Em defesa de Louis Althusser

Em alguns círculos, citar o nome de Althusser causa um reflexo automático de rechaço. Os carimbos (positivista, estruturalista, etc.) proliferam na mesma intensidade que a ausência de conhecimento sobre a obra do intelectual em questão.

Contribuíram para essa caricatura o grande historiador E.P. Thompson, que, por motivos variados, inclusive políticos, detonou o cara de forma um tanto injusta (como atesta Perry Anderson no livro em que comenta sobre a “treta), mas também a crítica de certos pesos-pesados da USP, como José Gianotti e FHC, ambos na fase “marxismo-hegeliano humanista”, e o final da vida infeliz e infame do franco-argelino.

Um “truque” que muitos usam é associar Althusser a todo o “pensamento francês” estruturalista e pós-estruturalista. Aí se critica em linhas muito gerais aspectos compartilhados por todo este conjunto muito heterogêneo de autores e, trabalho feito, tá todo mundo “refutado”. É um procedimento tentador mas que deve ser feito apenas com muitas mediações sob o risco de cair na desonestidade intelectual. Eu faço isto o tempo todo para fazer combate político — por exemplo, quando generalizo liberais ou conservadores — mas do ponto de vista intelectual não é muito recomendável, ainda que politicamente faça sentido.

Sim, é verdade que Althusser foi influente. Ele era titular da ENS, uma da instituições luminares da intelectualidade francesa. Sua influência se equipara a de nomes como Hyppolite e Canguillem. O papel decisivo no pensamento de autores que foram alunos seus, como Foucault, é evidente.

Mas ele manteve algo de muito singular: mesmo na onda mais pesada de crise do marxismo, manteve a centralidade das classes sociais e suas lutas, inclusive de conceitos abandonados pelo próprio partido, o PCF, ainda que fosse bastante crítico dele e por isso enxergasse méritos na crítica dos chineses aos soviéticos– outra especificidade, já que todos romperam com o partido, inclusive seus alunos maoístas — como “ditadura do proletariado” e a fidelidade ao comunismo. Também sustentou até o fim da vida a ideia de defesa da filosofia quando muitos entraram na onda da desconstrução e crítica à própria possibilidade desta disciplina — o que, talvez, fosse necessário para a própria filosofia, aliás.

Tudo isso pra apresentar os pontos em defesa de Althusser. Escreverei de forma ligeira e rápida, mas talvez devesse transformar em artigo — sou preguiçoso pra pegar as referências e fazer tudo certinho. Até por dívida intelectual eu o defendo: Althusser foi um dos autores que mudaram minha vida, ajudando não só a me compreender e me situar no mundo, como a orientar minha conduta. Acho que isto é tarefa de todo grande filósofo e Althusser foi, sim, um grande filósofo, dos maiores.

Bem, começando pelos problemas:

i) Althusser, de fato, chega a impasses grandes quanto à potência da ação e criatividade humana. Isto não decorre do seu “anti-humanismo teórico” (é impressionante como encaram isto com leviandade, como se ele estivesse falando para desconsiderar o indivíduo e a moral na vida prática, até o Domenico Losurdo comete esta vulgaridade), mas da ideia de “processo sem sujeito”, tirada de Spinoza. Aliás, Spinoza, como muitos já escreveram, é o grande filósofo pra Althusser (curioso que era também pra Deleuze, ainda que tenha uma orientação filosófica e política completamente distinta).

A “morte do sujeito” — tema tanto do Althusser quanto de Foucault e Derrida — no caso do Althusser o leva a considerar que “não há lugar além do lugar”, isto é, somos todos indivíduos ideológicos ocupando uma posição de suporte a alguma ideologia decorrente das “agências” do Estado burguês. O perigo do desvio funcionalista e “reprodutivista” é evidente. A questão de “como nasce o novo” fica mal resolvida, ainda que ele tenha dado contribuições com a ideia de não é uma mera decorrência da economia, como o faz um marxista vulgar.

ii) Segundo problema grande: jogar Hegel totalmente fora — e como consequência o “jovem Marx”.

Althusser queria combater os desvios que ele considerava mais perigosos no processo aberto de renovação do marxismo após o XX Congresso da URSS, em que Kruschev denúncia Stalin. Aquilo que buscava superar o velho “Materialismo Histórico e Dialético” stalinista estava encharcado de empirismo e historicismo, ambas variações de uma metafísica burguesa criada na aurora da modernidade, na visão dele. Por isto muitos o encaram como stalinista. Mas isto é besteira. Ele não queria regredir. Apenas considerava que a “renovação” estava sendo mal feita.

A polêmica com Hegel visa depurar o marxismo de uma certa teleologia da “necessidade histórica” e da causalidade determinada por uma “essência” descoberta na totalidade — no caso dos marxistas hegelianos, a economia, ou o “trabalho”, o que dá na mesma.

Ele tem méritos nisto, mas penso que jogou o bebê junto com a água suja do banho. É difícil explicar a importância não só econômica, mas filosófica do proletariado (como a negatividade capaz de gerar universalidade) jogando fora completamente sua obra filosófica de jovem hegeliano (ou “feuerbachiano”, como Althusser enxergava).

