DIA DO ÍNDIO: Diversidade, por Darcy Ribeiro

Voltando àquelas características distintivas dos meus índios, preciso deixar claro que não existe um índio genérico, cuja língua, usos e costumes sejam comuns e coparticipados. Há índios e índios, mais diferentes que semelhantes uns dos outros.

Para avaliar a amplitude dessas variações, basta considerar que ainda hoje eles falam mais de duas centenas de línguas, classificáveis em cerca de duas dezenas de troncos linguísticos, totalmente diferentes uns dos outros. O nosso indo-europeu, de que se esgalham, como línguas, do russo ao inglês e ao português, é um mero tronco, equivalente a um daqueles vinte e tantos que já se registraram entre os índios.

Seus mitos, seus costumes, suas técnicas variam muito menos; mesmo porque passam facilmente, de um povo a outro, tanto a técnica de fazer cerâmica como o mito sobre a origem das cores, por exemplo, que se incorporam à nova cultura, sem que ela perca nada de sua singularidade e genuinidade.

O certo, porém, é que cada um das dezenas de grupos indígenas que conheci — meia dúzia deles profundamente — é totalmente diferente de todos os outros. Cada qual tem alguma coisa de muito singular a ensinar, tanto sobre ele mesmo, para entendê-lo, como sobre a natureza humana, para nos entendermos.

É de assinalar, entretanto, que muito mais do que por suas singularidades linguísticas e culturais, os índios se diferenciam, hoje, principalmente por seus graus de integração à sociedade nacional. Os mais integrados, que se veem envolvidos pela população brasileira, tendo que conviver intensamente com ela, vivem a pobre existência dos camponeses mais pobres, vestindo seus molambos, falando o dialeto regional, rezando aos mesmos santos. São índios, porém, tal como os ciganos são ciganos e os judeus, judeus. O são, apesar de tão aculturados, porque se veem e se definem como índios e porque assim são vistos pela gente com quem convivem.

Os mais isolados que sobrevivem para além das fronteiras da civilização, vestidos de sua nudez emplumada e revestidos de todas as características interiores e exteriores de sua indianidade, vêm o brasileiro, que chega ali com quinhentos anos de atraso, como os primeiros índios viram chegar as naus quinhentistas.

Entre uns e outros há toda uma escala de indianidade. Em qualquer delas, porém, estamos diante de índios, como descendentes da gente que estava aqui antes de Colombo e de Cabral. Gente que, milagrosamente, permanece ela mesma, menos pelo seu modo de ser e de viver, que se alterou enormemente ao longo dos séculos, do que por um sentimento íntimo e indelével de sua própria identidade. Posso falar com saber de experiência própria e vivida de muitas dessas indianidades prístinas ou corrompidas.

A primeira tribo com que trabalhei longamente foi a dos Kadiwéu, remanescentes dos antigos Guaikuru, únicos índios do Brasil que dominaram o cavalo e com ele impuseram sua suserania sobre muitas tribos de uma área extensíssima, que ia desde o pantanal até todo o Sul de Mato Grosso e levava seus ataques ao Rio Grande, à fronteira de São Paulo, a Boa Vista, ao alto rio Paraguai e às imediações de Assunção.

Com os Kadiwéu foi que, de fato, aprendi a ser etnólogo, porque tanto eu os estudava a eles, como eles estudavam a mim e, por meu intermédio, à minha gente. Essa interação fecunda — a mais rica que tive — se viabilizou devido a um episódio eventual. Logo depois de chegar a suas aldeias, os índios, vendo-me com um livro de Guido Boggiani nas mãos, se interessaram, vivissimamente, por suas próprias pinturas e desenhos ali reproduzidos. Como para eles não cabia a informação de que era apenas um livro, comprável numa livraria, eu passei a ser o senhor daqueles vetustos papéis. Acresce que, nas nossas conversas, eles acabaram por recordar-se de Boggiani como um homem que tinha vivido muito tempo entre eles. Tinha até se casado com um homem Kadiwéu e era recordado com alegria.

Pude verificar isso muito bem quando vi a reação emocionadíssima deles à notícia de que, ao sair de suas aldeias, ele havia sido assassinado pelos índios Xamakoko. Desde então, eu não era só o senhor daqueles papéis, com seus desenhos arcaicos: era o novo Bet’rra que voltava a eles. Vale dizer, era quase um membro da tribo, ignorante de tudo, mas com plenos direitos de se assenhorear do seu saber, perguntando sobre o que eu bem quisesse.

