O espião de Israel na Síria: série da Netflix conta história de Eli Cohen

“O Espião”, a nova minissérie da Netflix estrelando Sacha Baron Cohen, é um retrato das tramas envolvendo Israel e Síria nos anos que antecederam a Guerra dos Seis Dias (1967).

Baseado numa história verdadeira, o thriller conta em ritmo de tensão ascendente a saga de Eli Cohen, um judeu egípcio que se tornou o maior espião da história de Israel ao se infiltrar no alto escalão do governo sírio.

Eli nasceu em 1924 em Alexandria no Egito. Obteve toda sua formação naquele país, inclusive a universitária em Engenharia Elétrica. Quando da criação de Israel, sua família emigrou para lá enquanto Eli ficou para trás para completar seu curso superior.

Nesse interregno, Eli atuou clandestinamente auxiliando outros membros da comunidade judaica a irem para Israel. Em 1954, foi preso no Egito por participação em atividades consideradas terroristas, conseguindo escapar em função da insuficiência de provas da sua acusação.

Três anos depois, em 1957, Eli Cohen chegou em Israel após ser deportado do Egito. Muitos judeus foram deportados com o fim da crise do canal de Suez, quando Israel, apoiada pelo Reino Unido e pela França, declarou guerra ao Egito.

A nacionalização do canal, em outubro de 1956, pelo presidente do Egito Gamal Abdel Nasser havia bloqueado o acesso de um importante porto israelense ao Mar Vermelho, além de configurar uma expropriação do controle britânico sobre o canal.

O ano de 1958 marca o nascimento do contexto no qual Eli desempenharia seu papel na história: em 1º de fevereiro Egito e Síria se unificaram formando a República Árabe Unida, sob a liderança de Gamal Abdel Nasser, o que se mostrou a mais séria ameaça até então à segurança de Israel.

Ainda que desmembrada em 1961, a rivalidade entre os Estados apenas se reafirmou. A inteligência israelense, já em 1960, considerava a Síria uma enorme ameaça, principalmente na região das Colinas de Golã, então parte do território sírio.

Entre as Colinas de Golã e o território israelense, separados pelo Mar da Galiléia, a distância era o suficiente para que ambos temessem a repercussão de ataques recíprocos. Israel desconfiava de movimentações sírias atípicas na região, e desejava urgentemente infiltrar um agente do Mossad no país vizinho para interceptar informações.

Eli Cohen em Israel, Kamel Amin Thaabet na Síria

Eli Cohen foi recrutado pelo Mossad para uma missão considerada suicida e treinado com urgência, num curto prazo de apenas 6 meses, para assumir a identidade fictícia de Kamel Amin Thaabet, um rico negociante sírio que vivia na Argentina.

Deixando sua família para trás, Eli, sob a identidade de Kamel, chegou à Argentina em 1961, onde rapidamente se infiltrou na comunidade árabe local, conseguindo acesso a membros da embaixada síria e também militares.

Em Buenos Aires, se aproximou do general Amin al-Hafez, futuro presidente da Síria, que atuava como adido militar na embaixada.

Kamel era um bem sucedido negociante que trabalhava no setor de importação e exportação. Esbanjando dinheiro e patriotismo, logo seus contatos sírios confiaram na sua vontade de mudar-se para a Síria e contribuir para o avanço do país.

Em 1962, galgando posições rapidamente, Kamel chegou em Damasco, a capital síria, e se estabeleceu nos círculos da elite política e militar da cidade.

Seu desempenho foi muito além do esperado. A série mostra que o próprio Mossad considerava aquela ação arriscadíssima, e seu tutor no serviço de inteligência israelense desconfiava que Eli não voltaria vivo de sua missão.

No entanto, fato é que a escalada de Eli foi tão eficaz que ele se tornou um possível candidato à presidência da Síria nos anos seguintes!

Quando o Ba’ath, partido nacionalista e do pan-arabismo, chegou ao poder na Síria, em 1963, o general Amin al-Hafez, já muito próximo de Kamel, tornou-se presidente do país.

A partir de então, Kamel passou a circular no mais alto núcleo da política síria, aconselhando o presidente e seus ministros em diversas ocasiões, enquanto transmitia clandestinamente informações sensíveis ao Mossad em Israel.

Entre as informações descobertas por Kamel estavam segredos de Estado muito importantes: os posicionamentos das forças armadas da Síria; a colaboração entre a Síria e a URSS, que fornecia ao país armas, aviões etc.; a aproximação militar com o Iraque; e, principalmente, os planos sírios de modificar o curso do rio Jordão.

Tratava-se de uma tentativa síria de atacar Israel em um de seus pontos frágeis: o abastecimento hídrico. O financiador por trás dessa obra sigilosa de dimensões enormes era ninguém menos que Mohammed bin Laden, pai de Osama bin Laden.

Cotado para vice-Ministro da Defesa (na série o cargo oferecido é o de próprio Ministro da Defesa), Kamel quase chegou a assumir. Nesse momento, contudo, sua posição foi descoberta, já no início de 1965.

A série retrará o espião Kamel Amin Thaabet como um agente ansioso para transmitir informações, mesmo quando deveria ficar em silêncio sob risco de suas transmissões serem interceptadas pela contrainteligência síria.

Nadia Cohen, a esposa de Eli Cohen, no entanto, afirmou recentemente que seu marido foi exposto a pressão de todos os cantos do governo israelense para transmitir informações. Ávidos por obter cada vez mais dados sobre os planos da Síria, o agente infiltrado era obrigado a se arriscar.

Um ano antes de ser descoberto, Eli fez sua última visita a Israel, quando revelou seu desejo de encerrar a missão, pressentindo que sua posição se encontrava cada vez mais vulnerável. À sua esposa, Eli garantiu que seria sua últiam viagem para fora do país.

De volta à Síria, Kamel foi capturado em seu apartamento enquanto realizava mais uma de suas transmissões para Israel.

Os sírios utilizaram tecnologias soviéticas de contrainteligência para detectar interferências de rádio, através das quais chegaram a Kamel.

Após capturado, Kamel foi condenado à morte e enforcado em praça pública em Damasco.

Dois anos depois, em 1967, Israel fez uso das informações transmitidas pelo agente para vencer a Guerra dos Seis Dias contra a Síria, quando arrebatou para si as Colinas de Golã.

Eli Cohen é tido como um herói para os israelenses, tanto pelo seu desempenho como agente de espionagem, quanto pelas valiosas contribuições que deu à vitória de Israel contra os sírios dois anos após a sua morte.

Até hoje, os restos mortais de Cohen não foram devolvidos à sua família. Muitos dizem que, com a guerra recente na Síria, esses restos nem sequer são ainda passíveis de identificação.

Fato é que a nova minissérie da Netlifx, apesar de exagerar em alguns aspectos e ignorar outros, retrata muito bem as façanhas de Eli, ou Kamel.

Aos interessados pela história do Oriente Médio e por histórias de espionagem, é certamente uma produção eletrizante. Um pouco monótona num primeiro momento, não deixa a desejar conforme a história avança.

Sacha Baron Cohen, no papel de Eli/Kamel, vem sendo muito elogiado. A série conta também com a participação de Noah Emmerich no papel do tutor de Eli no Mossad, que interpreta o agente do FBI Stan Beeman em outra execelente série de espionagem (The Americans).

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