Doentes “de Brasil”, calma! Neofascismo e boçalidade não são favas contadas

Em excelente texto sobre pessoas que têm ficado doentes por conta do baixo astral do Brasil, a jornalista e escritora Eliane Brum traz tema pertinente para uma profunda reflexão, a meu ver, sobre nós, como indivíduos, e não apenas a defesa panfletária de posições e opiniões.

Não é assunto para truculentos, claro, nem para os que pensam a vida como política da inevitabilidade ou da eternidade, conforme noções utilizadas pelo historiador Timothy Snyder em seu livro “Na contramão da liberdade: a guinada autoritária nas democracias contemporâneas” (Companhia das Letras, 2019). Em resumo, o autor discute sobre como as coisas são aceitas como eternas e inevitáveis, mas que poderiam ser de outra maneira, assim como podem mudar e de fato mudam hoje ou amanhã.

Publicado pelo El País e amplamente comentado nas redes sociais, o texto de Eliane Brum aborda entrevistas feitas com psicanalistas e psiquiatras dando conta de como esse ambiente marcado por falas, decisões, gestos e medidas estapafúrdias do atual governo vêm deprimindo as pessoas, provocando inércia, medo e distúrbios diversos.

Entretanto, oportuno apontar para a outra face do problema, qual seja, a de situações nas quais pessoas, em vez de “adoecerem”, estão reagindo, criando, escrevendo, militando, pesquisando, denunciado, fiscalizando e arriscando novas formas de lidar com a conjuntura. Divergindo de muitos, uso o termo conjuntura porque acredito que as coisas não vieram para ficar – e que nem podemos aceitá-las como se não existissem alternativas possíveis.

O retrato feito pela jornalista é provocante. A mim suscitou imagens do que considero como doenças sutis e imperceptíveis de certo tipo de individualismo não reportado pela matéria. Por exemplo: quem já não detectou em uma pessoa próxima sinais de doenças silenciosas com semblante aparentemente saudáveis, como a do sujeito, por exemplo, que pede para deixá-lo “fora disso”? Ou para que você não mande assunto de política pelo whatsApp, ou ainda aqueles que entoam o discurso do otimismo sem pé nem cabeça. Sem falar dos que não suportam a verdade crua dos fatos e a devolve a seus interlocutores com agressões e xingamentos.

Tem cura? Para alguns casos existem remédios, mas só para administrar o agravamento, nunca para debelar a doença. Para muitos, porém, talvez a cura exista desde que uns e outros possam falar e ser ouvidos.  Afinal, a vida coletiva não é uma realidade abstrata, diferentemente do que várias pessoas imaginam. Em diversos níveis, instâncias e momentos ela passa pelas nossas mãos – e exemplo disso é o próprio trabalho de Eliane Brum. Aproveito então para pegar carona na chamada do texto logo após o título “Doente de Brasil”, qual seja: “Como resistir ao adoecimento num país (des)controlado pelo perverso da autoverdade”.

Em primeiro lugar, bom que se diga: nem todo mundo está apático ou sofrendo de taquicardia. Muitos estão reagindo, seja nas funções institucionais que ocupam no poder público, seja em movimentos da sociedade civil. Além de diversas iniciativas de autoridades e grupos organizados, o recente ato na Associação Brasileira de Imprensa, no Rio de Janeiro, em apoio ao jornalista Glenn Greenwald, às liberdades de expressão e à democracia são exemplos de que a sociedade não está mergulhada na letargia ou na depressão.

O problema é que, como normalmente a agenda pública é pautada pelo governo, num bizarro esquema de tergiversação dos problemas, e seguido pelos grandes meios de comunicação, que não destacam em suas manchetes o que acontece extraoficialmente, fica a sensação de que tudo está dominado pelos neofascistas numa sociedade emparedada. Isso não corresponde, felizmente, à realidade dos fatos.

Em segundo lugar, há que se reconhecer que as pessoas são afetadas de maneiras diferentes pelos eventos, o que nos recomenda atenção e cuidado para respeitar o jeito e a história de cada um em relação às doenças que os fragilizam. Bom considerar também que muitos amigos, parentes, vizinhos, colegas de trabalho que não concordam com nossas opiniões podem estar, mesmo assim, do nosso lado, embora embarcando transitoriamente no engano ou na ilusão de uma mistificação que as contradições e os limites temporais dos problemas dissipam ao longo do tempo.