Minha etnologia dos Kadiwéu, muito boa, só não foi melhor porque eu era um etnólogo bisonho. De fato, nunca um povo se abriu tanto a mim como eles se abriram. Ainda assim, minha monografia sobre a religião, a mitologia e a arte dos índios Kadiwéu, iluminada por quinhentos desenhos deles, é, a meu juízo, uma das melhores coisas da etnologia brasileira. Dos Kadiwéu guardo como impressão maior a primeira percepção que tive da intensidade de uma identificação étnica tribal. Neles eu vi um povo em si, orgulhoso de ser ele mesmo. Apesar de muito aculturados pelo convívio com a gente brasileira que circunda suas aldeias, e até muito mestiçados com negros e com brancos, permaneciam sempre eles próprios, com uma genuinidade feroz.

Sua mitologia conta que, tendo sido feitos por último, quando o Criador não tinha com que aquinhoá-los, lhes deu, em compensação, sua propensão guerreira para conquistar na guerra contra outros povos tudo o que quisessem ter. É a típica genealogia de um povo guerreiro, saqueador. Um herenvolk, que levou tão a fundo seu papel e sua aristocracia que as suas mulheres deixaram quase totalmente de parir para substituir os filhos próprios por crianças tomadas de outras tribos que eles dominavam.

Outro povo indígena com que convivi foram os Guarani da mesma região, que contrastam de modo flagrante com os Kadiwéu. Em lugar do orgulho tribal, exibiam uma humildade impressionante. Viviam tão maltrapilhos e submissos que levei tempos para começar a ver, debaixo daquela pobreza exibida, a intensa vida espiritual que eles cultivavam. Tendo convertido os mitos da criação em mitos de anunciação do fim do mundo, eles pedem continuamente ao Grande Tigre Azul de Deus-Pai, que voa sobre os céus, que baixe, para acabar com a vida: “Estamos exaustos”, dizem. “A Terra está cansada de comer cadáveres. Ponha um fim.”

Os Guarani são a consciência viva da desgraça que a civilização desencadeou sobre os índios. Liderados por seus pajés, eles estão migrando há mais de um século rumo ao mar, à procura da “Terra Sem Males”. Migram andando de dia e dançando e cantando à noite, na esperança de que seus corpos se tornem tão leves que eles levitem, para entrarem vivos na morada de Deus-Pai.

Com os Bororo, um povo solar, aprendi a ver outra forma de espiritualidade, completamente diferente da dos Guarani. No seu caso, trata-se da religiosidade intensíssima de uma comunidade liderada por sacerdotes, a cujos olhos os vivos e os mortos estão todos presentes. Os mortos formando uma espiral, que da casa central da aldeia se abre pelo céu acima, com a multidão de todos os Bororo que viveram, indo e vindo, para dar e pedir notícias.

Para eles, o que os vivos vêm como caça ou pesca é aquilo que, para os mortos, é planta ou matéria inerte. A morte não tem, nessas circunstâncias, nenhuma importância. Quando uma pessoa sofre, sobretudo se é um homem ou mulher madura, eles simplesmente a ajudam a morrer, dizendo: “Você já dançou muitas vezes. Você já cantou muito. Vá agora, vá. Passe para o outro lado”.

Com os índios da nascente do rio Xingu, no centro do Brasil, eu aprendi demais. Primeiro que tudo, ver aquelas tribos todas, falando línguas diferentes, mas com suas culturas uniformizadas — a mesma forma das casas, os mesmos arranjos de decoro, as mesmas comidas, as mesmas cerimônias, as mesmas danças — performada por gente que, entretanto, guarda a sua identidade própria, orgulhosa dela.

Esses xinguanos estabeleceram uma sorte de Liga das Nações, substituindo a guerra por prélios esportivos. Periodicamente, se juntam os índios das várias tribos na mesma aldeia para realizar grandes cerimoniais, no curso dos quais armam-se competições esportivas de lançamento de dardos ou lanças ou de lutas corpo a corpo, em que põem toda a alma, numa torcida fervorosa. Um dia, ali, quando um jovem de uma tribo pequena e débil — os Iwalapiti — conseguiu vencer o campeão do grupo mais poderoso — os Waurá —, sua mãe correu sobre ele, o fez deitar-se outra vez na terra para colocar seu pé nas costas do rapaz, abrir-se e se exibir a todos, gritando: “Sou a mãe dele! Ele saiu de mim. Eu o pari!”.

