Esquerda em vertigem: a quem serve a crítica às alianças?

O documentário Democracia em Vertigem – recentemente indicado ao Oscar de melhor documentário do ano – merece uma série de elogios, afinal elabora eficiente reconstituição cinematográfica dos fatos que cercaram os eventos políticos brasileiros dos últimos anos. Ainda assim, vale a realização de breve reflexão acerca do componente político da avaliação exposta pelo documentário, tanto acerca do conjunto da história política nacional quanto dos supostos erros cometidos pelo PT ao longo de seus mandatos.

Por um lado, a narrativa exibe um tom derrotista acerca dos séculos de construção nacional, pintando uma imagem centrada na desigualdade social, na cooptação do poder por oligarquias e no sufocamento das alternativas populares que vez ou outra ousaram alterar esta ordem. Por outro, ainda que glorificando a figura de Lula desde as greves do ABC, indica a vitória eleitoral de 2002 enquanto resultado das alianças amplas e heterogêneas que o PT concertou com diversos setores da dita oligarquia, e as respectivas concessões de seu programa popular em prol dessas elites.

E é a partir destes elementos que o documentário diagnostica as razões da posterior queda petista: (1) a existência de um sistema político oligárquico que visa esmagar alternativas populares; (2) erros de avaliação do PT, ao preferir as alianças institucionais, com as elites conservadoras, em detrimento da luta de massas. Essa narrativa não é nova: ao longo de todo o governo de Lula e de Dilma, setores minoritários da esquerda pró-governo centraram suas elaborações nessa críticas às demasiadas concessões operadas pelo lulismo, bem como no suposto abandono da luta de massas, que teria centralidade, em suas avaliações, para pressionar o parlamento em prol de reformas estruturais.

No entanto, esse diagnóstico esbarra nas próprias entrelinhas dos acontecimentos dispostos ao longo das mais de duas horas de documentário. Ainda que se aluda à uma frente única das elites conservadoras contra o governo PT, em diversos momentos se demonstram propostas de rompimento da aliança que partiram do próprio governo: a carta branca à Lava Jato, a demissão de elementos indicados por partidos da base aliada para as empresas estatais, a oposição à Eduardo Cunha na Câmara e a posterior entrega de sua cabeça numa bandeja, via CCJ – rompendo pacto que culminaria no arquivamento do processo de impeachment. Todos ensaios voluntaristas que minaram a estabilidade parlamentar construída nos mandatos anteriores, pavimentando o caminho para a futura abertura do processo contra a presidente.

Em 2004, às vésperas da ascensão das denúncias vinculadas ao Mensalão, o então deputado federal Aldo Rebelo (PCdoB) concertou uma ampla frente de partidos em apoio à sua candidatura, vitoriosa, para a presidência da Câmara dos Deputados. Sua capacidade política e de diálogo com setores da base aliada e da oposição foi suficiente, à época, para que denúncias tão infundadas quanto às que hoje levam Lula à prisão e às que levaram Dilma ao impeachment não evoluíssem das páginas da Veja para a deposição do presidente. Longe de constituir um resultado das alianças heterogêneas, a queda de Dilma foi resultado da implosão destas.

Cabe lembrar: no auge das manifestações de 2013, Dilma foi às televisões prometendo uma Constituinte, atendendo aos apelos e à estratégia de movimentos sociais como o MST, inspirados pelo bolivarianismo chavista. Não por acaso, Gilmar Mendes declarou, em seguida, que o Brasil “dormiu Alemanha e acordou Venezuela”. Mais uma vez, não faltou voluntarismo à presidente, que confundiu dublês das revoluções coloridas com o brado de um avanço ao poder popular. A oposição se atiçou, o povo não comprou, e a panela de pressão de 2013 resultou no caldo de onde saíram movimentos que estariam na base das futuras manifestações pró-impeachment, e também no apoio à candidatura do atual presidente, Jair Bolsonaro.

A Lava Jato engoliu não apenas o PT, mas lideranças de grande parte dos partidos tradicionais brasileiros, também servindo como um prato cheio à deslegitimação da política enquanto meio de transformação social, lapidando a ascensão do candidato antissistema de 2018, que hoje tem Moro ao seu lado no governo. Da mesma forma, dinamitou o patrimônio de empresas nacionais, estatais e privadas, atingindo em cheio a geração de empregos, importantes obras de infraestrutura e nossa relevante projeção nos mercados internacionais.

