Documentário mostra que Donald Trump não é uma aberração política

Donald Trump na Trump Tower
Donald na sua Trump Tower

Depois do incrível documentário sobre Bobby Kennedy, estou assistindo mais uma série documental sobre a política norte-americana, também em 4 episódios de aproximadamente 1 hora cada, na Netflix. Dessa vez o assunto é Donald Trump e sua trajetória até a presidência dos EUA. Apesar da série sobre Trump ter estreado antes e ter sido produzida fora dos EUA, no Reino Unido, os fatos são praticamente subsequentes aos da série Bobby Kennedy For President, e há uma conexão estrutural na ruptura política dos anos 1960 com os assassinatos de lideranças da esquerda norte-americana, na crise econômica dos anos 1970, e na ascensão de figuras como Trump.

A série chama-se Trump: An American Dream, ou seja, um sonho americano, título ironizado por Marcelo Rubens Paiva em sua coluna do Estadão. O escritor brasileiro faz uma crítica a Trump de um ponto de vista moral, como uma pessoa má que passa por cima de tudo e de todos para conseguir o que quer, intitulando o presidente dos EUA de “a maior aberração política da história das democracias modernas”. Eu discordo. Trump não foi um acidente ideológico da maior democracia liberal do mundo. Ele é um dos paradigmas didáticos da crise do capitalismo democrático desde os anos 1970, quando ascende como liderança empresarial de Nova York, até a crise do neoliberalismo a partir do colapso do mercado financeiro-imobiliário em 2008, culminando em sua vitória sobre o neoliberalismo progressista de Obama e dos Clinton em 2016.

epa06042184 US President Donald J. Trump applauds as he arrives to a rally at the US Cellular Center in Cedar Rapids, Iowa, USA, 21 June 2017. Trump spoke on his idea to build a solar wall along the US Southern border and on renegotiating the North American Free Trade Agreement (NAFTA). EPA/TANNEN MAURY Donald Trump
Trump na campanha presidencial vitoriosa em 2016

O primeiro episódio chama-se Manhattan, e explora o início de sua atuação na The Trump Organization, empresa de seu pai, Fred Trump, uma figura tão sinistra quanto o filho. Fred construiu um pequeno império da construção civil em Nova York através de subsídios e benefícios fiscais nas décadas anteriores, e o filho assume o controle desses negócios com uma visão megalomaníaca. Os anos 1970/80 são a época perfeita para ele, que tem plena consciência de seu lugar no capitalismo: “Em tempos de crise, eu consigo o que eu quiser.”.

Nova York vivia uma crise profunda, sua dívida pública era impagável, o prefeito não conseguia financiamento com o Estado de Nova York e nem com a União. Milhares de funcionários públicos foram demitidos, os serviços públicos e a seguridade social foram desmantelados, e a violência tomou conta da cidade. Nesse contexto, Trump negociou com a prefeitura a reconstrução de um antigo e luxuoso hotel, o Commodore Hotel, perto da Grand Central Station, e a recuperação dessa importante área central em decadência, em troca de 40 anos de isenções fiscais, e conseguiu. É exatamente o keynesianismo fiscal para empreiteiros milionários de obras públicas que ele defendeu exatos 40 anos depois para vencer as eleições presidenciais, prometendo empregos para os trabalhadores empobrecidos pela internacionalização do setor produtivo americano.

Aliás, aqui cabe uma digressão sobre a questão eleitoral dos EUA e paralelamente do Brasil. O próprio slogan “Make America Great Again” é apenas uma repetição farsesca da campanha de Ronald Reagen, cujo lema era o mesmo, apenas com o verbo “let’s” no início da frase. Inclusive, os dois presidentes republicanos tem muito em comum. Reagen também era uma figura pública “outsider”, ou seja, visto como de fora do mainstream político. Ele era um ator famoso de Hollywood, e usou essa popularidade e influência para chegar ao poder, assim como Trump usou seu dinheiro e publicidade em programas de televisão.

