Viver “Em chamas” dói: cenas do cinema sul-coreano

“Burning” ou “Em chamas”, de Lee Chang-dong e nas traduções do coreano, estreou em 2018 no Brasil, na Mostra Internacional de Filmes de São Paulo. Eu não consegui ver. Eis que uma amiga me lembra dessa joia do cinema sul-coreano, que veio muito antes de sua nova explosão no Ocidente com o aclamado “Parasita”, de Bong Jong-ho. Justo agora, que eu me intrometi a tardiamente estudar e ver esse universo a parte das produções culturais sul-coreanas.

O filme é intitulado com a atual característica da indústria cinematográfica sul-coreana: ardente. De ideias, conteúdo, estética e recursos econômicos devidamente planejados pelo Estado, que não vêm de hoje, e sim da demorada ditadura Park nos anos 60 e 70.  Nesse período, o Estado sul-coreano começou a criar uma espécie de indústria cinematográfica. Até os anos 80, o Estado já coordenava a produção, distribuição e exibição do filmes. Foi nessa época que teve o pico de implementação das cotas de tela, por exemplo. Até que, finalmente, em 1996, houve um efetivo fim da censura e consequente incremento das produções, mas que foram de certa forma facilitadas pela estrutura criada a partir dos investimentos públicos anteriores.

Apesar dos grandes apesares das características gerais, especialmente a acentuada censura de conteúdo das produções — que merecem um texto a parte — o investimento e planejamento econômico ficaram de lição de casa para os países que ainda não tiveram a vontade e coragem de construir uma “Hollywood” para chamar de sua.

Voltando ao filme, capaz de intrigar o espectador desde seu início. Há certa centralização em uma personagem feminina, Hae-mi (Jeon Jong-seo), que domina todas as cenas. Em uma específica, narra o fato de somente poder ver a luz solar em seu apartamento uma vez por dia, quando é refletida no observatório de Namsan e chega até lá. O “lá” é um lugar afastado do centro comercial da cidade, onde ela exerce um trabalho precário e sexista.

Os protagonistas da trama, que combina os gêneros drama e mistério, interpretam com maestria as relações sociais. Os afetos que ambos demonstram são de pouco conforto; a mulher ocupa certo espaço de poder, revelando o que se aproximaria de uma emancipação sexual, mas com certa submissão. A fotografia das cenas revela sempre um protagonismo da luz como simbologia da trama, dialogando com detalhes grandiosos do roteiro. A trilha sonora é instigante, bem construída na conversa com as cenas para entregar com êxito a tarefa de intensificar emoções, como característico do cinema sul-coreano.

Mas nem só de poesia na estética e no conteúdo vive o cinema sul-coreano. A crítica social está quase sempre presente. E no longa “Burning”, ela arde no protagonista masculino, Lee Jong-su (Yoo Ah-in), cuja construção do personagem é fruto de um trabalho impecável de roteiro. Bem construído, é complexo e revela camadas que vão sendo reveladas com intensidade e emoções que sobressaem às telas.

Em outra cena que destaco, a televisão do protagonista anuncia o crescimento drástico do desemprego dos jovens da Coreia do Sul. Era, em 2018, o que mais crescia entre os países da OCDE. O longa vai aos poucos alfinetando que, dos poucos empregos que restavam, eram destinados à seleção a dedo de jovens com base em onde moram, ou preconceitos e “vantagens” ao empregador.

Na sequência do jogo de cena, a decupagem de Jong-su no banheiro ao fundo mostra Donald Trump na TV, falando que deu uma nova visão à América: o que chama de bem-estar do cidadão americano e o trabalhador colocado acima de tudo. A notícia anunciava que 94% de seu eleitorado ainda o apoiavam após um ano de sua eleição; eram boas as avaliações de sua plataforma de governo, incluindo deportação de imigrantes, ter construído o muro e revogado o Obamacare. Corta. A trilha que instiga retoma. O protagonista do nosso filme tenta projetar seu futuro indo ao quintal. Tenta ligar a caminhonete. Mas as frustações sentidas constantemente fazem com que o cenário da caótica casa retorne. Abre um armário oculto onde o que se vê são violências objetificadas  em facas. É o que lhe cerca: a violência do abandono, da falta de emprego e do desigual. Ele cresceu sozinho, e a solidão e frustração perseguem o protagonista durante o longa. A desigualdade social aparece constante e saturada nas cores arroxadas e esverdeadas.

O contraponto característico dos filmes sul-coreanos nessa linha é a construção de personagens opostos, em comportamento e classe social. Falando nisso, o diretor Lee Chang-dong não falha: surge em cena Ben (Steven Yeun), moço rico que não trabalha e, quando questionado, diz que apenas “joga”. Não se sabe o que ele faz, mas ele é rico, a ponto de Jong-su o chamar de “Grande Gatsby”. Há muitos “Gatsbys” na Coreia do Sul, que riem de pessoas de outra classe social, do mundo oposto ao deles. Acham “interessante”, como descreve Ben. É por isso que acho ser a cena de Hae-mi, dançando e sendo zombada, quase tão incomoda de ser assistida com a do “cheiro de pobre” em Parasita.

Enquanto o protagonista Jong-su incendeia, todo dia em sua mente, a sua solidão materializada nas roupas da figura materna que partiu, o personagem rico tem o hobby de incendiar estufas dos outros. Brinca de praticar crimes porque pode. Porque sente prazer com o medo do “outro”, o que “tem suas estufas queimadas”. Essa é uma ilustração metafórica clara da crítica à desigualdade socioespacial coreana, daqueles que são esquecidos tão longe que já estão na fronteira com a Coreia do Norte, como Jong-su. Do outro lado, aqueles que “queimam” nunca são impedidos de queimar, porque a polícia sul-coreana não liga para “estufas imundas e esperadas para serem queimadas”, como diz Ben em cena. Enquanto isso, a personagem de Hae-mi novamente dança no som da solidão, do olhar de Jong-su, e nas cores púrpuras. Volta-se ao poético do discurso, no choro do vazio de quem não compreendeu a realidade em que vive mas ainda assim sofre.

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