Dentre as empresas dinamitadas, muitas se encontram nos braços da dita oligarquia que comanda o país. Por que foram afetadas? A resposta do documentário é simples: preço a ser pago para derrubar o PT. Desde a Revolução de 1930, o Brasil foi um dos países que mais cresceu economicamente no mundo, enfrentando uma profunda crise e desindustrialização desde a década de 1980. Longe de tangenciar essa questão, o documentário prefere reafirmar a narrativa que vê o Brasil como epicentro da desigualdade social, do racismo, das oligarquias. Nem mesmo a proclamação da República é poupada: desprezada enquanto “golpe militar”. Nessa visão, o PT e os programas sociais seriam um escape para o fim destes séculos de opressão e humilhação, mas as concessões às elites e o distanciamento da luta de massas teriam ceifado os sonhos precocemente

Também presente no documentário, o próprio diálogo de Dilma com Zé Cardoso – o mesmo que rodou o mundo palestrando junto à Sérgio Moro nos últimos anos – demonstra a visão nutrida pelo governo acerca do Congresso: de desprezo e surpresa com o conservadorismo e suposta ignorância dos parlamentares eleitos pelo povo. Talvez esperassem que estivessem no parlamento sueco, ou norueguês: o certo é que passaram longe de obter os votos necessários para frear um processo que leva à implosão não apenas de parte da agenda social dos governos do PT, mas do secular patrimônio político e econômico de uma das mais relevantes nações do grande xadrez geopolítico internacional.

O documentário é elogiável e de certa forma cirúrgico, tanto ao estabelecer uma cronologia concisa e coerente dos acontecimentos políticos quanto ao apresentar uma crítica viva e atual a este processo. Essa crítica é hoje materializada nas movimentações de distintos segmentos da esquerda brasileira, em especial no discurso das lideranças do campo petista, e mais representa uma transposição de uma orientação política para as telas do que o contrário. Logicamente, o PT e sua direção tem plena consciência de que a queda resultou mais do excesso de voluntarismo do que de pragmatismo – e a atual condição de Dilma e seus mais próximos seguidores na construção partidária reflete isso. A reafirmação do discurso da traição das elites e do retorno às bases é uma tática para manter a militância ativa e as várias correntes do partido unificadas, e tem toda coerência com a estratégia de manutenção da assertividade petista no panorama nacional, rechaçando demais vertentes de esquerda que venham a disputar a hegemonia de seu campo.

Enquanto isso, o grosso da população que elegeu Bolsonaro passa a dividir sua preferência entre o bolsonarismo e sua dissidências, sem estabelecer gestos de futuro apoio ao lulismo ou demais setores à sua esquerda. Instituições históricas e consolidadas do Estado nacional, vide Forças Armadas e Itamaraty, se assustam com as grotescas inflexões de nossa política externa. O Centrão se articula e procura uma via por fora do atual presidente. Parte dos setores produtivos se ressente das gestões econômicas, e teme a perda de mercados no estrangeiro.

Foram as alianças com partidos de centro e direita que permitiram a determinado setor das esquerdas, ainda que minoritário no conjunto da sociedade, comandar um amplo governo de coalizão por mais de uma década. A queda resultou da implosão destas, com a chancela do próprio governo. A quem serve, nesse momento, insuflar a naufragada tese de que a derrota das esquerdas foi fruto das concertações amplas e heterogêneas que estabelecia? Por um lado, aos que anseiam por precipitar um segundo turno entre o bolsonarismo e o multiculturalismo da Rede Globo. Por outro, aos que preferem se autoproclamar resistência, frente a lidar com as agruras e contradições do poder. De todas formas, não restam dúvidas: serve à reação.

1 Comentário

  • Tanto a crítica aos governos petistas, quanto a sua defesa, têm um pressuposto indefensável: a de que é possivel transformar o país através de eleições no âmbito da democracia de fachada controlada pela plutocracia, por isso, esse debate me produz uma sensação de estranhamento, de coisa de louco. Ambos os lados vivem na Matrix que a ideologia dominante (e hipnótica) burguesa faz supor que seja uma via “democrática” capaz de ser alargada evolutivamente até um dia ser finalmente franqueada ao povo. Os dois pólos desse debate são reformistas, o primeiro, constituído por reformistas pragmáticos, que acreditam na capacidade de negociar com as classes sociais de nossa sociedade, estabelecendo um estado de coisas que favorece a todos simultaneamente. O segundo, reformistas “esquerdistas”, que acreditam na possibilidade de colocar o aparato do estado burguês a serviço dos trabalhadores e do povo, não fazendo concessões ao capital, enfrentando-o com o apoio do povo, conquistado magicamente a partir de apelos ao mesmo para defender o governo nas ruas. Aparentemente, para os que somos marxistas-leninistas, a segunda alternativa parece a mais coerente. Porém, isso é completamente falso. A esquerda deve, sempre que for conveniente, participar da luta pela eleição de um presidente progressista. Porém, eleger tal presidente jamais significou ou significará possuir um governo dos trabalhadores, pois o caráter de classe do Estado não se modifica pelo fato de ser o presidente da república um trabalhador, um operário. Isso independe da vontade de quem quer seja, não sendo, portanto, possível implantar reformas com viés socialista a partir de cima, de decretos presidenciais. Esse é o ponto. Como teria muito trabalho para desenvolver essa argumentação em um suporte tão precário como um smartphone, deixarei para fazer isso em outra oportunidade, ficando o texto apenas como um convite à reflrxão e à leitura dos clássicos do marxismo-leninismo (quem não tiver problema para ler Stalin, também seria interessante)

    1

    2

Deixe uma resposta