Significa dizer que, por mais que fascistas, truculentos e boçais digam e tentam impor suas falsas verdades, os fatos e suas contradições acabam descortinando e denunciado as mentiras. Está aí a Vaza-Jato como exemplo eloquente. Talvez não estejamos conseguindo falar uns aos outros a exemplo de situações afetivas que desvelaram para muitos o que as pessoas mais próximas pensam e imaginam do Brasil sem que soubéssemos. E isso acaba baixando o astral de qualquer um que queira debater os problemas com os mais íntimos, sejam parentes ou amigos. Assim, o silêncio pode levar a estados depressivos e sensação de isolamento. Porém, transformações sociais e políticas não ocorrem de um dia para o outro, mas sim numa sucessão e acúmulo de fatos e movimentos.

A sensação de favas contadas é amplificada pela arrogância e petulância dos discursos e medidas absurdas, corroboradas em seu tom contemporizador de golpismo oportunista pelos tradicionais meios de comunicação. Entretanto, são oito meses de governo – oito meses de total e espantosa indigência de políticas públicas. Brasil se tornou uma vergonha nacional e internacional, o que faz baixar a estima de qualquer brasileiro de bem preocupado com o destino do país. Os problemas parecem sinalizar seu agravamento num horizonte não muito distante se não houver mudança de rota.

O prognóstico não é questão de desejo de quem acredita numa premissa dialética ou em alguma transcendência metafísica. É algo concreto e material, por exemplo, em relação aos elementos temporais da economia e da política. Queremos que as coisas melhorem em diferentes níveis e dimensões da vida social. E isso para todos, não somente para alguns. Se não melhorar para maioria, ficará ruim até para os mais abastados, ainda que estes fiquem em situação melhor. Se não for assim, contradições se acirram e acabam transformando a situação com consequências imprevisíveis e dramáticas na sociabilidade entre os indivíduos.

Em terceiro lugar, existe outro tipo de doença maior no Brasil – maior do que doenças semelhantes em diferentes pessoas, supostamente “individuais”, causadas pelos absurdos anunciados pelo atual governo. É uma doença que vem de longe, agora, claro, sendo agravada pela onda neofascista. Trata-se do legado da escravidão negra de séculos de colonização, lado, muitas vezes, silencioso da enfermidade nacional que muitos de nós, esclarecidos e brancos, esquecemos ou evitamos.

Escravidão que está na raiz da escravidão contemporânea com a flexibilização das leis trabalhistas, a “uberização” das relações de trabalho, o achatamento salarial, a destruição da previdência pública, a “normalização”, como crime comum, do assassinato da vereadora Marielle Franco e seu motorista Anderson Gomes – ela como mulher e militante política negra originária de comunidade pobre. Escravidão que está na raiz desse ódio todo disseminado por autoridades e pessoas de diferentes estratos.

As pessoas que estão procurando consultórios precisam ser confortadas e lembradas que não são elas as doentes – mas a sociedade – e aqui fica um convite para a reflexão, com todo o respeito, a alguns psicanalistas e psiquiatras sobre seus diagnósticos, como bem lembrou um dos entrevistados por Eliane Brum. Afinal, depressão, suicídio, anomia e uma série de distúrbios vêm acontecendo mundo afora não é de hoje por conta da falta de sentido de uma vida de acumulação de riqueza baseada no amontoado de pobres nas periferias das grandes metrópoles.

Que o diga Emile Durkheim com seu livro sobre o suicídio, do século XIX, muito antes, portanto, do surgimento das grandes periferias – mas já numa sociedade em pleno vapor de produção de seres humanos infelizes. Diagnóstico vindo, aliás, de um dos fundadores da sociologia que não tinha nada de marxista. Contemporâneos da atualidade que nem são pobres de periferias também não encontram sentido em seus mínimos confortos de classe média só de ver os horrores da vida dos outros. Só de ver o aumento do número de famílias dormindo sob as marquises das cidades. Até psicanalistas e psiquiatras acabam entrando em depressão.

A pobreza é problema nosso, de todos, assim como o racismo e o desmantelamento do patrimônio nacional que se interconecta com outros problemas determinantes de nossas limitações de vida presente e futura. A questão social não tem a ver somente com políticas públicas focalizadas para pobres. Diz respeito a toda sociedade – e por isso vivemos conflitos e desarranjos cada vez mais frequentes. Em seu livro “Metamorfoses da questão social”, Robert Castels mostra isso com clareza e usa o termo “sociedade salarial” para mostrar que não só os mais precarizados podem ir para o fundo do poço, mas também funcionários ou sócios bem remunerados de grandes empresas nas reviravoltas provocadas pelo agravamento dos problemas e conflitos sociais.