Let's make america great again de Ronald Reagen copiado por Donald Trump

No entanto, essa narrativa criada em torno dos chamados outsiders é bastante questionável, porque tanto Trump com suas relações político-empresariais intensas, como Reagan que foi governador da Califórnia antes de ser presidente, não podem ser realmente tidos como agentes externos ao mundo político. Esse discurso do “não-político” também tornou-se bastante frequente no Brasil, como é o caso de João Doria, lobista de longa data, cujo enriquecimento deve-se exatamente ao tráfico de influência política, mas que ascendeu eleitoralmente com o discurso da anti-política.

Voltando à série: após esse primeiro grande empreendimento, a reforma do Commodore Hotel, que alavancou Trump como um grande player do mercado imobiliário em Nova York, abriu-se o caminho para seu mega projeto, a Trump Tower. Não apenas ele tinha um projeto espalhafatoso, como o sonho declarado dele era que fosse no endereço mais caro e cobiçado de Manhattan, na esquina da Quinta Avenida bem ao lado da matriz da centenária e luxuosa loja de jóias, a Tiffany’s. Por anos ele tentou comprar o terreno sem sucesso, até que a recessão o favoreceu e ele arrematou o endereço.

O projeto mais ambicioso de Donald Trump, a Trump Tower
A Trump Tower na Quinta Avenida em Manhattan

O projeto era altamente complexo e só foi inaugurado em 1983, e a engenheira chefe de obras ganhou notoriedade por sua firmeza na condução das obras, e inclusive era convidada para quadros cômicos de programas de auditório. Desde muito cedo, Trump exerceu a publicidade exagerada pela qual é criticado hoje. Até a quantidade de concreto usada foi motivo de comemoração.

E aqui aparece outra figura bastante sombria, o advogado Roy Cohn, que não apenas advogava para Trump nas obscuras relações com o poder público, como era advogado da máfia italiana que à época controlava o negócio do cimento. Ele teve como clientes todos os chefes das “cinco famílias” que formavam o sindicato do crime em Nova York, tão bem retratado em O Poderoso Chefão de Mario Puzo e Francis Ford Coppola. O documentário mostra que os pagamentos dos contratos de fornecimento de cimento eram feitos diretamente no escritório do advogado, conhecido por sua truculência e personalidade intimidadora. Ele havia tornado-se uma figura pública antes mesmo desses envolvimentos com o crime organizado, quando foi assistente de Joseph McCarthy nas audiências do Senado de perseguição a comunistas, e foi o promotor que processou Julius e Ethel Rosenberg, acusados de serem espiões soviéticos e condenados à morte nos anos 1950.

Donald Trump e o advogado da máfia Roy Cohn
Donald Trump e o advogado da máfia Roy Cohn

O fato é que Roy Cohn também foi responsável pelas incríveis vitórias judiciais de Donald Trump nos anos 1980, que garantiram isenções fiscais sem precedentes para a construção civil em Nova York. Trump era rodeado de figuras desse naipe, e ele mesmo torna-se famoso por um comportamento agressivo e reacionário, uma expressão radical do sonho americano, o sonho não apenas da conquista do dinheiro, mas da identidade entre dinheiro e poder. As relações políticas de Trump não são espúrias, são explícitas, e vem de longa data. Não há diferença entre Trump, e o educado e progressista George Soros, ou os geniais Bill Gates e Steve Jobs.

Assistindo esse primeiro episódio sobre a acensão empresarial de Trump, não é possível deixar de traçar o paralelo com outra figura de sucesso meteórico nos anos 1980, Jordan Belford, o autor do best-seller que virou filme, O Lobo de Wall Street. Jordan é ainda mais próximo do ideal do sonho americano do sucesso financeiro, pois ele realmente começou de baixo, ao contrário de Trump que herdou o dinheiro e as relações políticas do pai. Mas os dois tem em comum esse comportamento inescrupuloso de ver em cada situação social catastrófica, uma oportunidade para lucrar.

Jordan Belford no mercado financeiro, e Donald Trump no mercado imobiliário, são o paradigma comportamental do capitalismo sem hipocrisia que aparece nos anos 1980, sem as ilusões dos anos 1950, destruídas pela violência política e pela crise econômica. É apenas a contingência histórica que levou um para a cadeia e o outro para a Casa Branca. O fato é que Trump não é uma aberração da maior democracia capitalista do mundo, ele é apenas sintoma da transição de uma fase para outra desse mesmo modo de produção.

Donald Trump e o documentário da Netflix Trump: Um sonho americano

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