Entre sementes e frutos

A genialidade de alguns seres que dignificaram a existência humana nos traz reflexões profundas sobre a possibilidade de evoluir, avançar, progredir no entendimento e no amadurecimento, seja enquanto individuo, povo ou nação.

Dentre os pensadores que engradecem e agigantam a reflexão, está o mineiro de Montes Claros, antropólogo, professor, e utopista Darcy Ribeiro.

Síntese mais fiel da criação de Thomas More, criador e conceituador da utopia que descore sobre uma ilha onde o bem comum se submete ao bem individual, onde a divisão dos bens entre todos, pois acreditam que garantiria a abundância para todos e não a concentração de riquezas nas mãos de grupos pequenos.

Na obra Utopia, Thomas More nomeia os habitantes dessa ilha de “utopianos”, embora More não hierarquize por não ter na ilha classes sociais ou estruturas de poder, certamente Darcy Ribeiro utopiano na essencialidade seria imperador da ilha por aclamação.

Autor de obras marcantes, Darcy Ribeiro apontava ponderações importantes. Em uma delas, o professor ponderou: “As sociedades cada vez mais estão divididas, entre sociedades que produzem sementes e sociedades que consomem frutos. As sociedades que produzem sementes, sempre vão ter frutos, e as sociedades que não produzem sementes sempre vão comer na mão dos outros”.

Esse medite de Darcy Ribeiro falava de soberania, de liberdade, de altivez a qual muitas vezes o Brasil abriu mão, preferindo muito devido nossas classes dominantes apátrida comer na mão dos outros.

O processo civilizatório brasileiro produziu por força de sua desaculturação a constituição de uma classe dominante subordinada e subserviente aos interesses não pátrios. O pensamento dessa elite é colonizado, e o complexo de vira-latas está nas gêneses dessa classe.

Entretanto, possuímos todas as condições e capacidade de sermos uma sociedade que produz sementes, nossa condição que nos obriga a comer nas mãos dos outros, e fruto de decisões políticas e de sabotagem exercida e patrocinada por nossa própria classe dominante.

Nesse sentido Darcy Ribeiro salienta: “O maior e único problema do Brasil são as suas elites: apátridas, parasitarias, vivem de vender o patrimônio nacional e manter o povo escravizado, ignorante, feito gado”.

Assim como Thomas More criou sua ilha, de justiça social de equidade civilizacional – portanto, utópica-, Darcy Ribeiro do mesmo modo teve inúmeros sonhos para o Brasil e seu povo. Um deles era sermos produtores de sementes, para nunca ficar refém e sermos obrigados a comer em mão não pátrias.

Nossas elites decidiram apenas consumirem frutos, muitos dos quais vencidos. Cabe a nós produzirmos sementes, para que não nos falte frutos, afinal e sempre temerário comer nas mãos dos outros.

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