Muitos somos infelizes por conseguirmos enxergar ou intuir de forma direta, oblíqua ou inconsciente uma sociedade que não tem sentido e finalidade alguma a não ser valorizar o valor. Em outras palavras, valorizar o ser humano como valor material e não como ser humano, coisificado na sua única forma possível de ser reconhecido, isto é, na relação mercadológica em termos monetários.

Muitos ficamos doentes por conta da exigência de reconhecimento curricular com base em meritocracia duvidosa. Outras vezes não conseguimos ver outra saída na vida e embarcamos na crença da falta de alternativas pelo sentimento de eternidade e inevitabilidade. E aí assustamo-nos abalados, compreensivelmente, com as ameaças e boçalidades dessa gente cujo destino é o lixo da história – e passageiro.

Em quarto lugar e por último, mas sem pretensão de esgotar o tema, o que enunciei no início, isto é, a reflexão sobre nós como indivíduos. Ora, só somos indivíduos por causa dos outros. A pobreza e as periferias, repito, são um problema de todos. Só somos indivíduos com os outros e na convivência com os demais. Ninguém é indivíduo de forma isolada, mesmo que trancado num quarto a maior parte do tempo de sua vida. Em algum momento esse ermitão terá que abrir a porta para resolver suas questões de sobrevivência e só pode fazer relacionando-se com outras pessoas, seja um parente, a síndica do prédio, o porteiro ou o entregador da pizza. Sem falar do próprio Estado por conta dos impostos que tem que pagar.

Fui longe demais no exemplo para dizer sobre a obviedade, qual seja: na vida coletiva não cabem paroxismos de idiossincrasias pessoais de governantes para conformar mecanismos mínimos de instituições políticas e econômicas. Ou o Brasil aceitaria passivamente matanças e campos de concentração se essa gente insistir em permanecer no governo sem resolver os problemas?

Nada contra idiossincrasias na arte, na maneira de vestir, no esporte, nas relações sexuais ou afetivas e em situações diversas e imprevisíveis. Nada contra a solidão deliberada e escolhida por quem quer que seja. Que as pessoas sejam e vivam como quiserem. Vistam-se como quiserem, façam amor como e com quem quiserem, leiam o que quiserem, assistam ao filme que mais lhe agradarem, caminhem onde quiserem, vão à praia a hora que quiserem. Pensem o que quiserem, pratiquem a religião que acharem melhor.  Porém, gostos, inclinações, talentos e práticas de vida ocorrem no convívio com as demais pessoas.

Precisamos dos outros e, como diz meu velho amigo José Cássio Ignarra, precisamos estar juntos. Doentes não estão sozinhos como doentes, pois todos estamos doentes como sociedade – essa é a verdade. Precisamos de outro tipo de sociedade, e isso é possível. Repito: alguns reagem cada um à sua maneira, com seus urros, fraquezas, quedas, com seus socos no estômago do dia, com suas visitas aos consultórios. Outros estamos protestando nas redes sociais ou fazendo coisas nos partidos políticos, sindicatos, associações de moradores, clubes, igrejas. Isso porque acreditamos que o neofascismo e seu obscurantismo não são favas contadas.

A pior morte é ficar paralisado no meio do caminho. A morte em vida. Já que precisamos aprender a morrer, isto é, não esquecer nossa condição finita de existência, não será com nossa vida vilipendiada por neofascistas. Mas, sim em plena atividade de criação e alguma contribuição para as futuras gerações.

A pergunta que tenho feito sobre a condição dos indivíduos é: o que realmente importa nessa vida? Se a polarização de ideias e interesses das últimas eleições fez a política adentrar a privacidade das pessoas, dividindo famílias, isso não é ruim. Isso faz parte do processo contraditório de conscientização dos indivíduos. Bom para pensarmos sobre o individualismo numa sociedade doente por não saber as imbricações do público no privado e vice-versa. Bom para repensarmos o sentido do nosso individualismo. O sentido de famílias e comunidades.

Ao mostrar sua outra face que até então estava latente e silenciosa, o Brasil descortina uma nova realidade e nos desafia a agirmos e reagirmos – e não nos enclausurarmos. Afinal, são nossas vidas em jogo. Os neofascistas preferem um Brasil em frangalhos, um Brasil deprimido. Nós não temos outro caminho a não ser reagir e fazer a vida com nossas próprias mãos.

(*) Jornalista, mestre e doutor em Ciências, Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento pelo UFRJ

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