Desconfie de juristas, cientistas e jornalistas que se dizem técnicos e isentos

A discricionariedade dos atos administrativos de um agente político eleito está para o jurídico e a política assim como está a isenção científica, jurídica e jornalística para a escolha de hipóteses que pretendem espelhar, compreender e justificar os fatos da realidade social. Pode parecer complexo e escandaloso, mas não é: trata-se, em suma, de escolha entre alternativas de avaliação dentro dos limites objetivos da vida concreta.

Longe aqui de defender a ideia de certo pragmatismo inaugurado no fim do século XIX, nos Estados Unidos, segundo o qual a verdade seria aquilo que desejamos acreditar que seja. Mas, por outro lado, não dá para acreditar em isenção de cientistas, juristas e jornalistas. Muito menos de administradores públicos, seja o agente político eleito ou o funcionário concursado.

Desconfie quando, para enfatizar sua isenção, um administrador, um político, um jornalista ou mesmo um cientista diz que analisa determinado fato social do ponto de vista “técnico”. Não existe isso. Claro que nossa vida é feita de técnicas e tecnologias, como maneiras e instrumentos mais adequados para, por exemplo, lavar pratos. No caso de juízes, melhor ele nem usar a palavra técnica para não pegar mal. Não fale nada, julgue apenas e justifique.

Grosso modo imaginando, o subjetivo está dentro de nós e o objetivo, fora. O real está para além do nosso corpo e nossas ideias e opiniões, mas nós, com nossa subjetividade, fazemos parte dessa realidade, interagindo com ela, aceitando-a para nela se adaptar ou transformando-a.

Certas verdades dos conflitos políticos e sociais não se garantem somente pelos substantivos da suposta isenção cognitiva ou descritiva, mas sim também pelos adjetivos de quem a enuncia. Adjetivar é uma forma de se posicionar, dando a cara a tapa para ser questionado. Se os bois podem se confundir, melhor dar logo os seus nomes, mesmo correndo o risco de errar.

Muitas vezes o substantivo não basta. Certos substantivos sem adjetivos ficam incompletos e podem até dificultar a compreensão daquilo que pretendem atribuir. Na escolha ou construção de seus métodos, o cientista social usa de discricionariedade para formular uma e não outra hipótese, baseado, dentre outras coisas, em seleção de fatos.

Duas hipóteses concorrentes e divergentes podem ser “plausíveis” para o mesmo fato – e aqui, evidentemente, tratando-se de vida social, não estou me referindo à composição H2O da água, estrutura molecular idêntica no Brasil e em qualquer outro lugar do mundo.

Como se sabe, mesmo hipóteses falsas contribuíam em passado remoto, de alguma forma, para orientar a ação dos seres humanos, como eram os mapas e cartas náuticas na época de Ptolomeu. A revolução copernicana fez os seres humanos verem outras coisas além do que já imaginavam, mas, antes dela, viviam com as noções que possuíam sobre a realidade. Viviam com suas “verdades”.

Hoje, não são só o desenvolvimento científico e tecnológico implicam a ideia da necessidade de consensos, ilusórios ou não. Os conflitos sociais, econômicos e políticos sinalizam iniciativas objetivas, subjetivas e enganosas de alguma aproximação de consensos, algo que justifique posições convergentes e divergentes. Algo que justifique vivermos juntos sem precisar nos matar uns aos outros. Em ambas as situações – ciência e política – o mundo não tem sido nada pacífico e, certamente, estará longe de ser.

O jurista e o jornalista também têm sua dose de discricionariedade diante dos fatos objetivos. O primeiro, inclusive, pode até, de forma bem articulada e opaca aos leigos, formular o “sim” e o “não” para o mesmo fato, sem abandonar a coerência e a lógica, dependendo dos interesses políticos.

E este “sim” ou “não” será ou não derrubado por outra decisão, mas isso fica para outra fase do encadeamento dos conflitos. Mas que pode, pode, e tanto isso é verdade, pois, caso contrário, não haveria necessidade de recursos, contestações e de instâncias para rever decisões. Juristas não gostam quando falamos do caráter político do direito.

Já certo tipo de jornalismo hegemônico consagrou-se com a chamada “objetividade” como parte das mudanças estruturais na sociedade capitalista, no que diz respeito à burocratização das relações sociais e econômicas apontadas por Max Weber no início do século XX.

No Brasil, a partir de meados do século passado, as exigências de uma verdade jornalística supostamente “isenta” para justificar e legitimar sua própria razão de ser, congruente com a legitimação da nova sociedade, foi uma forma de neutralizar e desautorizar vozes dissonantes, portadoras de possíveis outras verdades.

Foram exigências para conferir um caráter de cientificidade ao trabalho jornalístico já monopolizado por poderosas forças capitalistas. Se antes o Brasil tinha jornais que se posicionavam clara e abertamente, em termos políticos e ideológicos, inclusive, criticando-se, mutuamente, uns divergindo da linha editorial de outros, depois e agora o jornalismo da chamada grande imprensa apresenta-se como o único portador possível da capacidade de mostrar as verdades.

Assim, tiram-se os excessos, as excentricidades, os adjetivos, os posicionamentos partidários e sacraliza-se a neutralidade, fria, substantiva, essa contraditória e falsa dama que transforma bordeis em casas de repouso, delinquentes do dinheiro público em engravatados sisudos, juízes prepotentes e corruptos em julgadores imparciais tidos como salvadores da pátria.

Entretanto, essa crítica não é para demonizar o jornalismo, profissão da qual me orgulho muito. Mesmo porque as coisas vêm mudando e, em meio às contradições dos conflitos na arena do atual ambiente comunicacional, é mais confiável, ainda que criticável, qualquer informação veiculada por um meio legitimado para produzir e divulgar notícias do que as zonas cinzentas, escuras e obtusas das redes sociais.

Pelo menos, sabemos quem está divulgando e com que métodos, apuração e possíveis interesses. Jornalistas mostram a cara, diferentemente dos covardes que espalham “fakenews” no ambiente midiático. Há substantivos impossíveis de serem proferidos sem adjetivos.

Ao colocar no mesmo barco diferentes figuras – juristas, cientistas e jornalistas – estou propondo algo que é intuitivamente comum aos profissionais dessas áreas, vale dizer, a busca da verdade. Esta, muitas vezes, como sabemos, não está apenas no texto, mas também no subtexto da realidade.

A compreensão das entrelinhas dos enunciados tidos como isentos e lógicos, desprovidos de adjetivos, muitas vezes, só é acessível aos especialistas. Como sou daqueles que defende que a democracia não é atributo de especialistas, penso que dar nome aos bois, com possíveis adjetivos, mesmo que questionáveis, tem sido mais do que necessário num mundo em que as imagens vêm vencendo o poder cognitivo das palavras. Mas, evidentemente, com adjetivos que sejam acompanhados de substantivos indicadores de realidade.

O problema é que muitos fatos podem esconder a realidade em vez de explicá-la. A especialização, sacralizada pelos substantivos que se pretendem isentos de cada especialidade, pode escamotear certas verdades. Para finalizar, não posso deixar de lembrar Baudelaire, que já dizia em meados do século XIX, na nascente-escombro sociedade de mercado, que “a especialização excessiva conduz ao nada”.

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