A estetização da política e a politização da arte

Walter Benjamin em seus escritos do texto “a obra de arte na época da sua reprodutibilidade técnica”, apresenta dois conceitos distintos na produção artística: a estetização da política e a politização da arte.

O primeiro elemento é apontado por Benjamin como o emprego dos mecanismos técnicos em seu mais alto nível de desenvolvimento na arte cinematográfica, com o objetivo de criar uma relação entre a identidade das grandes massas e o conteúdo político e ideológico do nazifascismo. As massas estavam, naquele momento, diante de uma crise: órfãs de uma direção e formulações que apontassem para uma perspectiva revolucionária – principalmente no campo artístico.

Assim, a lógica estética do fascismo operou na cooptação da subjetividade, transformando o sentimento de revolta contra a ordem em uma revolta pela defesa da ordem. É necessário para realização desse assalto da consciência que os indivíduos se vejam representados esteticamente nas grandes produções, que “as massas vejam o seu próprio rosto” para se reconhecer enquanto parte ativa na construção da proposta política.
Como toda ideologia, a estetização da política oculta as verdadeiras relações sociais. As massas são representadas como uma “forma amorfa”, desprovidas do principal elemento através do qual se realizam enquanto classe: a busca pela realização dos seus interesses históricos – o conteúdo. O conteúdo inserido nessa abstração universal é a defesa de interesses particulares, antagônicos aos desejos dos trabalhadores.

A estetização da política não é um fenômeno restrito ao fascismo. A instrumentalização de uma figura abstrata, disforme e sem conteúdo dando a ela vestes de classe e imputando uma defesa contrária aos seus interesses, vem sendo resgatada como um elemento central na produção da nova estética social democrata, bem como do “cinema político” brasileiro. Obviamente, isso não faz da social-democracia um fascismo, ou do fascismo uma social-democracia, tendo em vista que não é a estética que determina ambas as formas políticas. Entretanto, queremos dizer que, nesse aspecto, os dois partem do mesmo princípio: a estetização da política.

Democracia em vertigem é, portanto, sobre como a arte captura e opera uma transformação na consciência. A ideia de contestação e protesto, latente na forma e aparência do documentário, funciona como um artifício no ocultamento de seu conteúdo de defesa da manutenção da ordem. Para o social democrata, a democracia deve se realizar mesmo que o mundo tenha que sucumbir.

E segue ainda, para os comunistas, a tarefa de politizar a arte.

Por Ayrton Otoni

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