Democracia em vertigem – uma análise crítica

O documentário da Petra Costa é muito bom. Portanto, Democracia em vertigem deve ser visto com os olhos límpidos. Caso contrário, a vertigem que no roteiro do filme burla a democracia, passa a tontear seu entendimento dos fatos e te transformará em par oposto da mesma cegueira moral que levou a cabo um impeachment tão descabido quanto foi o de Dilma. Em outras palavras, inspirado na metáfora poética de Camões, o amor é um fogo que arde sem se ver e é ferida que dói mas não se sente, ou seja quando se está apaixonado por algo, tende-se a aceitar tudo sem compreender o peso, a dor e as sequelas desse tudo. Uma democracia para ser plena exige mais racionalidade do que paixão.

Democracia em vertigem é rico em fotografia e cenas inéditas do impeachment, mostrando os bastidores do congresso e da rotina de Dilma durante boa parte do processo. Também é eficaz ao estabelecer diálogo, embora simplificado, dos interesses contínuos da elite política do passado com a do presente. A narrativa é bastante didática, embora a narração seja feita por uma voz que parece ter prolongado a preguiça das primeiras horas de domingo para a vida toda.

Em resumo, o filme documentário gira em torno de uma menina que cresceu em um ambiente familiar de vertente política progressista, mas que teve sua ânsia democrática suprimida pela ditadura. Todavia, quando a menina se torna adulta, a ditadura já acabou e ela pode viver o que ela mesmo chama de sonho democrático, petrificado com a vitória do Lula. Entretanto, ao mesmo tempo que o pleito de Lula representaria para ela a plenitude do exercício democrático, a narradora alerta que essa vitória, conquistada após três derrotas em eleições anteriores, só foi possível após um alinhamento do discurso lulista com os grandes interesses do mercado. Com a confiança da elite econômica, mas sem maioria política, o documentário alerta que o PT começa um esquema de corrupção para garantir governabilidade. Essa receita de poder passou a ser a tônica do partido que emplacou vitórias sequentes em eleições. No entanto, com a baixa no preço das commodities, a crise econômica chega no Brasil e o dinheiro que antes dava para banqueiros, projetos sociais e corrupção começa a ficar pequeno a popularidade do partido encolhe junto. É nesse ponto que o documentário exige uma análise mais clara.

Fica evidente no documentário que a democracia do PT foi sustentada por três segmentos sociais. Os banqueiros e rentistas, que tiveram lucros exorbitantes durante o governo petista e ocuparam as principais cadeiras de organização econômica do governo; a elite política protegida pelos grandes empresários e que garantiam apoio eleitoral com a prática da corrupção e por fim o povo, beneficiado com as sobras dessa divisão por meio dos projetos sociais que lhes garantia um mínimo de dignidade ao mesmo tempo que asseguravam o voto. Todos esses três segmentos dependeram do preço das commodities que na onda da procura chinesa garantiram a satisfação de todos. Quando o cofre esvazia e o barco começa a afundar, os dois segmentos mais fortes e organizados, banqueiros e elite política, arquitetam o golpe e pulam no bote, salvando-se de um governo que afundou. Assim, a crítica que está implícita no documentário deve levar em conta dois aspectos. Primeiro que a democracia do PT teve um projeto de poder, mas não teve um projeto de Brasil. Não desenvolveu um projeto de construção de riqueza nacional e ficou refém da disponibilidade do mercado externo. Manteve a tradicional rotina econômica de exportador de matéria-prima e apostou em um superávit que historicamente não se mantém por mais de uma década. Segundo que ao se sujeitar a fazer conchavos políticos para vencer as eleições, abriu mão de toda história política para se igualar a partidos conhecidos por ter o fisiologismo e o aparelhamento do Estado como alma partidária. É nesses dois aspectos que se espera uma autocrítica do Partido dos Trabalhadores. Enquanto eles esconderem que o fracasso político e econômico é fruto desses dois erros cometidos durante sua gestão, não adianta reclamar de golpe, tampouco gritar Lula livre. Serão oradores da própria bolha que está murchando dia após dia.

As articulações políticas do partido para as eleições de 2018, buscando alianças com os próprios protagonistas do golpe, mostraram que o PT até o momento entende que deve reprisar a mesma receita que fez crescer um bolo estragado. Quer passar pela tempestade sem prestar contas de seus erros. Com isso fortalece o lado oposto, que quando pulou no bote foi socorrido pela extrema direita que foi lida como a salvadora. O documentário está se popularizando muito rápido e ele expôs essa ferida, ainda que seja ofuscada pela factual retórica do golpe. Basta saber agora como essa vertigem democrática será tratada, com uma declaração de mea-culpa que pode clarear o entendimento das coisas e ser um marco democrático ou tentando sem sucesso tirar aos berros de golpe a vertigem do lado de lá para trazê-la para o lado de cá.

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