El Caudillo: Brizola pelos olhos de FC Leite Filho

Como pode pela garganta de um único homem ressoar o grito de todo um povo? Como pode sua voz reverberar pela história de um país em luta por sua soberania? As quase 600 páginas do livro “El Caudillo: Leonel Brizola” de FC Leite Filho, reeditado este ano pela Editora Aquariana, lançam uma nova luz na figura de Leonel Brizola, o homem que encarnou o punho erguido do Brasil.

O primeiro encontro do autor com seu biografado é um dos vários pontos-chave da obra. FC Leite Filho não teme confessar que antes de conhecer esse gigante da história brasileira estava um pouco ressabiado, haja vista a má fama que o caudilho tinha nas redações dos grandes jornais. “O Mussolini dos Pampas” fora a alcunha que Golbery deu ao patriota brasileiro, temor reproduzido por toda imprensa e elite.

Era os idos 1979 e a colaboração internacional de vários partidos socialistas havia viabilizado a realização do encontro dos trabalhistas na sede do Partido Socialista Português. Ali seria lavrada a histórica Carta de Lisboa, que conteria os princípios do PTB (mais tarde, PDT) reestruturado após anos de perseguição pela Ditadura Militar antinacional que se apossara do Brasil.

FC Leite Filho tinha sido enviado para cobrir as primeiras eleições para o parlamento europeu e foi deslocado por seu jornal para a capital lusitana a fim de cobrir o evento trabalhista. Por mediação de Flávio Tavares, figura icônica da articulação das esquerdas latino-americanas durante o período de resistência contra os Regimes Militares em toda América do Sul, o autor foi apresentado para o caudilho, junto de outros jornalistas. Sobre esse primeiro contato, comenta Leite Filho:

“Notei-o um tanto formal e um tipo metódico e organizado, algo estranho para mim, que tinha na cabeça o estereótipo do arruaceiro ou do demagogo, como o chamava meu pai, repetindo o bordão da grande imprensa”.

É com esse desassombro que FC Leite Filho mergulha na biografia de Brizola que se confunde com a história do Brasil. Assim como o jornalista no convívio com o caudilho gaúcho desfez seus preconceitos, o leitor é convidado a conhecer a vida desse homem e com ela a luta popular pela soberania de nosso país. Neste sentido, a obra de FC Leite Filho colabora para a desmistificação da história nacional, encoberta por um véu ideológico liberal que busca esconder de todos nós as nossas lutas e as nossas vitórias.

Em uma das passagens mais fascinantes, o autor traz uma série de documentos mostrando os intestinos da imperialismo estadunidense. São despachos do Departamento do Estado para a CIA que FC Leite Filho foi buscar no US National Archives, transcrições de conversas secretas entre Lincoln Gordon e John Kennedy do Miller Center of Public Affairs, além de vários despachos de cônsules estadunidenses em diversas cidades brasileiras, datados dos anos 1950 e 60. Todos esses documentos históricos apontam Brizola como o centro das preocupações estadunidenses e a crescente agitação popular em torno da luta pela soberania nacional.

“Presidente Kennedy: o que temos de fazer para chegar nos militares?

Gordon: O Exército é muito… é… a mais importante das três forças. Este é o homem-chave no nosso relacionamento”;

Além dos detalhes nauseantes do imperialismo estadunidense, FC Leite Filho mostra como Lincoln Gordon, então embaixador no Brasil, despudoradamente pressionava Goulart sobre matérias domésticas brasileiras. A narrativa ainda acrescenta uma nova dimensão a importância das transnacionais estadunidenses na submissão do Brasil pelo golpe de 1964, sobretudo pela campanha da AMFORP e da ITT contra nosso país.

Um dos episódios mais heróicos da história da brasileira e da biografia de Brizola, o épico da Campanha da Legalidade é retratado minuciosamente. Desde a tomada da Rádio Guaíba, até os contatos com Mauro Borges e finalmente o emocionado abraço do caudilho a Machado Lopes, militar de grandeza inigualável, que descumpriu as tresloucadas ordens do marechal Odílio Denys, que influenciado pela macabra figura de Golbery, então seu chefe de gabinete, mandara bombardear Porto Alegre.

O leitor não é poupado dos conflitos entre Goulart e Brizola, que se agudizam depois do presidente aceitar o parlamentarismo imposto pelo Congresso Nacional traidor. FC Leite Filho não se furta a mostrar as várias desventuras da vida do caudilho: os equívocos durante o exílio, as amargas derrotas na tentativa de resistência armada, a perseguição sofrida no final de seu exílio no Uruguai e até mesmo os conflitos familiares provocados pela perseguição implacável contra Brizola.

Na obra há também detalhes do hercúleo esforço de Brizola para reestruturar o PDT após décadas de perseguição dos trabalhistas. Contra inúmeras sabotagens de Golbery, como o roubo da sigla, a tentativa de fraude eleitoral do escândalo da Proconsult e o boicote generalizado da mídia,  já sob a “liberdade de imprensa”, o caudilho foi capaz de reerguer o partido. “Sou como uma planta no deserto. Uma única gota de orvalho é suficiente para me alimentar”.

O livro conta a respeito do longo e árduo conflito com a esquerda liberal petista, desde o primeiro encontro entre Lula e Brizola em que o líder sindical, já influenciado pelo uspianismo, rejeita o varguismo. De lá, passando por disputas eleitorais, Brizola conduz seu partido como um timoneiro, mantendo-o fiel a sua tradição popular e nacionalista, mesmo que isso implicasse em problemas práticos para seus parlamentares.

O título escolhido por FC Leite Filho para sua biografia mostra grande coragem. “Caudilho”, essa palavra tão demonizada, usada para difamar a imagem de Brizola, talvez seja a melhor alcunha que poderiam conferir ao líder trabalhista. Segundo o wikcionário,  “Caudillo”, de origem espanhola, vem de capitellus, palavra latina que significa diminutivo de cabeça. Na tradição espanhola, caudillo era o título conferido aos grandes chefes militares.

Não poderia haver melhor descrição de Brizola. O caudilho possuía a capacidade quase sobrenatural de perfurar o verdadeiro bloqueio midiático que se fazia contra suas palavras. Conseguia organizar o povo como um gigantesco sujeito coletivo, capaz até mesmo de debandar golpes militares, como foi feito na Legalidade em 1961. Nunca se esquivou de dizer para todos os trabalhadores do Brasil exatamente qual era o problema de nosso país: as perdas internacionais. E era esse aspecto, o fato de dizer a verdade é mais do que dizer, organizar os trabalhadores segundo essa verdade, que tornava Brizola o Caudillo.

Pela sua boca saía o grito de todo um povo. Assim sua voz ressoa por toda história, até chegar na segunda década do século XXI, quando encontra uma juventude sedenta de luta patriótica, de verdadeira consciência de classe e nacional, contra o imperialismo que mais uma vez cerra suas garras sobre nossa carne morena.

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