O derrotismo na história: uma resposta a Christian Lynch

O texto do professor Christian Lynch, “Entre Domingos Jorge Velho e João Figueiredo: a luta entre os conservadorismos no governo Bolsonaro“, merece atenção e deve ser lido. Ousado, o autor apresenta uma dicotomia não antes observada no seio do campo conservador, como o “estatismo versus culturalismo conservador”. Essa demarcação teórica cria um desenho de continuidade do passado brasileiro, procurando esclarecer qual seria a estratégia olavista para “não repetir o passado” e manter sua “marcha cultural”. Assume a perspectiva da história brasileira como tragédia, dividida num lastro temporal de mais de 4 séculos entre o sanguinário Domingos Jorge Velho e João Figueiredo.

A tentativa, como disse acima, é ousada. Simplesmente por isso merece a atenção. Porém, há um sintoma, compartilhado entre intelectuais e acadêmicos, em enxergar o passado histórico brasileiro como uma mera tragédia derrotista. Para caber no leito de procusto da derrota e da negação da nacionalidade, vale tudo, inclusive dizer que o bandeirantismo tem em sua síntese espiritual Domingos Jorge Velho.

Vale também incompreender o Bandeirantismo, uma vez que faz parte do nosso “passado branco e sangrento”. Esquece-se da miscigenação, das dificuldades enfrentadas no processo de povoamento, trata-se de silenciar uma das maiores expedições políticas e culturais já vistas pela humanidade, tudo em nome do enquadramento unilateral da caixa identitária tão em voga no campo progressista. Vale se esquecer do passado de “cristão novo” de um Raposo Tavares. Vale cometer um julgamento de oposição unilateral entre o bandeirismo e Marquês de Pombal, como se a construção da América Portuguesa também não fosse obra das contradições do espaço, mas somente uma -também modelar e maniqueísta- perspectiva de centralização versus descentralização/anarquia. Há também dúvidas quanto a oposição de Pombal aos bandeirantes. Na literatura historiográfica do período, Pombal mais se opôs aos jesuítas que necessariamente aos bandeirantes. Nesse sentido, o centralismo surge como complemento da expedição.

O autor aqui ainda reproduz a legenda negra fecundada a torto e direito nas correntes franciscanas. Expande a mitologia e evita as belas e ricas contradições do período. Não há entremeio. Alexandre de Gusmão – um paulista ilustrado que, com perspicácia diplomática, desenhou o Tratado de Madrid em 1750 e garantiu um novo delineamento geográfico para a Ilha Brasil–  é um mero “membro da elite”, “branco” e “componente do universo hétero” que é o atual Estado nacional brasileiro. Para se opor aos intelectuais e dirigentes formadores do que vai vir a ser o Brasil, vale o silenciamento e a oposição de sinal invertido, raso e derrotista.

O autor parece não compreender também algumas raízes da teoria olavista:  o sentimento vira-latas – também compartilhado estranhamente por parte das esquerdas – sobre nosso passado. Para Olavo de Carvalho, nem os militares de 1964 prestam, pois eliminaram figuras como Carlos Lacerda do ambiente político. E, na opinião do seu condottiero prático, o Presidente Jair Bolsonaro, a utopia conservadora é aquela que mais se assemelha ao sentimento patriótico de inspiração norte-americana. Basta ver em sua última reunião, que profetiza o armamento da população para sua auto-defesa. O presidente não tem tesão com os Bandeirantes, esses incorporadores, autófagos culturais, violentos e miscigenados. O Presidente tem tesão com o exterior, apaixonado por Trump e, em alguma medida, excitado com a atuação de Mel Gibson na encenação cinematográfica da Revolução nortista de 1776.

O autor se esquece de mostrar que a ditadura militar tinha pavor de uma palavrinha mágica: o nacionalismo. Em minha tese de doutoramento – ainda em execução – vejo como os materiais de Moral e Cívica mostram que o sentimento nacionalista se identifica com as experiências revolucionárias e libertadoras do Terceiro Mundo. O nacionalismo seria um “excesso” a ser contraposto ao patriotismo, um amor formal e de justa medida pelo Brasil. Este, de pensamento evolucionista, que sobrepõe o elemento português acima negro- mera força de trabalho – e indígena – mero contribuinte espiritual.

A história do Brasil é uma história de desigualdades, também porque grandiosa em tamanho geográfico e diversa. Também porque assincrônica em suas diferentes regiões, mas que, mesmo diante de inúmeras guerras civis, foi capaz de se manter unida. Realizar essa constatação é ser ufanista? Ou é uma constatação da realidade objetiva?

Parece que reivindicar união nacional tornou-se coisa de “fascista”, algo assustador para os tempos que vivemos. União Nacional é uma categoria a ser perseguida, um horizonte de expectativas fundamental, no momento de fratura e esgarçamento do tecido social. Uma filosofia progressista de União Nacional remete à prática de fazer as pazes entre os familiares que votaram no condottiero miliciano e se arrependeram; retoma com sentido positivo a palavra Tolerância, algo também criminalizado e tratado com identificação direta e mecânica com um mito muito mal explicado da “democracia racial”; de fazer as pazes com o “emergente da esquina”, mestiço e pobre que votou no Bolsonaro e carrega a duras penas sua topic de cachorro quente, hoje impossibilitado de trabalhar da mesma maneira por conta da pandemia, mas que, devido aos seus limites, é capaz de ser criativo e começar a fazer entregas online.

O texto publicado criminaliza unilateralmente a experiência do Estado Novo e, mais uma vez, anda de mãos dadas com o olavismo, que “quer enterrar Getúlio Vargas”, visto como “fascista” e “autoritário”. Parece se esquecer da tese de doutoramento de Ângela de Castro Gomes. O Estado Novo foi autoritário, mas também foi o elemento de reorganização e afirmação positiva da experiência cultural da classe trabalhadora, sempre vista com maus olhos devido aos resquícios de baronato ainda existentes na Velha República. Seria, nesse sentido, uma “mera centralização” ou incorporação das reivindicações dos debaixo?

Colocar João Figueiredo como uma derivação da tradição varguista é uma das maiores forçações de barra que assisti nos últimos tempos. Mais uma vez, cabe ressaltar o derrotismo, cabe despotencializar uma história a ser ensinada por meio do entendimento das contradições e da problematização.

Apesar de tudo, mais uma vez deixo aqui minha lembrança de que a tentativa do autor em se utilizar do passado brasileiro para explicar o presente já é, por si só, um esforço muito interessante de politização do nosso processo histórico, algo que deveria ser mais testado e arriscado pelos historiadores acadêmicos.

O derrotismo na história uma resposta a Christian Lynch

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