria, inclusive, ninhos “críticos” de consumo de massa onde os consumidores podem sentir-se underground consumindo uma mercadoria exclusivista – ao exemplo dos cinemas com filmes cult’s.

Mercantilização e descaracterização da cultura popular existe e está diretamente relacionada com a propriedade privada dos meios de produção materiais, culturais e simbólicos. Lógico que não é e nunca será algo de dimensão individual, porém, nossa subjetividade é profundamente liberal, afinal, somos socializados nas relações sociais burguesas, e mesmo compreendendo essa “explicação estrutural” (termo ruim) é difícil não manifestar reações de repulsa a indivíduos brancos que conseguem pagar de fãs do rap ou usar dreds e não sofrer racismo que os negros sofrem, por exemplo. Eu quando vejo um playboy pagando de a reencarnação de Tupac também fico puto; o bizarro da história é querer justificar teoricamente essa reação individual e emocional.

Por fim, e talvez o mais importante, o papel das esquerdas na resistência à mercantilização e domesticação das expressões da cultura popular é ajudar a construir espaços culturais de resistência que propiciem disputar com a “indústria cultural”. Fortalecer batalhas de rap, rodas de coco, saraus de poesia, festivais de cultura popular, blocos tradicionais no carnaval; realizar projetos sobre história da cultura popular nas escolas, associação de moradores, sindicatos, promover companhias de teatros populares, filmes e documentários fora dos circuitos comerciais etc., etc., etc., Se toda energia gasta em “fiscalizar” como as camadas médias vêm usando turbantes, dread ou “roupas africanas” (sei nem o que é isso) fosse usado para construir militância na área da cultura [ e estudar de verdade a questão] estaríamos numa situação bem melhor.

apropriação cultural jones manoel alessandra negrini fantasia de índio

2 Comentários

Deixe uma resposta