Entretanto, o que mais se marcou em mim, do convívio com os xinguanos, foi sua pungente vontade de beleza. Eu a encontrei em todos os grupos indígenas com que convivi. Ali, porém, ela é muito mais veemente. Uma mulher que tece uma rede põe nela muito mais vontade de perfeição, muito mais primor do que seria necessário para que cumpra sua função prática. Cada obra — um cesto, uma flecha ou uma panela de cerâmica — é o retrato vivo de quem a fez, reconhecível por todos. Vi um índio tomar um maço de flechas que eu tinha nas mãos, colhidas de várias aldeias, e dizer-me, uma a uma, de quem era. Vale dizer, quem a fez, reconhecendo tão claramente o estilo do fazedor como nós reconhecemos a caligrafia de uma carta.

Passou-se muito tempo desde aqueles meus verdes anos de convívio com meus índios. Periodicamente me chegam notícias deles, o que me dá a grata certeza de que eles também se lembram de mim. É, por exemplo, o caso de uma fita magnética gravada pelos Kadiwéu, metade em português, para que eu entendesse, a outra metade na sua língua, de que eu já não entendo mais nada. É também o caso de uma gravação em vídeo dos Kaapor, falada na língua deles, de que também não entendo mais nada.

Outro caso foi o recado urgente que me veio dos índios Guarani, comunicando a morte, por assassinato, do seu líder maior: Marçal, o índio mais eloquente que conheci. Esperavam de mim que eu clamasse por justiça contra a barbaridade de seu assassinato por fazendeiros vizinhos. Clamei, reclamei quanto pude diante do governador de Mato Grosso e de outras autoridades maiores. Mas como acontece desde sempre neste meu triste e perverso país, também dessa vez nenhum assassino foi incriminado e punido pela morte do meu querido amigo. Marçal era um líder índio muito conhecido e respeitado. Foi ele quem saudou o papa em Manaus, pedindo julgamento e justiça para os duzentos e tantos assassinatos de líderes indígenas nos dez anos anteriores, que permaneciam impunes.

A mais comovente dessas mensagens para mim foi a foto que me chegou às mãos, mostrando a beleza de um cerimonial Kuarup, armado pelos índios xinguanos, numa aldeia Kamayurá, para representarem com troncos de árvores o ato divino da criação dos primeiros homens. É fácil imaginar a emoção em que caí quando vi que aquele Kuarup se realizava para mim, para ajudar-me a sair vivo da operação de câncer a que eu me submetia naqueles dias. Isso se via pela inscrição do meu nome num dos troncos da cerimônia.

Com os Xokleng do Sul do Brasil, conheci um povo que percorreu em cinquenta anos todo o caminho de “silvícolas bravios em guerra contra todos” ao de “pobres índios integrados na civilização, como assalariados”. A civilização, no caso deles, é uma área agrícola próspera de colonos alemães, aos quais foram dadas as suas matas.

Ali eu vi, comovido, o esforço ingente que eles faziam para ser reconhecidos como gente pelos seus vizinhos teutos. O melhor que lhes aconteceu nesse seu caminho foi o encontro com um pastor protestante que, de Bíblia na mão, lhes mostrou que eles também são filhos de Adão e Eva, culpados pelo pecado original. Nos cultos a que se entregavam, eu vi multidões deles dançando, frenéticos, braços alçados, clamando: “Deus, me leve! Deus, me salve!”.

Uns anos atrás, estando eu carpindo meu longo exílio, encontrei como modo de fugir por algumas horas, diariamente, daquele desterro, escrever meu romance Maíra, sobre minhas vivências nas aldeias indígenas. Nunca escrevi nada com tão grande emoção, mesmo porque meu tema ali era dar expressão ao que aprendi, no longo convívio com os índios, sobre a dor de ser índio, mas também sobre a glória e o gozo de ser índio. Enquanto o escrevi, eu estava lá na aldeia com eles. Era, outra vez, um jovem etnólogo, aprendendo a ver seu povo e a ver o meu mundo com os olhos deles.

Por: Darcy Ribeiro.

Excerto do livro “Confissões”, publicado em 1997 pela Companhia das Letras.

Para avaliar a amplitude dessas variações, basta considerar que ainda hoje eles falam mais de duas centenas de línguas, classificáveis em cerca de duas dezenas de troncos linguísticos, totalmente diferentes uns dos outros. O nosso indo-europeu, de que se esgalham, como línguas, do russo ao inglês e ao português, é um mero tronco, equivalente a um daqueles vinte e tantos que já se registraram entre os índios.

4 Comentários

Deixe uma resposta