A questão toda está na recepção da obra de Hegel na França, que dependeu muito do Kojeve e de seus famosos seminários, no qual expunha sua leitura da “Fenomenologia do Espírito”, da dialética da alienação da consciência humana.

Althusser via em Hegel algo circular e teleológico nisto, a ideia de que o fim já está no começo, ou o Filho se completa com a reconciliação que ascende ao Pai, algo religioso (e de fato Hegel o era bastante),o que gerava problemas para o marxismo.

Mas há outro Hegel, no qual elementos materialistas já estão presentes, como notou entusiasmado Lenin em sua leitura da “Ciência da Lógica”. Este outro Hegel, combinado com outras influências (como Lacan e Mao) permitiu ao Badiou criar uma filosofia que não só reconhece como dá centralidade ao sujeito. Não mais apenas, para citar Mallarmé, a ideia de que “não há lugar além do lugar” da “dialética dos lugares” que Badiou encarava como a limitação de Althusser (mas também de Lacan — “não há outro além do grande Outro”).

É preciso complementar esta dialética com outra, a “dialética de forças”, mais subjetiva e voluntarista, não abarcada pelo esquema algébrico estruturalista. O “motor” das forças complementando a “base” dos lugares determinados e limitados pela estrutura. Por isso é importante resgatar na filosofia o sujeito. Não mais o sujeito como cogito transparente do Descartes, mas, sim, um sujeito dividido e deslocado, pois a psicanálise nos “revelou” o inconsciente, mas, ainda assim, um sujeito. Isto tem implicações políticas evidentes.

Nisto Hegel — assim como Mao e as formulações topológicas do último Lacan, o que fala mais do real não simbolizado — ajuda bastante, principalmente quando desenvolve a questão da “qualidade”, inapreensível por alguma lógica externa, distinta da quantidade, na relação entre sujeito e objeto. Por isto acho “Teoria do Sujeito”, a primeira grande obra do Badiou — infelizmente ainda não traduzida — tão fundamental. É o balanço do “lacano-althusserianismo” que marcou uma geração nos anos 60/70.

Pois bem, mas então, que legado bom Althusser nos transmitiu? Cito seis mais importantes.

i) Não devemos ser religiosos fundamentalistas na leitura de Marx. Se o marxismo quer ter algum caráter científico, este tem que ser capaz de criticar as próprias posições e obras do Marx. Afinal de contas, os darwinistas, graças ao desenvolvimento da genética, não criticam o próprio Darwin? Newton não tem boa parte da obra contestada pela física mais atual e ainda assim continua em pé? A abertura ao não dogmatismo e a procura pela cientificidade é o primeiro grande mérito.

ii) A ideia de “causa ausente”, tirada da causalidade expressiva do Spinoza, da sobredeterminação. Ao contrário do marxisismo mecanicista, que enxerga uma determinação unilateral e direta da economia (infraestrutura) sobre as outras instâncias superestruturais, o processo histórico é mais complexo — ou então o socialismo teria chegado primeiro na Inglaterra e não na Rússia. Lenin dá um passo considerável aí, com a noção de “elo mais fraco da cadeia”.

iii) A sua defesa da filosofia — num período de dúvidas quanto a ela — e a sua concepção a respeito dela: “luta de classes na teoria” e disciplina sem objeto, em suspensão. Filosofia e história da filosofia se entrelaçam — praticamente a concepção da “filosofia perene” dos medievais. Além da filosofia ser sempre atividade demarcatória e polêmica — a briga eterna entre materialismo e idealismo — ela está sempre sob condição de outras práticas, exteriores a ela. Sem a revolução científica de Euclides na geometria não haveria Platão. Sem Galileu, sem Descartes. Sem Newton, sem Kant. A filosofia autêntica é sempre condicionada pela ciência de seu tempo. Mas Badiou expande: também pela política, pela arte, pela sexualidade e pelos laços amorosos da época.

iv) O respeito à autonomia formal de cada instância. Não há uma transitividade direta entre política e arte — como querem alguns marxistas que desprezam arte sem realismo social. É importante separar teoricamente aquilo que é separado, de fato, na prática.

v) A crítica ao “humanismo burguês”, o homem autônomo, reflexivo, sujeito de sua consciência. Uma criação da modernidade, no processo de construção filosófica pós-Idade Média. Isto permitiu uma aproximação epistemológica entre marxismo e psicanálise: assim como aquele havia feito a crítica ao “homo economicus”, esta faz a crítica ao “homo psychologicus”. Os desdobramentos disso para a teoria da Ideologia são enormes, como pós-althusserianos como Zizek demonstram.

vi) Enxergar importância teórica, filosófica mesmo, não apenas na teoria marxista, mas também na ação prática revolucionária. O Lenin analisando conjunturas e agindo politicamente num coletivo é tão ou mais fundamental que aquele das obras de economia política. Ou: o Marx que analisa a realidade da Alemanha em 1848 ou da França em 1871 gera desdobramentos para a filosofia, não só “O Capital”.

Por Diogo Fagundes

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